Por Armando Guerra, do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela
Vários meios de comunicação noticiaram o naufrágio de uma embarcação venezuelana após esta ter sido bombardeada por um “suposto transporte de drogas“. Assim foi reconhecido, numa declaração de altos representantes do governo norte-americano. O ataque à embarcação ocorreu dias após o envio de vários navios de guerra, caças, milhares de soldados e um submarino nuclear para o mar das Caraíbas, e portanto o ataque não pode ser entendido, a nosso ver, senão como uma agressão. Como tal, merece uma resposta enérgica por parte do governo e uma exigência de explicação por parte do governo dos EUA.
Embora não seja provável que esta manobra se transforme numa invasão militar a curto prazo, devemos condenar esta pressão e ameaça imperialista, que recicla as doutrinas da ‘guerra ao terror‘ e da ‘guerra às drogas‘, e que Trump pode invocar para atacar qualquer país da América Latina e das Caraíbas.
O afundamento do barco com a sua tripulação é um assassinato vil
O contexto em que esta agressão ocorre é muito importante, uma vez que se passa pouco mais de um ano após a fraude eleitoral de 28 de julho de 2024. A primeira coisa que devemos esclarecer é que cabe ao povo venezuelano decidir a política e o método através dos quais sairemos do governo de Nicolás Maduro. Por isso, rejeitamos que forças estrangeiras queiram marcar presença nas nossas costas com falsos argumentos, de ajustar contas com o ‘Cártel de los Soles‘ (‘Cartel dos Sóis‘), promovendo ataques a embarcações e assassinando os seus tripulantes.
O envio de navios militares faz parte da linha de Trump de tratar os cartéis de tráfico de drogas da região como uma ameaça militar. Segundo a versão do governo norte-americano, o ‘Cartel dos Sóis‘ usa o tráfico de drogas “como arma contra os EUA”. Esta tentativa grosseira de dar uma conotação subversiva ao narcotráfico também serve a Trump para apresentar as suas ações agressivas como se fossem ‘defensivas‘. Trump, como os seus antecessores, acredita que o papel dos EUA é o de um polícia global, habilitado a exercer violência onde e quando quiser. Ao mesmo tempo, é um gesto para a direita cubana e venezuelana de Miami, setores representados pelo Secretário de Estado Marco Rubio, que se ressente da autorização para a continuidade dos negócios da transnacional ‘Chevron‘ na indústria petrolífera venezuelana.
A 25 de julho, Trump sancionou o suposto Cartel dos Sóis, descrevendo-o como um grupo criminoso liderado pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro. Trump alegou que esse ‘cartel‘ apoia dois grupos do crime organizado, o venezuelano ‘Tren de Aragua‘ e o mexicano ‘Cartel de Sinaloa‘, que também considera terroristas. Segundo Trump, o ‘Tren de Aragua‘ promove a ‘invasão‘ dos EUA por imigrantes venezuelanos, fazendo uma perigosa amalgama reacionária entre narcotráfico, terrorismo e imigração. Trump já enviou imigrantes latino-americanos para Guantánamo e para a megaprisão do Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), administrada pela ditadura salvadorenha de Nayib Bukele.
A 14 de agosto, os militares norte-americanos informaram que três navios de guerra, com cerca de 4.500 soldados, partiram para o Mar das Caraíbas. Em 2 de setembro, Trump disse ter atacado uma embarcação em algum ponto do Caribe, matando onze pessoas, que ele acusou de serem traficantes do ‘Tren de Aragua‘. Contudo, há motivos para duvidar da versão norte-americana, visto que nenhuma evidência corrobora o que Trump afirmou. O ‘Tren de Aragua‘ não é considerado por investigadores e académicos como um traficante de drogas significativo a nível regional, e segundo versões jornalísticas, o barco bombardeado poderia estar a transportar migrantes.
