Por Miguel Ángel Hernández, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela, e da UIT-QI
Enquanto Israel avança com o genocídio em Gaza, a usar a fome como arma de guerra, cresce a mobilização mundial em apoio ao povo palestiniano e contra a entidade sionista. Milhares mobilizam-se por todo o mundo, incluindo até em Israel. Artistas, desportistas, intelectuais, judeus antissionistas e sindicatos – todos repudiam Israel, aprofundando o seu isolamento e a sua crise política.
Quase dois anos após o início da agressão israelita contra Gaza, números assustadores expressam toda a magnitude do genocídio: mais de 64.000 palestinianos mortos e 163.000 feridos; até ao momento, 382 já morreram de desnutrição, dos quais mais de 130 são crianças; 43.000 crianças, menores de 5 anos, sofrem de desnutrição, assim como mais de 55.000 mulheres grávidas e lactantes, e 67% das grávidas sofrem de anemia; 21.000 crianças ficaram incapacitadas como resultado dos bombardeamentos.
A 1 de setembro, a principal organização de estudiosos do genocídio no mundo, a ‘Associação Internacional de Académicos em Genocídio‘ (‘International Association of Genocide Scholars‘ – ‘IAGS‘), declarou que Israel estaria a cometer um genocídio em Gaza.
A fome e a limpeza étnica continuam
Antes desta decisão do IAGS, algumas organizações reconheceram a existência de um genocídio em Gaza, tais como a ‘Amnistia Internacional‘, a ‘Human Rights Watch‘, a ‘Forensics Architecture‘, a relatora especial sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados, Francesca Albanese, e até mesmo, de forma inédita, organizações de direitos humanos israelitas como a ‘B’TSelem‘ e ‘Médicos pelos Direitos Humanos Israel‘.
Por sua vez, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental ocupadas, o exército sionista e os colonos mataram quase mil palestinianos desde outubro de 2023, segundo a ONU. Os assassinatos ocorrem paralelamente à destruição de milhares de oliveiras, à demolição de casas e ao estabelecimento de novos assentamentos ilegais.
Aos bombardeamentos indiscriminados por ar, terra e mar e aos ataques do exército que invadiu a faixa em 2023, soma-se o uso deliberado da fome como arma de guerra, com o cerco que Israel impõe ao povo de Gaza desde o início do ano, a impedir a entrada de alimentos, medicamentos, água e combustível em Gaza. Em agosto, o sistema de classificação da insegurança alimentar reconhecido pelas Nações Unidas confirmou que algumas partes de Gaza sofrem de fome. A 20 de agosto, começou a incursão terrestre do exército sionista na cidade de Gaza, no centro da faixa, zona onde o exército ainda não tinha entrado. Simultaneamente, intensificaram-se os bombardeamentos e os ataques em Jabalia, no norte, e no bairro de Zeitún, o maior da cidade de Gaza, enquanto o exército sionista emitia ordens de deslocação para o sul para mais de um milhão de pessoas, como parte da sua política de expulsão da população palestiniana de Gaza.
Foram aprovados, ao mesmo tempo, planos para acelerar a construção de colonatos a leste de Jerusalém, o que impediria o acesso à Cisjordânia ocupada. Para esse efeito, o ministro das Finanças de extrema-direita, Bezalel Smotrich, confirmou a decisão e disse que isso “apaga na prática a ilusão dos ‘dois Estados’ e consolida o controlo do povo judeu sobre o coração da terra de Israel… Cada colónia, cada bairro, cada habitação é um novo prego no caixão desta ideia perigosa“.
O projeto inclui a construção de uma nova estrada que separaria o tráfego palestiniano para Israel como parte do regime de apartheid estabelecido desde 1967 nos territórios ocupados.
Mas, para além dos bombardeamentos e da incursão terrestre na Cidade de Gaza e do avanço dos colonatos na Cisjordânia, o que se destaca, o que é qualitativo, é o imenso movimento de solidariedade que cresce exponencialmente em todo o mundo, lembrando a solidariedade internacional nos anos da guerra do Vietname.
Imponente movimento mundial de solidariedade com a Palestina
O crescimento da mobilização dos povos do mundo em apoio à Palestina, e a repudiar o genocídio sionista, é qualitativo. As marchas, concentrações e diversas manifestações de solidariedade continuam a espalhar-se. Cada vez mais artistas, cineastas, desportistas, intelectuais, sindicalistas e outras personalidades expressam publicamente o seu repúdio ao genocídio em Gaza.
