A ‘ideia fixa’ do nacionalismo imperial russo

23 de Fevereiro, 2026
19 mins leitura

Reproduzimos abaixo o texto do Andriy Movchan, ativista ucraniano em Espanha, onde recebeu asilo político; ele foi forçado a deixar a Ucrânia em 2014 devido à perseguição política e após ataques físicos da extrema direita ucraniana. O texto foi publicado na revista online ‘Counterpunch.org‘.

“A guerra defensiva da Rússia contra a expansão da NATO” – é um conceito que se tornou quase axiomático para muitos esquerdistas ocidentais. Este conceito serve, convenientemente, tanto para racionalizar as ações da Rússia, como para radicalizar as críticas aos seus próprios governos. Mas que papel é que o próprio Putin atribui à suposta ameaça da NATO? Uma leitura atenta dos seus principais discursos revela que Putin nega explicitamente qualquer perigo de um ataque da NATO à Rússia. Em vez disso, toda a atenção e paixão do governante estão focadas noutro lugar – na questão da “justiça histórica” primordial. Putin despeja crónicas milenares, encontrando nelas provas da sua utopia reacionária, o seu direito histórico imaginário de possuir a Ucrânia. Vamos falar sobre a causa mais subestimada desta guerra – a obsessão ideológica. A ‘idée fixe’ russa1.

1300 quilómetros. Foi esse o aumento da fronteira da Rússia com o bloco militar da NATO em 2022, depois de dois países, anteriormente neutros – a Suécia e a Finlândia – terem aderido à aliança. O Mar Báltico transformou-se efetivamente num mar interno da NATO. São Petersburgo, a capital do norte da Rússia, fica agora a apenas a 148 quilómetros da fronteira de um bloco hostil. Qual foi a reação da Rússia? Putin emitiu um ultimato militar? Ameaçou uma operação preventiva? Concentrou tropas na fronteira? Não. Nada disso aconteceu.

Entretanto, no contexto da Ucrânia, a questão da NATO continua a surgir no discurso russo. Um papel ainda maior é atribuído à NATO no discurso da esquerda ocidental. E isto apesar do facto de a Ucrânia ter sido recusada como membro em 2008. A Alemanha, a França e muitos outros Estados opuseram-se abertamente à adesão da Ucrânia – quando o veto de apenas um membro é suficiente para a bloquear. A própria presença da base naval russa em Sebastopol já tornava a adesão da Ucrânia à aliança praticamente impossível. Após a anexação da Crimeia e o início da guerra no Donbass, a adesão da Ucrânia à NATO tornou-se ainda mais impensável – a existência de disputas territoriais e conflitos em curso fecha automaticamente as portas da aliança a qualquer candidato.

Acontece que a adesão do vizinho do norte da Rússia à NATO não representa nenhuma ameaça para ela – enquanto a Ucrânia, que não tinha nenhuma chance de adesão, tornou-se alvo de uma invasão em grande escala. Como é que isso pode ser explicado? Vamos dar a palavra ao próprio Vladimir Putin.

Quem é o Sr. Rurique?

Vamos voltar a fevereiro de 2024. Moscovo. Após dois anos de boicotes por parte da mídia ocidental, um jornalista americano chega à capital russa, coberta de neve, para entrevistar Vladimir Putin. Esse jornalista é Tucker Carlson – um blogueiro conservador e apoiante de Donald Trump. Cético em relação às explicações da mídia liberal sobre as razões por detrás da invasão da Rússia, ele quer ouvir, em primeira mão, o que levou Putin a lançar a maior guerra terrestre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Afinal, o líder da maior potência nuclear do mundo não poderia ter enviado colunas de tanques para uma capital vizinha sem motivos sérios. Talvez houvesse algo que levou Putin a tomar essa difícil decisão – algo que o público ocidental não sabe? Além disso, Carlson já tem suas próprias suposições sobre o assunto: muito provavelmente, tudo se resume ao governo democrata e sua política de expansão oriental da NATO, que, ele suspeita, provocou a Rússia a tomar essa medida desesperada, não lhe deixando escolha.