Rejeitamos e denunciamos a destruição do barco e o assassinato dos seus onze tripulantes. As embarcações norte-americanas têm capacidade e força de persuasão suficientes para capturar vivos e provar com factos o que alegam: se eram ou não traficantes de drogas. Em qualquer caso, não consideramos que um criminoso não tenha direitos humanos, e o ataque representa uma violação descarada e vil dos direitos humanos dos tripulantes. Não houve detenções, investigações nem julgamento. Foi um ato de extermínio frente às costas da Venezuela e não vemos – o que é indignante – uma resposta enérgica do governo venezuelano. O assassinato dessas pessoas foi executado sob as ordens e a ostentação do alto comando militar dos EUA.
Após o incidente, o governo ianque afirmou que aviões militares venezuelanos se aproximaram dos navios de guerra ianques e em resposta enviou então caças a Puerto Rico. Quando o governo uruguaio promoveu uma declaração na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) expressando preocupação com a presença militar dos Estados Unidos nas Caraíbas, vários governos da direita, entre eles o governo de Abinader da República Dominicana, o Milei da Argentina, o Bukele de El Salvador, a Boluarte de Peru, e ainda Equador, Costa Rica, Paraguai, Trinidad e Tobago e Guiana, não a assinaram. Também a 2 de setembro, por meio do decreto 500-25, o presidente Abinader designou como ‘organização terrorista‘ o ‘Cartel dos Sóis‘, ao qual também se referiu como ‘grupo armado‘. Os governos de extrema direita da Argentina, Paraguai e Equador seguiram e fizeram o mesmo.
Estamos perante uma perigosa escalada de agressões e ameaças imperialistas, que condenamos, independentemente da nossa falta de apoio à burguesia venezuelana. Condenamos ainda o servilismo dos governos da direita das Américas perante Trump. Exemplo disso é o governo de Abinader, que permitiu a confiscação de bens do Estado venezuelano, em violação aberta da soberania dominicana, por meio de ações secretas de suas instituições judiciais e de representantes venezuelanos das autoridades norte-americanas. A direita, que tanto fala sobre soberania para justificar a violência racista de Abinader, nada diz a esse respeito.
Segundo os EUA, o Cartel dos Sóis é um cartel de tráfico de drogas dirigido pelo governo venezuelano. Na realidade, esse ‘cartel‘ não existe. Desde a década de 1990, antes da chegada ao poder do chavismo, a denominação Cartel dos Sóis tem sido uma forma genérica de se referir na Venezuela à corrupção e à cumplicidade militar com o tráfico de drogas. A Venezuela não é um país produtor, mas sim um país de trânsito nas rotas de tráfico que vão da América do Sul para os EUA e a Europa.
Os militares corruptos venezuelanos, envolvidos em diversos negócios, como o tráfico de ouro extraído por máfias na fronteira com o Brasil ou a venda de combustível em países vizinhos, não usam o narcotráfico para desestabilizar os EUA. Eles simplesmente cobram aos narcotraficantes para permitir que desenvolvam as suas atividades em território venezuelano. É a grande procura por drogas nos EUA que gera um enorme incentivo económico para essa atividade. O dinheiro dos consumidores gringos financia o crime organizado nos nossos países. Tanto a procura, que responde a um problema social e de saúde pública dos EUA, como o tráfico ilegal, consequência da criminalização das drogas, são da responsabilidade dos EUA. A resposta a este problema não passa pela chamada ‘guerra às drogas‘, que falhou nos últimos 40 anos, mas sim por políticas de saúde pública para prevenir e tratar as dependências, e pela legalização e fiscalização da produção, como acontece com drogas legais como o álcool e o tabaco. Em vários países, e na maioria dos estados dos EUA, o consumo de cannabis, por exemplo, já foi descriminalizado.
O cartel do imperialismo – As drogas como pretexto ou como arma
Rejeitamos e denunciamos o argumento de “combater o narcotráfico” para realizar um bloqueio naval. A suposta defesa do povo norte-americano, na boca de Donald Trump, Marco Rubio e outros representantes de um imperialismo em decadência e em crise, não é credível.