Em estádios de futebol ou teatros onde se apresenta algum artista, milhares gritam “Palestina vencerá!” ou agitam uma bandeira ou faixa contra Israel. Nas cerimônias de entrega de diplomas das universidades, os estudantes exibem bandeiras palestinas. Na Itália, por exemplo, um ativista pró-palestino exortou, em voz alta, os consumidores a devolverem os produtos que estavam a comprar numa loja que apoia Israel, a apelar ao movimento ‘Boicote, Desinvestimento e Sanções‘ (‘BDS‘). E assim se multiplicam os locais e as diversas situações em que indivíduos ou milhares de pessoas manifestam o seu apoio ao heróico povo palestino.
A 20 de agosto, houve uma marcha massiva em Berlim com uma importante participação da comunidade árabe e palestiniana da Alemanha. Nesse país, a principal economia da União Europeia, que fornece 30% das armas a Israel, cresce a rejeição a Israel e ao genocídio que está a cometer. De acordo com a pesquisa Politbarómetro de agosto, 76% dos alemães afirmam que as ações de Israel em Gaza não são justificadas e 83% dizem que o governo deveria interromper as exportações de armas para Israel.
A 23 de agosto, em Bruxelas, Bélgica, milhares de pessoas saíram às ruas a exigir o fim do comércio de armas com Israel; em Helsínquia, Finlândia, milhares de pessoas marcharam, assim como em Ottawa, Canadá, e em Londres.
A 24 de agosto, Israel atacou a cidade de Sana’a, capital do Iémen, o único país árabe que enfrenta militarmente Israel. No mesmo dia, ocorreram manifestações multitudinárias em 25 cidades da Austrália, entre elas Adelaide, Melbourne, Brisbane, Sydney e a capital, Canberra, que reuniram mais de 200 mil pessoas. As marchas ocorreram dias depois do governo daquele país anunciar que reconheceria o Estado palestiniano.
No Senegal, Malásia, Grécia, Dinamarca, Milão e Coreia do Sul, as ruas ficaram lotadas. Nos dias seguintes, houve mobilizações em Frankfurt e na Suécia. Em Seoul, na Coreia do Sul, milhares de pessoas manifestaram-se contra o assassinato de jornalistas em Gaza por parte de Israel.
Recentemente, em Buenos Aires, houve duas mobilizações massivas, uma no início de agosto com o slogan “Todos somos filhos de Gaza” , que reuniu mais de 10.000 pessoas e teve réplicas em outras cidades do país. E outra no sábado, 30 de agosto, com o slogan “Basta de genocídio!”.
A rejeição a Israel e a solidariedade com o povo palestiniano vão além das organizações e ativistas tradicionais que, durante décadas, se mobilizavam pela Palestina. O movimento hoje abrange diversos setores que reagem, alarmados diante do genocídio a céu aberto, televisionado e divulgado todos os dias pelas redes sociais e grandes meios de comunicação, que se viram obrigados a mostrar as imagens de fome, desespero, destruição e morte resultantes dos bombardeamentos e da fome planeada que o sionismo israelita executa diariamente.
Foi impactante ver recentemente as imagens da volta ciclística no Estado Espanhol ‘Vuelta a España‘, interrompida em Bilbao por centenas de manifestantes com bandeiras palestinianas que impediram a conclusão da etapa. Lá, exigiram a saída da equipa ‘Israel-Premier Tech‘, propriedade do empresário sionista Sylvan Adams, intimamente ligado ao criminoso primeiro-ministro Netanyahu. Também nas Astúrias, manifestantes pró-palestinianos bloquearam o caminho dos ciclistas, o que levou o presidente das Astúrias a solicitar à equipa israelita que se retirasse da ‘Vuelta‘. Além disso, informou que nenhum membro do governo assistiria às etapas que se realizariam nas Astúrias, em protesto contra o genocídio em Gaza.
Por sua vez, a ‘Associação Italiana de Treinadores de Futebol‘ dirigiu-se à ‘Federação Italiana de Futebol‘ para solicitar a exclusão de Israel da UEFA e da FIFA.
Em junho, em Munique, na alemanha, centenas de adeptos do Paris Saint-Germain desfraldaram uma enorme faixa com os dizeres “Stop genocide a Gaza” (‘Acabem o genocídio em Gaza‘) no estádio ‘Allianz Arena‘, onde se disputou a final da ‘Liga dos Campeões‘. No final do jogo, foi emocionante ver as imagens dos adeptos do PSG a marchar pelas ruas da cidade, empunhando uma bandeira palestiniana e gritando slogans contra Israel.
