Carta ucraniana de solidariedade com o povo palestiniano

2 de Novembro, 2023
6 mins leitura

Pelo seu interesse, reproduzimos abaixo a declaração de dezenas de ucranianos e ucranianas em defesa da Palestina publicado na revista online e de esquerda ‘Commons

Nós, investigadores, artistas, ativistas políticos e sindicais e membros da sociedade civil ucranianos, manifestamos a nossa solidariedade para com o povo da Palestina, que há 75 anos é vítima e resiste à ocupação militar israelita, à separação, à violência colonial dos colonos, à limpeza étnica, à expropriação de terras e ao apartheid. Escrevemos esta carta de pessoa para pessoa. O discurso dominante a nível governamental e mesmo entre os grupos de solidariedade que apoiam as lutas dos ucranianos e dos palestinianos cria frequentemente divisões. Com esta carta, rejeitamos essas divisões e afirmamos a nossa solidariedade com todos aqueles que são oprimidos e lutam pela liberdade.

Como ativistas comprometidos com a liberdade, os direitos humanos, a democracia e a justiça social, e embora reconhecendo plenamente as diferenças de poder, condenamos veementemente os ataques contra populações civis – sejam eles israelitas atacados pelo Hamas ou palestinianos atacados pelas Forças de Ocupação Israelitas e por gangues armadas de colonos. O ataque deliberado a civis é um crime de guerra. No entanto, isto não justifica a punição coletiva do povo palestiniano, identificando todos os residentes de Gaza com o Hamas, nem o uso indiscriminado do termo “terrorismo” aplicado a toda a resistência palestiniana. Também não justifica a continuação da ocupação em curso. Fazendo eco de múltiplas resoluções da ONU, sabemos que não haverá paz duradoura sem justiça para o povo palestiniano.

No dia 7 de outubro, assistimos à violência do Hamas contra civis em Israel, um acontecimento que é agora apontado por muitos para demonizar e desumanizar por completo a resistência palestiniana. O Hamas, uma organização islamista reacionária, deve ser visto num contexto histórico mais amplo e à luz de décadas de invasão de terras palestinianas por parte de Israel, muito antes de esta organização ter surgido, no final da década de 1980. Durante a Nakba (“catástrofe“) de 1948, mais de 700.000 palestinianos foram brutalmente deslocados das suas casas, com aldeias inteiras massacradas e destruídas. Desde a sua criação, Israel nunca deixou de prosseguir a sua expansão colonial. Os palestinianos foram forçados ao exílio, fragmentados e administrados sob diferentes regimes. Alguns deles são cidadãos israelitas afetados por discriminação estrutural e racismo. Aqueles que vivem na Cisjordânia Ocupada estão sujeitos ao apartheid sob décadas de controlo militar de Israel. A população da Faixa de Gaza tem sofrido com o bloqueio imposto por Israel desde 2006, que restringiu a circulação de pessoas e bens, resultando em pobreza e privação crescentes.

Desde 7 de outubro e até ao momento em que este texto é escrito, o número de mortos na Faixa de Gaza ultrapassa as 8.500 pessoas. As mulheres e as crianças representam mais de 62% das vítimas mortais, enquanto mais de 21.048 pessoas ficaram feridas. Nos últimos dias, Israel bombardeou escolas, zonas residenciais, uma igreja ortodoxa grega e vários hospitais. Israel também cortou todo o abastecimento de água, eletricidade e combustível na Faixa de Gaza. Existe uma grave escassez de alimentos e medicamentos, causando o colapso total do sistema de saúde.

A maioria dos meios de comunicação ocidentais e israelitas justifica estas mortes como meros danos colaterais da luta contra o Hamas, mas mantém-se em silêncio quando se trata de civis palestinianos alvejados e mortos na Cisjordânia ocupada. Só desde o início de 2023, e antes de 7 de outubro, o número de mortos do lado palestiniano já tinha atingido 227. Desde 7 de outubro, 121 civis palestinianos foram mortos na Cisjordânia ocupada. Mais de 10.000 prisioneiros políticos palestinianos encontram-se atualmente detidos em prisões israelitas. A paz e a justiça duradouras só são possíveis com o fim da ocupação em curso. Os palestinianos têm o direito à autodeterminação e à resistência contra a ocupação israelita, tal como os ucranianos têm o direito de resistir à invasão russa.

