Paraguai: o presidente Peña demite-se e a mobilização contra o esquema bancário continua

5 de Novembro, 2026
6 mins leitura

Pela UIT-QI

A 5 de novembro, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, demitiu-se após um dia marcado por importantes mobilizações. Peña é aliado de Trump, Milei e Netanyahu; membro do Partido Colorado (Associação Nacional Republicana – ANR), do ditador Stroessner1, que, apesar de ter falecido em 2006, continua a ser presidente honorário do partido. Os protestos foram desencadeados pelo encerramento do Ueno Bank e pelo congelamento de todas as suas contas, depois de o Banco Central do Paraguai ter detetado que o banco não dispunha de fundos suficientes para manter as reservas obrigatórias.

O encerramento inesperado deixou mais de 3 milhões de pessoas, metade da população do país, sem acesso às suas contas bancárias, o que provocou uma indignação imediata que rapidamente se transformou em mobilizações que chegaram ao centro da capital, Assunção. A principal reivindicação é a devolução imediata dos fundos que muitas famílias trabalhadoras têm depositados no banco.

Os manifestantes denunciam também a corrupção do governo e dos seus parceiros capitalistas, empresários e banqueiros, que utilizaram o Ueno Bank para realizar negócios milionários à custa das poupanças dos trabalhadores e dos investimentos públicos direcionados para pensões e outras entidades públicas.

Um esquema de pirâmide promovido por um governo de banqueiros corruptos

O Ueno Bank é um dos maiores bancos do Paraguai e registou um crescimento exponencial desde que Santiago Peña assumiu a presidência, após ter vencido as eleições em 2023. Embora o banco exista desde 1976, em 2021 foi adquirido pelo Grupo Vázquez, um dos maiores conglomerados empresariais do país, cujas atividades abrangem desde as finanças até ao comércio, mobilidade, comunicação e o setor imobiliário. Em 2024, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, concedeu-lhe autorização para operar como banco em todo o Paraguai, o que lhe permitiu adquirir o Banco Visión e ficar com uma carteira lucrativa de mais de um milhão de clientes.

É aqui que começa o flagrante esquema de pirâmide montado a partir das altas esferas do governo Colorado. Carvallo tinha sido presidente da Financiera Ueno e foi posteriormente nomeado pelo presidente Peña como presidente do Banco Central, colocando assim o lobo a cuidar das ovelhas. Mas isto não fica por aqui. O próprio presidente Peña era sócio acionista da Ueno Holding, composta por empresas como a Ueno Seguros, a ITTI e o Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank.

O esquema fraudulento disfarçado de negócios bancários assumiu proporções escandalosas quando o governo destinou investimentos públicos milionários ao banco, que ascenderam a 850 milhões de dólares em fundos públicos do Instituto de Previsão Social (IPS), incluindo fundos destinados a reformas, pensões e outros benefícios sociais.

Na terça-feira, 4 de novembro, tudo explodiu e a fraude oculta foi exposta perante o povo paraguaio, que saiu em massa para as ruas, desencadeando uma grave crise política.

Peña demite-se e procura salvar-se

A mobilização obteve as suas primeiras vitórias na tarde do dia 5 de novembro. O presidente Peña demitiu-se publicamente depois de Horacio Cartes, ex-presidente da República e atual presidente do Partido Colorado, lhe ter retirado o apoio. Além disso, o Banco Central anunciou que irá recorrer ao Fundo de Garantia de Depósitos para iniciar a devolução do dinheiro aos seus aforradores, que terão de abrir contas bancárias noutros bancos.

Apesar destes anúncios, a mobilização continuou, uma vez que, com a sua demissão, Peña procura evitar ser julgado e preso devido à sua relação com o banco fraudulento. A Constituição do Paraguai estipula que todos os presidentes do país têm o privilégio inédito de se tornarem senadores vitalícios de forma automática; sem que ninguém vote nele, poderia ter voz, mas não voto, no Senado. Mas o que realmente interessa a Peña é que, ao tornar-se senador vitalício, poderia beneficiar-se das imunidades vitalícias, evitando assim as execuções judiciais.

Apesar das manobras, a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de impeachment contra Peña, mas a sessão bicameral – deputados e senadores – convocada para tratar da renúncia apresentada por Peña não teve seguimento. O Partido Colorado ordenou a retirada dos seus deputados, privando a sessão do quórum, uma vez que não dispunha dos votos necessários para aceitar a demissão de Peña, numa tentativa de encerrar a crise política sem grande alvoroço e de entregar o governo ao vice-presidente, Pedro Aliana. A oposição parlamentar pretende não aceitar a demissão para dar seguimento ao processo de impeachment aprovado na Câmara dos Deputados por unanimidade, com 78 votos.