O imperialismo tem uma longa relação com o narcotráfico. Não é a primeira vez que o imperialismo usa drogas para controlar setores da população e até países inteiros. Em meados do século XIX, entre os anos de 1839-1842 e 1856-1860, a Inglaterra travou a Guerra do Ópio, para impor a importação de ópio e assim controlar vastos setores da população chinesa. O seu objetivo era controlar os seus portos e mercadorias finas, gerando graves desequilíbrios sociais e de saúde aos chineses.
Posteriormente, durante a depressão dos anos 30 e já decidida a intervenção na Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento do capitalismo inclinou-se para a indústria de armamento, por um lado, e para o mercado de bebidas alcoólicas e drogas, por outro, necessário para manter a classe trabalhadora submissa à produção industrial bélica.
Mais recentemente, durante os anos 60, a juventude norte-americana e as juventudes do mundo estiveram sujeitas à evasão da realidade, à experimentação e ao consumo de drogas a partir da intervenção norte-americana na guerra do Vietname. Com o regresso das tropas aos EUA, poucos foram os representantes dos seus governos que levantaram vozes de alarme. Além de muitos soldados terem voltado com problemas de dependência e vício, o uso de drogas foi direcionado às comunidades negras, latinas e outras camadas mais baixas da sociedade como parte de sua política de controle e defesa de seus interesses.
O governo Reagan apoiou as ‘Contras‘, a guerrilha de direita que lutava na Nicarágua na década de 1980, sabendo que ela traficava cocaína para os EUA. A CIA tinha na sua folha de pagamento o militar panamenho Manuel Noriega, ligado ao narcotráfico. Mais tarde, o governo Bush usou essa desculpa para invadir o país em 1989. Os EUA também deram amplo apoio político e militar ao presidente colombiano Álvaro Uribe, no início dos anos 2000, apesar de serem conhecidas as suas ligações com o paramilitarismo terrorista de extrema direita e o narcotráfico.
Tanto na Indochina, durante a intervenção norte-americana nas décadas de 1960-1970, e no Afeganistão, ocupado pelos EUA entre 2001 e 2021, aumentou a produção e exportação de ópio. Sob a ocupação norte-americana, o Afeganistão tornou-se mesmo o maior exportador mundial de ópio.
O ‘terrorismo‘ também tem sido um trunfo dos gringos para justificar todo o tipo de crimes. A invasão do Iraque em 2003 baseou-se na mentira das ‘armas de destruição maciça‘ e numa falsa ligação entre a ditadura de Saddam Hussein e a Al-Qaeda. Na realidade, os EUA são o maior promotor mundial do terrorismo, com o seu apoio incondicional ao Estado genocida de Israel.
Por isso, não é credível o argumento de chegar às Caraíbas com navios de guerra para “subjugar o cartel dos sóis e impedir a distribuição de drogas em território norte-americano“. Também não foram as armas de destruição maciça – que nunca foram encontradas – a razão e o motivo que levaram o exército norte-americano a invadir o Iraque, mas sim a pilhagem e o controlo das suas riquezas. Escusado será dizer que existem cinco bases dos EUA em solo colombiano, sem conseguir impedir o cultivo, o processamento e a distribuição de drogas.
Fora com os piratas ianques das Caraíbas!
Trump, sujeito ao lema ‘América para os americanos‘ (um slogan que resume a ideia central da Doutrina Monroe, articulada em 1823, que estabeleceu uma política segundo a qual qualquer interferência europeia nas Américas seria considerada um ato hostil contra os Estados Unidos), vê a América Latina e a Venezuela como o seu quintal. O seu único objetivo é o controlo dos nossos recursos, jazidas e riquezas minerais. O imperialismo norte-americano, em sua fraqueza e decadência, perdeu influência em toda a região e separadamente em cada país. Fraqueza diante da qual as burguesias e seus governos locais não assumiram com autonomia e independência os planos de ‘desenvolvimento de seus povos e países‘.