A nossa solidariedade nasce da raiva perante a injustiça e da profunda dor de conhecer os impactos devastadores da ocupação, dos bombardeamentos de infraestruturas civis e do bloqueio humanitário, fruto das experiências vividas na nossa pátria. Partes da Ucrânia encontram-se ocupadas desde 2014, e a comunidade internacional não conseguiu impedir a agressão russa nessa altura, ignorando a natureza imperialista e colonial da violência armada, que consequentemente se intensificou a 24 de fevereiro de 2022. Os civis na Ucrânia são bombardeados diariamente, nas suas casas, em hospitais, em paragens de autocarro, em filas para comprar pão. Como resultado da ocupação russa, milhares de pessoas na Ucrânia vivem sem acesso a água, eletricidade ou aquecimento, e são os grupos mais vulneráveis os mais afetados pela destruição de infraestruturas essenciais. Durante os meses de cerco e bombardeamento intenso de Mariupol, não houve qualquer corredor humanitário. Ao assistirmos aos ataques israelitas contra as infraestruturas civis em Gaza, o bloqueio humanitário e a ocupação de território por parte de Israel ressoam de forma especialmente dolorosa em nós. A partir deste lugar de dor, experiência e solidariedade, apelamos aos nossos compatriotas ucranianos em todo o mundo e a todas as pessoas para que levantem as suas vozes em apoio ao povo palestiniano e condenem a limpeza étnica em massa que Israel continua a perpetrar.

Rejeitamos as declarações do governo ucraniano que expressam apoio incondicional às ações militares de Israel e consideramos tardios e insuficientes os apelos do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia para evitar vítimas civis. Esta posição representa um recuo em relação ao apoio aos direitos palestinianos e à condenação da ocupação israelita, que a Ucrânia tem defendido há décadas, incluindo nas votações na ONU. Conscientes do raciocínio geopolítico pragmático por trás da decisão da Ucrânia de fazer eco aos aliados ocidentais, dos quais dependemos para a nossa sobrevivência, consideramos que o atual apoio a Israel e a rejeição do direito palestiniano à autodeterminação são contraditórios com o próprio compromisso da Ucrânia com os direitos humanos e a luta pela nossa terra e liberdade. Nós, como ucranianos, devemos mostrar solidariedade não com os opressores, mas com aqueles que sofrem e resistem à opressão.

Opomo-nos veementemente à equiparação da ajuda militar ocidental à Ucrânia e a Israel por parte de alguns políticos. A Ucrânia não ocupa os territórios de outros povos, pelo contrário, luta contra a ocupação russa e, por isso, a assistência internacional serve uma causa justa e a proteção do direito internacional. Israel ocupou e anexou territórios palestinianos e sírios, e a ajuda ocidental a este país confirma uma ordem injusta e demonstra dois pesos e duas medidas em relação ao direito internacional.

Opomo-nos à nova onda de islamofobia, como o assassinato brutal de uma criança palestiniana-americana de 6 anos e o ataque à sua família em Illinois, nos EUA, bem como à equiparação de qualquer crítica a Israel com o antissemitismo. Ao mesmo tempo, opomo-nos também a que todo o povo judeu em todo o mundo seja responsabilizado pelas políticas do Estado de Israel e condenamos a violência antissemita, como o ataque de uma multidão a um avião no Daguestão, na Rússia. Rejeitamos igualmente o ressurgimento da retórica da “guerra contra o terrorismo” utilizada pelos EUA e pela UE para justificar crimes de guerra e violações do direito internacional que minaram o sistema de segurança internacional, causaram inúmeras mortes e foram adotadas por outros Estados, incluindo a Rússia na guerra na Chechénia e a China no genocídio dos Uigures. Agora, Israel está a utilizá-la para levar a cabo a limpeza étnica.

Apelo à ação

  • Exortamos à implementação do apelo ao cessar-fogo, apresentado pela resolução da Assembleia Geral da ONU.
  • Apelamos ao governo israelita para que cesse imediatamente os ataques contra civis e preste ajuda humanitária; insistimos no levantamento imediato e indefinido do cerco a Gaza e numa operação de socorro urgente para restaurar as infraestruturas civis. Apelamos também ao governo israelita para que ponha fim à ocupação e reconheça o direito dos deslocados palestinianos a regressarem às suas terras.
  • Apelamos ao governo ucraniano para que condene o uso de terror sancionado pelo Estado e o bloqueio humanitário contra a população civil de Gaza e reafirme o direito do povo palestiniano à autodeterminação. Apelamos também ao governo ucraniano para que condene os ataques deliberados contra palestinianos na Cisjordânia ocupada.
  • Apelamos aos meios de comunicação internacionais para que deixem de colocar palestinianos e ucranianos uns contra os outros, onde as hierarquias de sofrimento perpetuam a retórica racista e desumanizam aqueles que estão sob ataque.

     Testemunhámos o mundo a unir-se em solidariedade com o povo da Ucrânia e apelamos a todos para que façam o mesmo pelo povo da Palestina.

Ir paraTopo

Don't Miss