Em 24 de fevereiro de 2022, o senhor dirigiu-se ao seu país num discurso nacional quando o conflito na Ucrânia começou e disse que estava a agir porque tinha chegado à conclusão de que os Estados Unidos, por meio da NATO, poderiam iniciar um ‘ataque surpresa ao nosso país’. E aos ouvidos americanos isso soa paranóico. Diga-nos por que acredita que os Estados Unidos poderiam atacar a Rússia de surpresa. Como chegou a essa conclusão?“, Tucker Carlson faz a sua primeira pergunta.

A pergunta é tão precisa quanto justa. Afinal, no século XXI, nenhum Estado pode declarar abertamente uma guerra de conquista sem apresentá-la como defesa contra uma ameaça externa. Todos os agressores – de Hitler a Netanyahu – afirmaram que as suas guerras eram forçadas, defensivas, provocadas por forças externas, uma resposta ao perigo que ameaçava o Estado e seus cidadãos. E se a Rússia se considera defensora, então certamente deve ter os argumentos mais fortes possíveis para tal. O que ameaçava a Rússia? Que perigo Putin estava a tentar evitar?

Não é que os Estados Unidos estivessem a preparar um ataque surpresa contra a Rússia, nunca disse isso“. Putin desvia a atenção, “Estamos num programa de entrevistas ou numa conversa séria? Vou ocupar apenas 30 segundos ou um minuto do seu tempo para lhe dar um breve contexto histórico. Não se importa?

Na tentativa de explicar ao público ocidental os seus verdadeiros motivos para atacar a Ucrânia, Putin dá uma palestra pseudo-histórica de 25 minutos. A partir dela, os americanos surpreendidos ouvem pela primeira vez nomes como o antigo príncipe russo Rurique2, os príncipes Oleg e Jaroslau I3, os líderes mongóis Genghis Khan e Batu Khan, o hétmane4 cossaco Bohdan Khmelnytsky e a imperatriz Catarina II. Putin fala da união de sangue e espiritual entre ucranianos e russos, chamando-os de “um só povo“. Ele até tenta entregar a Carlson uma pilha de cartas arquivadas do século XVII que supostamente provam que os ucranianos são inseparáveis dos russos.

Quaisquer esforços de Carlson para interromper e voltar à questão principal – ‘o que exatamente ameaçava a Rússia em 2022?’ – fracassam. Putin continua arrastando o americano através dos séculos, tentando explicar como os inimigos da Rússia “separaram artificialmente” os ucranianos do povo russo. Tudo isso, insiste Putin, deve ser compreendido para entender as causas mais profundas da invasão.

Durante meia hora, o líder russo, referindo-se a crónicas antigas e cartas medievais, tenta convencer o americano de que as terras ucranianas pertencem à Rússia desde tempos imemoriais. A nação ucraniana e a sua soberania, argumenta ele, são artificiais – um acidente histórico, um erro embaraçoso que agora é hora de corrigir.

Eles querem atacar a Rússia“, “Eles querem destruir a Rússia“, “O país enfrenta uma invasão militar“, “Os nossos cidadãos podem tornar-se vítimas de agressão“, “O nosso território internacionalmente reconhecido está a ser tomado” – nenhuma dessas frases foi dita, nem poderia ter sido.

O próprio Putin admite: a Federação Russa como Estado não enfrentava nenhuma ameaça. O perigo pairava sobre outra Rússia – a Rússia mitológica, milenar, que abrangia terras “históricas” mais amplas. A Federação Russa, dentro das fronteiras da antiga RSFSR, outrora delineadas pelos bolcheviques, é apenas um fragmento do antigo grande território da Rus (nome medieval), incluindo a Bielorrússia e a Ucrânia. A separação e a saída definitiva da Ucrânia do espaço espiritual e político imaginário do “Mundo Russo” – essa é a ameaça que Putin procura evitar. E, no final da conversa, ele afirma isso diretamente a Carlson: “A reunificação [de um povo] vai acontecer. Ela nunca foi a lugar nenhum“, conclui Putin com confiança.