Nenhuma confiança no novo governo: continuemos a mobilização

A saída de Peña do governo é iminente. A mobilização de rua, que sofreu repressão com gás lacrimogéneo, bastões e balas de borracha, já gritou “Fora Peña!” e conseguiu-o em 24 horas de luta. Agora, o regime corrupto dominado pelos partidos tradicionais do Paraguai procura salvar-se para salvar o sistema de negócios e exploração que bancos, grandes empresários e latifundiários mantêm há décadas contra a classe trabalhadora e o povo camponês.

A saída negociada e a nomeação de Pedro Aliana, também do Partido Colorado – que aproveita as suas disputas internas para sair favorecido da crise -, visa aliviar a tensão e salvar os autores materiais da fraude: os bancos e as grandes empresas aliadas do governo. O novo governo aposta também na manutenção da política pró-imperialista e de parceria ativa com Donald Trump – que, há apenas 72 horas, sofreu uma derrota retumbante nas eleições intercalares -, bem como nas alianças com Milei e o genocida Netanyahu, para continuar a fazer parte do ‘Escudo das Américas‘ (‘Shield of the Americas‘).

Santiago Peña assumiu o cargo ostentando os seus vastos conhecimentos em finanças e o facto de ter sido funcionário do FMI, ministro das Finanças e funcionário do Banco Central, afirmando que tiraria o país da crise e criaria 500.000 postos de trabalho. Tal como nos Estados Unidos, no Chile, no Peru e na Bolívia, a extrema-direita tem governado e continuará a governar em prol dos banqueiros, dos capitalistas saqueadores e dos latifundiários usurpadores das terras camponesas.

Da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), repudiamos a repressão e apoiamos as lutas do povo paraguaio, que continua nas ruas e clama: “Exigimos a cabeça de Santiago Peña!“, “Santi para a prisão!“, “Não aos privilégios” e denunciam que são eles, os que governam, que não só roubaram os salários dos aforradores e os fundos de reforma, como também roubaram todo o país e os direitos conquistados pelos trabalhadores, camponeses, mulheres e jovens.

Nenhuma confiança no novo governo colorado! Que sejam devolvidos todos os fundos roubados! Que Peña vá para a prisão e que lhe sejam confiscadas todas as propriedades e ativos financeiros! Chega de negócios com os fundos públicos de pensões e reformas! Por um sistema bancário nacional único que acabe com o negócio dos grandes bancos privados! Dinheiro para o trabalho, a saúde e a educação, e não para os grandes negócios! Chega de repressão! Viva a luta do povo paraguaio!

  1. Conhecido como “El Stronato“, Alfredo Stroessner Matiauda foi um político paraguaio, general do exército e ditador militar, que governou como presidente do Paraguai de 1954 a 1989. Seria reeleito sete vezes, primeiro sem oposição num regime de partido único, e depois através de eleições consideradas fraudulentas. Conduziu o golpe de Estado militar em 1954 com o apoio do governo dos EUA, e só deixou o poder quando outro golpe de Estado, igualmente apoiado pelos Estados Unidos, mas desta vez pelo seu sogro e confidente o tenente-general Andrés Rodríguez Pedotti, o depôs. Com o exército e a polícia militar, que atuavam como polícia secreta, instituiu um período de regime autoritário e repressão política violenta, durante o qual foram cometidas várias violações contra os direitos humanos, como prisões arbitrárias, tortura e desaparecimento forçado. No total, 19.862 pessoas foram presas, 18.772 torturadas, 20.814 exiladas, e 459 assassinados ou desaparecidas. Foi tambem uma peça importante durante a ‘Operação Condor‘, a campanha de terrorismo de Estado instigado e promovido pelos EUA na América do Sul no contexto da ‘Guerra Fria‘, colaborando com outras ditaduras latino-americanas. Em 2019, numa casa sua, foram descobertas ossadas humanas, tratando-se de restos mortais de vítimas de tortura da sua ditadura. Também era cabeça de uma rede de tráfico humano em que, tanto Stroessner como o seu círculo mais próximo, sequestraram e violaram crianças entre os oito e os 15 anos de idade [↩]
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