Por Oswaldo Pacheco, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela
No passado dia 18 de julho, foram repatriados 252 venezuelanos que se encontravam detidos no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) de El Salvador. Estes cidadãos tinham sido deportados dos Estados Unidos em março de 2025, quando o presidente Trump invocou a ‘Lei dos Inimigos Estrangeiros‘ de 1798, que permite a expulsão rápida de estrangeiros considerados uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.
Estas deportações representaram uma grave violação dos direitos humanos fundamentais. Os venezuelanos foram criminalizados sem provas, acusados de pertencerem ao grupo “Tren de Aragua“, e enviados para a prisão de Bukele sem que fossem cumpridas as disposições da legislação norte-americana.
De acordo com o acordo trilateral, a Venezuela obteve a repatriação dos 252 compatriotas em troca da libertação de 10 norte-americanos presos por crimes contra a segurança do Estado. Além disso, o governo venezuelano comprometeu-se a libertar 80 presos políticos. Dias após a concretização do acordo de troca de prisioneiros, foi tornada pública a decisão do governo de Trump de renovar a licença da Chevron para continuar a operar no país, ficando evidente que isto também teria feito parte do acordo, embora Maduro, numa entrevista aos meios de comunicação social, se tenha recusado a confirmá-lo.
Nas negociações entre os governos da Venezuela, dos Estados Unidos e de El Salvador, participou o ex-presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, aliado do governo autoritário e fraudulento de Nicolás de Maduro, que já tinha mediado anteriormente a libertação de opositores políticos na Venezuela.
A hipocrisia e a submissão do governo venezuelano
O governo de Maduro classificou as deportações e detenções como “sequestros“. No entanto, esta denúncia revela-se hipócrita, tendo em conta que, segundo organizações de defesa dos direitos humanos, na Venezuela permanecem aproximadamente 948 presos políticos sujeitos em condições desumanas, incluindo isolamento, tortura e detenção de menores. A maioria dos detidos sofreu desaparecimento forçado; em muitos casos, só foi possível saber extraoficialmente o local de detenção dos detidos; não lhes é permitido ter um advogado privado de sua confiança, entre muitas outras irregularidades.
O que o governo venezuelano critica em Trump e Bukele é uma prática quotidiana no nosso país, onde se perseguem os opositores políticos ao regime, aqueles que protestam pelos seus direitos ou denunciam a corrupção em organismos do Estado.
O governo de Maduro procura cair nas graças da administração Trump para alcançar acordos favoráveis, tentando esconder que a maioria dos venezuelanos emigrou devido à grave crise económica, política e social gerada pelo brutal ajustamento que aplica, pela restrição das liberdades democráticas e pela violação sistemática dos direitos humanos, tudo agravado pelas sanções imperialistas, que sempre repudiamos a partir do Partido Socialismo e Liberdade (PSL).
No âmbito da troca de prisioneiros, Maduro afirmou numa entrevista à Telesur que quase diariamente se realizam reuniões em Miraflores com funcionários norte-americanos. Dando mostras de um discurso ambíguo, num dia apresenta-se como anti-imperialista e no outro afirma: “Hoje mantemos relações de comunicação permanente, diárias, sobre diversos temas. Excelente! Estamos a construir relações de respeito. Estamos a construí-las, de forma permanente“.
Nessa mesma entrevista, Maduro colocou as riquezas do país à disposição dos investidores norte-americanos: “Todo o investidor dos Estados Unidos que queira trabalhar com pessoas sérias, pessoas de palavra, com base na legalidade, venha para a Venezuela. A Venezuela é o paraíso dos investimentos em petróleo, gás, petroquímica, hidrocarbonetos, etc.”. Não podia ser mais claro.
A cumplicidade pró-imperialista da oposição venezuelana
A oposição burguesa liderada por María Corina Machado tem sido incapaz de condenar os abusos contra os migrantes venezuelanos nos Estados Unidos. Pelo contrário, ela endossa o discurso da administração Trump, criminalizando os venezuelanos e, na prática, justificando as deportações em massa. Por outro lado, solicita aos Estados Unidos que intensifiquem as sanções contra a Venezuela, ao mesmo tempo que pede apoio internacional para a política de Trump, argumentando que a Venezuela ameaça a segurança dos Estados Unidos e da região.
A partir do PSL, apelamos às organizações democráticas, de esquerda e de direitos humanos, para que impulsionem uma campanha contra estas deportações ilegais e desumanas. É imperativo que se respeitem os direitos dos venezuelanos obrigados a emigrar e que se deixe de utilizar os migrantes e os presos políticos como moeda de troca para obter favores políticos e
se perpetuar no poder.