O Direito à Ucrânia

Vamos nos perguntar: se o líder de um país em guerra faz uma longa palestra sobre as profundezas da história para explicar os seus motivos, isso é importante para ele? Sim, é importante. Nada é mais importante. “Uma conversa séria”.

Putin teve duas horas de tempo de antena para explicar ao mundo que não é um vilão e que está apenas a defender a Rússia da ameaça da NATO. No entanto, em vez disso, ele dedica a maior parte do seu tempo de antena ao que considera ser o mais importante – uma justificação primordialista do seu suposto “direito” de possuir a Ucrânia.

Como devemos chamar a isto? Uma obsessão ideológica – uma ‘idée fixe‘ (‘ideia fixa‘).

Ao contrário dos milhares de marxistas ocidentais que insistem que a Rússia enfrenta uma ameaça da NATO, o próprio Putin não afirma nada disso. Pelo contrário, ele nega-o categoricamente. Ninguém planeava – nem planeia – atacar a Federação Russa. A razão para a guerra, diz Putin, é a remoção “ilegal“, “blasfema” e “historicamente criminosa” do berço mítico da Rússia – Kiev e as terras circundantes do sul da Rus – da sua esfera de influência.

Não é de admirar que Putin demonstre total indiferença em relação à adesão da Suécia e da Finlândia à NATO. A razão é simples: esses países não pertencem ao espaço primordial imaginário conhecido como “Mundo Russo“. As pessoas lá não falam russo; não há igrejas antigas da Rus, nem locais de grandes batalhas, nem artefactos sagrados da mitologia nacionalista. Os finlandeses dificilmente podem ser chamados de “um só povo” com os russos. Mas a Ucrânia é uma história diferente – cuja posse é a ideia fixa do nacionalismo imperial russo e de Vladimir Putin pessoalmente.

De facto, o governante da Rússia vê a guerra como defensiva. Mas em que sentido? Simplificando, ele não está a “defender” a Federação Russa dentro das suas fronteiras de 1991, mas sim as fronteiras de um antigo império que, na sua convicção mais profunda, foram ilegal e artificialmente arrancadas pelo inimigo do seio do Estado milenar da Rússia.

Assim como os líderes sionistas acreditam firmemente que o seu “direito à Judeia e Samaria está escrito na Bíblia“, a liderança russa passou a acreditar que o seu direito de possuir a Ucrânia é confirmado pelas crónicas da Rus de Kiev e pelas cartas de Bohdan Khmelnytsky5.

Tanto para Israel como para a Rússia, o conceito de direito internacional é muito recente e ainda não resistiu ao teste do tempo. O sistema de direito internacional baseado na ONU tem apenas oitenta anos; o tratado europeu sobre a inviolabilidade das fronteiras – apenas cinquenta. O que é esse disparate comparado com crónicas milenares e textos sagrados?

Se o direito internacional humilha a Rússia ao negar as suas “reivindicações legítimas” sobre o berço da civilização russa, então deve ser um mau direito internacional! Se não permite a devolução de terras históricas, serve os inimigos da Rússia. Se perpetua o desmembramento do outrora unificado Império Russo, se permite que os ucranianos deixem o seio do “Mundo Russo“, então seguir tal direito não é apenas prejudicial, mas criminoso. Essa é, grosso modo, a lógica dos anciãos do Kremlin.

Poucos duvidariam dos profundos motivos ideológicos que impulsionam os líderes de Israel na sua guerra permanente pela expansão territorial. Por que, então, a esquerda internacional se recusa a ver os impulsos ideológicos semelhantes por trás da liderança da Rússia?

