“Não há espaço para o genocídio”: ampliem o boicote cultural a Israel

30 de Maio, 2026
3 mins leitura

Por Elif Sevimay, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Também este ano assistimos ao aumento dos apelos ao boicote cultural contra a imposição da presença de Israel no domínio cultural. Enquanto a destruição em Gaza continua, é importante que eventos como o ‘Festival Eurovisão da Canção‘, a ‘Berlinale‘ (‘Festival Internacional de Cinema de Berlim‘) e a ‘Bienal de Veneza‘ sejam ofuscados por ações de protesto. De facto, ao amplificar o discurso que se materializa no slogan “O genocídio não deve ter palco”, podemos denunciar a tentativa de conferir legitimidade às ações deste Estado pirata através da linguagem da arte.

Neste sentido, o ‘Festival Eurovisão‘ constituiu um exemplo da maior crise da história do concurso. Espanha, Eslovénia, Países Baixos, Islândia e Irlanda retiraram-se do concurso, recusando-se a partilhar o palco com um Estado que pratica genocídio. A insistência da União Europeia de Radiodifusão (EBU) em manter Israel no concurso enquanto o genocídio decorre, apesar de ter banido a Rússia devido à invasão da Ucrânia, revelou claramente o seu duplo padrão.

Além disso, relatórios divulgados revelaram que o governo de Israel conduziu uma campanha abrangente e prolongada ao longo de vários anos com o objetivo de influenciar a votação do Eurovision. O apelo de Netanyahu para votar, o lobby diplomático e os esforços do presidente Herzog nos bastidores para convencer as emissoras europeias fizeram parte dessa campanha. Este trabalho, desenvolvido nos últimos dois anos, teve um papel importante no facto de Israel ter ficado em segundo lugar no concurso. Além disso, o concurso foi frequentemente criticado por se ter transformado num instrumento da estratégia de “pinkwashing” (‘lavagem rosa‘)1 de Israel.

A tensão no âmbito cultural não se limitou ao ‘Festival Eurovisão‘. Na ‘Bienal de Veneza‘, mais de 200 participantes exigiram a exclusão de Israel. O júri anunciou que não avaliaria os representantes de Israel, mas, na sequência de pressões legais por parte destes, o júri demitiu-se. A Bienal voltou a abrir as portas a Israel com um novo “prémio do público“.

Os festivais de cinema também se transformaram no palco deste confronto. O exemplo da ‘Berlinale‘, organizada pela Alemanha, foi o mais marcante. Uma carta aberta assinada por nomes como Javier Bardem e Tilda Swinton denunciou o “racismo anti-palestiniano” do festival e a forma como este abandonou a coerência demonstrada nas questões relacionadas com a Rússia e o Irão quando se trata de Israel. Os nomes colocados na lista negra por se oporem ao massacre em Gaza denunciaram o mecanismo de censura de Hollywood.

Por outro lado, com a campanha “No Music for Genocide” (‘Não há Música para o Genocídio‘), mais de mil músicos, incluindo Björk, Aurora, Lorde, Kneecap, Paramore e Massive Attack, apelaram ao bloqueio geográfico da sua música em Israel. No campo do cinema, mais de 1.300 nomes, entre os quais atores como Olivia Colman, Javier Bardem, Tilda Swindon, Emma Stone, Mark Ruffalo, Susan Sarandon, e diretores como Boots Riley, Yorgos Lanthimos e Ken Loach, assinaram uma declaração “Um Compromisso Contra a Cumplicidade“, anunciando que não irão colaborar com as instituições culturais de Israel.

Enquanto o genocídio continua, a indústria cultural não pode esconder-se atrás do pretexto da neutralidade. Todas as redes que sustentam Israel e todos os meios onde o sionismo se instala continuarão a ser alvo do boicote cultural.

Não há palco para o genocídio, embargo total a Israel!

  1. Também conhecido como ‘rainbow-washing‘, refer-se à variedade de estratégias políticas e de marketing destinadas à promoção de instituições, países, pessoas, produtos ou empresas, apelando à sua condição de simpatizantes da comunidade LGBTQIA+, principalmente atraves de divulgar mensagens que, superficialmente, demonstram simpatia pela comunidade queer, mas que, na realidade, têm pouco ou nada a ver com a igualdade ou a inclusão de pessoas LGBTQIA+. Muitas vezes é empregue simultaneamente com o ‘capitalismo arco-íris‘. Trata-se de uma variação do ‘greenwashing‘, uma prática em que as empresas afirmam ser ecológicas para obter lucro, apesar de pouco ou nada serem. A expressão é especialmente usada para se referir à lavagem de imagem do Estado de Israel que, ao promover a sua população LGBTQIA+, disfarça a violação sistémica dos direitos humanos da população palestiniana. Ao projetar a imagem de ser um território gay-friendly, a população LGBTQIA+ pode chegar a sentir-se identificada com as posições políticas do Estado (homonacionalismo), e participar na islamofobia institucionalizada ao considerar que a população muçulmana é necessariamente homofóbica ou ignorar a discriminação sofrida no seu próprio país []
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