No passado dia 2 de setembro, um grupo de professores do movimento “Maré Palestina: Educação contra o genocídio“, fechou-se dentro do Círculo de Belas Artes de Madrid a exigir aos ministros que acordassem o embargo integral da compra e venda de armas a Israel. Um grande grupo de artistas espanhóis, do colectivo ‘Artistas com a Palestina‘ também fizeram uma campanha de ação em vídeos a manifestar-se contra o genocídio em Gaza e exigindo ao governo espanhol o rompimento de todas as relações com Israel. Entre os artistas, podemos citar Pedro Almodóvar, Javier Bardem, a cantora e compositora Rozalén, entre muitos outros.
Em todo o mundo continuam as manifestações de repúdio a Israel e de apoio ao heróico povo palestiniano, isolando cada vez mais a entidade sionista. Podemos mencionar a destacada atriz Susan Sarandon, que tem uma longa tradição de ativismo em favor da Palestina e que se juntou ao apoio à ‘Flotilha Global Sumud‘, que partiu recentemente de Barcelona com destino a Gaza com ajuda humanitária. Vanessa Redgrave, aos 88 anos e de cadeira de rodas, participou recentemente, com uma panela na mão, num protesto contra a fome em Gaza num edifício público em Londres, juntamente com outros ativistas.
A lista é longa: a pintora Diana Dowek, as escritoras Laura Restrepo e Rosa Montero, atores como Mark Ruffalo, Salma Hayek, Pedro Pascal, Liam Cunningham, bandas musicais como Coldplay, Kneecap e Fontaines D.C., e músicos como Dua Lipa, Roger Waters, Eric Clapton, Billie Eilish, Ariana Grande e Residente, que em julho cancelou a sua participação nos festivais ‘FIB’ de Benicàssim e ‘Morriña Fest‘ em La Coruña, ambos no Estado Espanhol, por estarem ligados ao fundo de investimento ‘KKR‘, que apoia financeiramente empresas israelitas de tecnologia militar, vigilância e sistemas de espionagem, e que financia projetos imobiliários nos territórios palestinianos ocupados.
Sumud: a maior frota da história
Talvez a expressão mais marcante de solidariedade com o povo palestino seja a ‘Flotilha Global Sumud‘, que no final de agosto partiu de Barcelona, Espanha. Trata-se da maior flotilha desde 2008, quando foi organizada a primeira missão de navios que tentaram romper o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza.
Com a participação de ativistas de 44 países, mais de 30 embarcações, com cerca de 300 pessoas, partiram do porto de Barcelona levando ajuda humanitária com destino a Gaza, com o objetivo de romper o bloqueio de Israel à Faixa. Mais de 30.000 pessoas se inscreveram para embarcar e colaborar com as tarefas logísticas e de organização.
De Génova, Itália, também partiram 4 navios. Cerca de 50.000 pessoas acompanharam a partida dos navios. A 30 de agosto, mais de 700 pessoas navegaram do Porto de Marghera até à praia Lido de Veneza em solidariedade com a frota Sumud que no dia seguinte partiu de Barcelona. No total, 42 barcos com mais de 500 tripulantes zarparam a caminho de Gaza
Diante das ameaças proferidas por Israel, acusando os membros da frota de serem “terroristas“, os trabalhadores do porto de Génova, de onde partem todos os anos 14.000 contentores para Israel, avisaram que bloquearão o porto se a comunicação com a frota for cortada ou se Israel a atacar.
A crise do sionismo aprofunda-se
O movimento que exige o regresso dos reféns tem crescido exponencialmente em Israel nos últimos meses. As manifestações já não se realizam apenas aos sábados, mas diariamente. No dia 17 de agosto, ocorreu uma das maiores manifestações já realizadas em Israel, com cerca de 300 mil pessoas mobilizadas em Tel Aviv, a exigir o fim da guerra e a assinatura de um acordo com a resistência palestiniana para garantir o retorno dos reféns. A mobilização de setores cada vez mais importantes da população israelita a exigir o fim da guerra e o regresso dos reféns nas mãos da resistência palestiniana está a gerar fortes contradições dentro do regime sionista e do gabinete do ultradireitista Netanyahu. As manifestações são o pano de fundo de uma crise política que não cessa.
Em maio, Netanyahu demitiu o chefe do Shin Bet, serviço de segurança interna de Israel, que o estava a investigar pelo chamado “Qatargate”, escândalo pelo qual assessores do primeiro-ministro recebiam pagamentos do Catar para promover na imprensa israelita uma campanha a favor da concessão àquele país como anfitrião do Campeonato Mundial de Futebol de 2022.