Ignorar o quanto Putin está obcecado com a conquista da Ucrânia requer um tipo excepcional de cegueira.

O conceito de um povo dividido

Talvez uma entrevista não seja suficiente para tirar conclusões? Vamos analisar outros discursos e declarações importantes de Putin.

Seis meses antes da invasão, em julho de 2021 – quando o mundo estava apenas a começar a recuperar da pandemia e ninguém imaginava uma guerra em grande escala – Vladimir Putin publicou o seu infame artigo “Sobre a Unidade Histórica dos Russos e Ucranianos“. Nele, expôs pela primeira vez uma declaração abrangente do seu compromisso com o mito primordialista, preparando o terreno ideológico para a sua futura invasão.

Nesse artigo completamente pseudocientífico, repleto de manipulações e alegações falsas, Putin declara que russos, bielorrussos e ucranianos não são nações distintas, mas ramos de um único povo russo. A ideia principal que permeia todo o artigo é clara: a identidade ucraniana foi artificialmente construída e alimentada pelos inimigos da Rússia para dividir um povo e colocar as suas partes umas contra as outras.

Aos ucranianos é negada uma identidade nacional separada, o seu próprio Estado e a capacidade de exercer a soberania como bem entenderem. Pela primeira vez, Vladimir Putin expõe sistematicamente as suas opiniões sobre a ordem mundial adequada: a Ucrânia deve existir exclusivamente dentro do “espaço espiritual e político” russo. Qualquer tentativa dos ucranianos de sair desta esfera será considerada uma violação da integridade da harmonia primordialista.

O que é isto, senão uma declaração direta dos motivos ideológicos por trás da guerra?

Alguns podem dizer: “Talvez esta seja apenas uma entre muitas declarações. Certamente há outras em que Putin descreve pragmaticamente as ameaças ao imperialismo ocidental contra a Rússia“. Não – Putin não escreveu nenhum outro artigo programático. O seu artigo “Sobre a Unidade Histórica…” continua a ser o único e definitivo manifesto da invasão.

Vladimir Putin repetiu as mesmas teses no seu discurso principal em 21 de fevereiro de 2022, três dias antes do início da invasão.

Desde os tempos antigos, os habitantes das terras históricas do sudoeste da Rus de Kiev chamavam-se russos e ortodoxos“, é assim que ele começa mais uma das suas dissertações pseudo-históricas.

Exatamente metade do seu discurso é dedicado ao argumento ideológico de que a Ucrânia é um Estado artificial, criado pelos bolcheviques. Que o erro criminoso de Lenine na política nacional resultou na excisão do Império Russo unificado de uma “criatura feia” – uma Ucrânia independente. E, aparentemente, cabe agora a Vladimir Putin corrigir este erro fatídico.

Sim, este discurso também aborda a expansão da influência militar da NATO na Ucrânia. Mas o que importa é o contexto em que isso é mencionado. O problema, na perspetiva de Putin, é o seguinte: as cidades costeiras da Ucrânia foram conquistadas no século XVIII pelos senhores da guerra czaristas russos, à custa do sangue dos soldados russos e, portanto, a presença de bases da NATO naquela região seria uma afronta à memória dos heróicos colonizadores russos.

Por uma questão de justiça, deve-se notar que, em dois breves parágrafos, Vladimir Putin menciona uma possível ameaça da NATO ao território internacionalmente reconhecido da Rússia. Ele adverte que, se os americanos instalarem os seus mísseis e bombardeiros estratégicos na Ucrânia, isso seria uma “faca no pescoço“.

Mas… Em primeiro lugar, estas breves passagens perdem-se completamente no contexto da sua extensa justificação primordialista para a guerra. Se a defesa contra uma hipotética agressão militar da NATO fosse realmente o motivo principal, teria claramente sido uma prioridade mais elevada. Em segundo lugar, o cenário de armas nucleares serem destacadas na Ucrânia e os americanos atacarem a maior potência nuclear do mundo é totalmente improvável – algo que o próprio Putin reconheceria dois anos mais tarde na entrevista a Carlson acima citada. Terceiro, como já mencionado, quando a “faca no pescoço” veio da Finlândia, Putin não fez… nada!

O que nos resta? As duas principais encíclicas de Putin sobre a invasão são puras destilações de ideologia.

O Argumento central

Talvez, após quatro anos de guerra – após os enormes sacrifícios feitos pelo povo ucraniano ao resistir à invasão, após os ucranianos terem demonstrado através de todas as suas ações que se recusam a viver sob o domínio russo – talvez, após tudo isso, Vladimir Putin tenha adotado uma postura mais pragmática e abandonado a sua ideia fixa de “reunir o povo dividido“? Não, ele permanece fiel à sua utopia reacionária.

Já disse muitas vezes que considero os povos russo e ucraniano como um só povo, na verdade. Nesse sentido, toda a Ucrânia é nossa“, declarou Putin no verão de 2025.

Nesse mesmo verão, Donald Trump decidiu tirar a Rússia do isolamento internacional e convidou Putin para uma cimeira no Alasca. Oferecendo concessões bastante generosas, ele esperava que o líder russo, como político pragmático, chegasse a um acordo e fizesse a paz. Mas Trump estava errado. Nenhum acordo foi feito. O ‘Financial Times‘ descreve os detalhes da reunião a portas fechadas da seguinte forma:

Putin rejeitou a oferta dos EUA de alívio das sanções em troca de um cessar-fogo, insistindo que a guerra só terminaria se a Ucrânia capitulasse […]. O presidente russo proferiu então um discurso histórico confuso, abrangendo príncipes medievais como Rurique de Novgorod e Jaroslau, o Sábio, juntamente com o chefe cossaco do século XVII Bohdan Khmelnytsky – figuras que ele frequentemente cita para apoiar a sua afirmação de que a Ucrânia e a Rússia são uma única nação. Surpreendido, Trump levantou a voz várias vezes e, a certa altura, ameaçou sair. Acabou por encurtar a reunião e cancelar um almoço que estava previsto…

Vamos apenas reiterar este ponto. Nas primeiras conversações desde 2022 entre os líderes das duas maiores potências nucleares do mundo, Vladimir Putin discute com o seu homólogo, não o “cerco da Rússia pelas bases da NATO“, não as armas nucleares americanas na Europa, não as “preocupações de segurança da Rússia“, não os mísseis de médio alcance ou a defesa antimísseis – em suma, nenhuma das questões constantemente citadas pelos esquerdistas ocidentais quando discutem a suposta guerra defensiva da Rússia contra a expansão da NATO.

Não, Putin está preocupado com assuntos totalmente diferentes. Numa reunião de alto nível com o presidente dos EUA, invoca lendas medievais como o argumento mais importante para reconhecer o seu “direito à Ucrânia“. Repetidamente, lança-se em longas palestras, na esperança de que os líderes ocidentais finalmente compreendam o conceito de “um só povo” enraizado na antiguidade e reconheçam a sua correção. Se isso não é obsessão ideológica, então o que é?

‘Praxis’, Na Prática

É claro que se poderia supor que essa ideia fixa primordialista de “reunir um povo dividido” não vai além das palestras quase históricas de Vladimir Putin em eventos públicos – que, na prática, a Rússia está apenas agindo pragmaticamente para eliminar ameaças externas. Mas não é esse o caso. Os princípios ideológicos da utopia reacionária da Rússia estão sendo plenamente realizados no decorrer desta guerra.