Em junho do ano passado, a crise refletiu-se no seio do Gabinete de Guerra com a demissão de Benny Gantz e Gadi Eisenkot, ambos do partido Unidade Nacional, principal opositor ao governo do Likud.
Mais recentemente, o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert disse, numa entrevista em abril, que Israel estava a atravessar “a crise mais grave da sua história“. Em seguida, afirmou: “O que Israel está a fazer atualmente em Gaza está muito próximo de um crime de guerra“.
Também Yair Golan, militar reformado, deputado e líder do partido ‘Os Democratas‘, afirmou, em declarações à imprensa israelita, que “um país sensato não combate civis, não mata bebés por diversão e não tem como objetivo expulsar uma população“. Acrescentou ainda que “Israel está a caminho de se tornar um Estado pária, como a África do Sul foi (durante o apartheid)“. Estas declarações caíram como um balde de água fria no gabinete de Netanyahu e tiveram grande repercussão na opinião pública israelita.
Olmert, Golan, Gantz, Eisenkot e outros líderes críticos do governo de Netanyahu são sionistas. No entanto, a mobilização mundial contra o genocídio e as contínuas marchas e manifestações de rejeição ao governo em Israel estão a causar uma grande crise política no seio do sionismo, que se manifesta nas contradições e diferenças políticas. Golan, Olmert, Gantz e outros estão entre aqueles que defendem a solução fracassada dos dois Estados, e divergem de Netanyahu e seus ministros de extrema direita no ritmo e nas formas de enfrentar a resistência palestiniana.
Israel, mais isolado do que nunca
Em nenhum outro momento da sua história Israel esteve tão isolado internacionalmente. Toda a mentira da “única democracia do Médio Oriente” caiu por terra diante das imagens do genocídio perpetrado em Gaza, somado ao avanço das novas colónias judaicas na Cisjordânia. A falsa ideia do pequeno país sitiado e obrigado a defender-se já não pode ser sustentada nem ocultada pelos meios de comunicação internacionais, que não tiveram outra escolha senão mostrar diariamente as terríveis imagens de crianças mortas e da destruição bárbara de Gaza, como não se via desde os anos da Segunda Guerra Mundial.
As manifestações de isolamento são cada vez mais evidentes. A 29 de dezembro de 2023, o governo da África do Sul acusou Israel perante o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) de estar a cometer um genocídio contra o povo palestiniano em Gaza. À ação da África do Sul juntaram-se os 57 países que integram a ‘Organização para a Cooperação Islâmica‘ (‘OCI‘), entre os quais o Egito, o Irão, o Iraque e a Turquia. Também se juntaram a Bolívia, a Venezuela, o Brasil, o Chile e a Colômbia.
Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores da Holanda renunciou ao cargo após as suas propostas de tomar medidas contra Israel terem sido rejeitadas. A Turquia rompeu relações econômicas e comerciais com Israel e fechou seu espaço aéreo aos aviões israelitas.
Continuar aprofundando a mobilização em apoio à resistência palestina
A UIT-QI propõe que, para derrotar o sionismo e seu regime de apartheid, travar os bombardeamentos e a limpeza étnica que Israel tenta realizar com o apoio do imperialismo norte-americano e europeu, o melhor apoio à heroica resistência palestiniana é aumentar e ampliar a mobilização de todos os povos do mundo. É necessário encurralar Israel em todos os âmbitos e setores, aumentando mais ainda o seu isolamento, o que contribuirá para agravar a crise política que se desenvolve no interior da entidade sionista.
Apelamos à realização de ações unitárias em todo o mundo, que exigem a abertura imediata das passagens fronteiriças para garantir a entrada de alimentos, medicamentos, combustíveis e água e o restabelecimento da energia elétrica.
Exigimos que todos os governos do mundo, e especialmente os regimes árabes e do Sudoeste Asiático, que muito pouco fazem pelos palestinianos, rompam relações políticas, diplomáticas, comerciais, culturais e académicas com Israel, e que apoiem com armas e recursos a resistência palestiniana em Gaza e na Cisjordânia.
Somos a favor do cessar-fogo imediato, da retirada de todas as tropas israelitas de Gaza, Cisjordânia, Síria e Líbano, bem como do fim dos bombardeamentos contra o Iémen. Rejeitamos a limpeza étnica na Palestina e os planos de Trump e Netanyahu de transformar Gaza numa estância balnear turística para os milionários e multi-milionárions do mundo.
Repudiamos a detenção ilegal e a ameaça de deportação dos ativistas que defendem a liberdade da Palestina, como acontece nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Argentina e outros lugares. Por uma Palestina única, laica, democrática e não racista. Palestina livre, do rio até ao mar!