Nos últimos quatro anos, a Rússia foi varrida por uma campanha ideológica massiva que visava negar a própria existência da Ucrânia. Os alunos de todas as escolas russas, desde o primeiro ano, agora participam de “Conversas sobre coisas importantes” – aulas semanais de propaganda chauvinista estatal. Em 2023, os livros escolares foram reescritos pessoalmente pelo ministro da Cultura, Vladimir Medinsky – um dos que exercem forte influência ideológica sobre Putin – para descrever a Ucrânia como uma formação artificial criada pelos bolcheviques. Dmitry Medvedev, ex-presidente de 2008 até 2012, ex-primeiro-minister de 2012 até 2020, e um alto funcionário, apela publicamente para que a independência ucraniana “desapareça para sempre“, tendo como pano de fundo um mapa gigante que mostra dois terços das terras ucranianas anexadas pela Rússia. Propagandistas televisivos como Vladimir Solovyov vão muito além da simples negação da Ucrânia, chegando mesmo a apelar à destruição das cidades ucranianas se os seus residentes não se renderem ao exército russo e aceitarem uma identidade russa. O filósofo de extrema-direita Aleksandr Dugin, ligado ao Kremlin, chama à Ucrânia “uma mancha tóxica no nosso território“, argumentando que, após a ocupação total, a identidade ucraniana terá de ser erradicada durante décadas para impedir o seu ressurgimento.

Mas a personificação mais reveladora das ideias primordialistas de Vladimir Putin é a política seguida nos territórios ocupados. Um relatório de 2025 do ‘Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais‘ da ONU reconheceu uma campanha sistemática para apagar a identidade cultural ucraniana nas áreas anexadas pela Rússia: “[…] as pessoas nas áreas sob o controlo efetivo da Rússia continuam a enfrentar severas restrições na realização do seu direito de participar na vida cultural, incluindo o direito de usar e ensinar línguas, história e cultura minoritárias. [Há] uma campanha em grande escala para apagar sistematicamente a história, a cultura, a identidade cultural e a língua ucranianas, reescrevendo os currículos históricos e reprimindo os símbolos culturais locais, bem como o enfraquecimento geral da identidade linguística das minorias étnicas em áreas sob o controlo efetivo da Rússia”.

Mas o trabalho ideológico central de erradicar a identidade ucraniana é realizado entre as crianças dos territórios ocupados. A língua ucraniana foi removida dos currículos escolares. As crianças que continuam a falar ucraniano são intimidadas e os seus pais pressionados. Os adolescentes ucranianos são recrutados para grupos paramilitares que os doutrinam com o chauvinismo russo e a hostilidade à identidade ucraniana. Além disso, toda uma rede de campos “militares-patrióticos” treina adolescentes das áreas ocupadas no manuseio de armas, táticas de pequenas unidades, operação de drones e medicina de campo – preparando-os para lutar contra a Ucrânia. As práticas sistemáticas de sequestro, adoção forçada e reeducação de crianças das zonas ocupadas levaram o Tribunal Penal Internacional a emitir um mandado de prisão contra Vladimir Putin em 2023.

Será que tudo isto também deve ser considerado “medidas defensivas provocadas contra a ameaça externa da NATO“? Claro que não! O que estamos a testemunhar é uma política consistente de expansão territorial e assimilação étnica dos ucranianos – a implementação literal da doutrina do “povo único” de Putin.

“Carthago delenda est”

Os marxistas normalmente encaram com desconfiança os motivos ideológicos para a guerra, recorrendo frequentemente ao determinismo económico ou a explicações pragmáticas, como a teoria atualmente popular do “realismo ofensivo“.

No entanto, quando lidamos com um sistema em que o governante supremo concentra um poder praticamente ilimitado e possui o maior arsenal nuclear do mundo, as suas obsessões ideológicas tornam-se um fator crucial na configuração da realidade.

Um exemplo próximo pode ser encontrado na utopia reacionária da extrema direita israelita acima mencionada, que sem dúvida serviu de base para o genocídio em Gaza e a limpeza étnica permanente na Cisjordânia. Poucos observadores de esquerda negariam a importância das doutrinas sionistas na formação da política do Sudoeste Asiático.

Então, por que é que a ideologia primordialista do expansionismo russo é quase totalmente ignorada pelos comentadores de esquerda? Podemos debater longamente como Vladimir Putin chegou às suas ideias, em que fase e por que razões elas se radicalizaram, transformando-se numa força motriz por trás da guerra. Mas negar a sua influência na realidade material é pecar contra a verdade.

A esquerda critica o eurocentrismo. No entanto, muitas vezes ela própria cai nessa armadilha, preferindo acreditar que as elites dos países ocidentais são as únicas culpadas por todos os problemas do mundo. Essa mesma suposição está na base do conceito de “guerra defensiva da Rússia contra a expansão da NATO“. Tal visão eurocêntrica retira totalmente à Rússia a sua capacidade de ação, ignorando os seus próprios motivos e aspirações internas.

A Rússia de Putin é, sem dúvida, um ator no cenário mundial. Ela não se limita a responder a desafios externos, mas impõe a sua vontade. Tem a sua própria visão da ordem mundial adequada – a sua utopia reacionária. Um elemento central dessa utopia, o “povo único“, é a subjugação da Ucrânia e a remodelação radical da identidade dos seus cidadãos, cujo laboratório pode ser observado nos territórios anexados.

A existência de uma nação ucraniana separada e insubmissa tornou-se, para Vladimir Putin, uma espécie de “Cartago que deve ser destruída6 – a ‘idée fixe‘ russa. Sem compreender este facto, 24 de fevereiro de 2022 permanece incompreensível – tal como a frase enigmática recorrente sobre “eliminar as causas profundas do conflito“.

  1. Em psicologia, uma ‘idée fixe’ (‘ideia fixa’) é uma preocupação mental que se acredita ser firmemente resistente a qualquer tentativa de a modificar, uma fixação []
  2. Rurique, também conhecido como Rurik de Novgorod é o fundador varangiano semimítico da primeira dinastia dos czares russos, da dinastia ruríquida. Foi a dinastia governante da Rus de Kiev e seus principados, e, por fim, do Czarado da Rússia. Governaram territórios abrangendo a atual Rússia, Ucrânia e Bielorrússia durante cerca de sete séculos, entre 862 e 1598, até a  ascensão da dinastia dos Romanov. Como resultado, é considerado o fundador tradicional da monarquia russa []
  3. Mais conhecido como Yaroslav ‘o Sábio’, foi Grão-Príncipe de Kiev de 1019 até à sua morte em 1054. Durante o seu longo reinado, a Rus de Kiev atingiu o auge do seu florescimento cultural, poderio militar e expansão territorial. Promulgou o primeiro código legal eslavo oriental e difundiu e consolidou a fé cristã entre os povos eslavos []
  4. Hetmã‘, ou ‘Hétmane‘, era um título político da Europa Central e Oriental, historicamente atribuído a comandantes militares []
  5. Um nobre ruténio, comandante militar e Hétmane dos cossacos zaporozhianos, liderou os cossacos à vitória numa revolta bem-sucedida contra a Comunidade Polaco-Lituana, que resultou na criação de um estado cossaco independente na Ucrânia. Em 1654, assinou um tratado com o czar russo, alinhando o Hetmanato Cossaco ao czar da Rússia, colocando assim a Ucrânia central sob ‘proteção’ russa, transferindo as terras ucranianas a leste do rio Dnieper do controle polaco para o russo. Khmelnytsky foi aclamado como um herói popular e defensor da fé ortodoxa, bem como um lutador pela independência ucraniana e fundador do primeiro Estado ucraniano; entretanto, a propaganda imperial russa promoveu-o como um ‘unificador‘ da Ucrânia com a Rússia []
  6. Carthago delenda est“, é uma famosa frase em latim, proferida pelo senador romano Catão, o Velho, no século II A.C., para encerrar seus discursos. Pressionava pela destruição total de Cartago na Terceira Guerra Púnica, simbolizando uma política de aniquilação do inimigo []
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