Pelo contrário, estes governos procuram acordos com outros setores do imperialismo, abrindo as portas das empresas estatais e outras áreas a capitais e projetos da Rússia, China, Irão, Turquia e também dos EUA. Nenhum destes governos tem a intenção real de enfrentar o imperialismo em qualquer das suas formas e extensões, mas sim de diversificar a sua carteira de investidores, convidando outros imperialismos, com um ‘discurso anti-yanqui‘.
A isso, o imperialismo norte-americano responde com a lógica de ‘Monroe‘: Trump argumenta que o golfo não é do México, mas da América; que os chineses saiam do canal do Panamá e clama por recuperá-lo; ameaça colocar bases militares na Gronelândia; e através de Milei, pretende investir nas pampas argentinas e nos recursos hídricos com capitais de Israel.
E agora, será verdade que a razão para enviar as suas frotas para as Caraíbas é prender o Cartel dos Sóis? A única e verdadeira razão da frota ianque nas Caraíbas é: erguer a cerca e enviar essa mensagem a todos os povos da América Latina. No caso da Venezuela, para Trump, é um incómodo a associação com capitais chineses e russos em projetos urbanísticos, mineiros, na PDVSA (Petróleos da Venezuela) e a autorização do executivo para a digitalização por satélite dos recursos mineiros do país, por russos e chineses. E claro, que na agenda pode estar a saída de Maduro, já que para conseguir o controlo do petróleo e outras riquezas, ele vê isso como necessário. Nisso, ele faz causa comum com María Corina Machado, e ela, complacente, concorda com Trump, com o seu plano de entrega das riquezas do país. No fundo, esconde-se a busca de espaços de domínio sobre os recursos energéticos e naturais que são propriedade de todos os venezuelanos.
No seu primeiro mandato, Trump impôs sanções petrolíferas contra a Venezuela em 2019, um país já arruinado pela corrupção e pelo desperdício de muitos anos. Também ofereceu uma recompensa por informações que levassem à detenção de Maduro, ao estilo do velho Oeste. Recentemente, aumentou-a para 50 milhões de dólares. Ao mesmo tempo, o governo ianque utilizou centenas de milhões de dólares confiscados ao Estado venezuelano para financiar, durante o primeiro mandato de Trump, a ampliação do seu muro fronteiriço. Trata-se de ações abertas de pirataria e roubo de recursos que pertencem, em última instância, ao povo venezuelano.
Logicamente, Maduro é combatido por toda a esquerda venezuelana, desde o Partido Comunista da Venezuela e o Pátria para Todos, até o Partido Socialismo e Liberdade; suas políticas reacionárias, como impor um salário mínimo inferior a quatro dólares mensais, reprimir os sindicatos, criminalizar o aborto, perseguir os povos indígenas ou ameaçar invadir a Guiana para anexar a região de Esequibo, não podem ser apoiadas por ninguém que se considere de esquerda. Mas não é o governo ianque que deve decidir quem governa na Venezuela ou qualquer outro país da região. Por isso rejeitamos as ameaças de Trump e nos solidarizamos com a oposição de esquerda venezuelana, que também as rejeitou. A oposição de direita de María Corina Machado segue os passos de Guaidó, hoje totalmente desacreditado, ao basear a sua política na ingerência e nas ameaças ianques.
Repudiamos veementemente a presença de embarcações militares norte-americanas nas costas da Venezuela, pois representam uma ameaça ao país e a outros da região, como Panamá e Colômbia, sobre os quais os EUA manifestaram interesses e possíveis intervenções, que também repudiamos, pois afetam a vida e o desenvolvimento desses povos. Rejeitamos o discurso capitulador e os apelos de María Corina Machado, juntamente com partidos da direita patronal, para promover a presença e as possibilidades de intervenção na Venezuela.
Os EUA têm um histórico de intervenções na América Latina e no mundo. A sua justificação é: manter o controlo político e económico e beneficiar os seus capitais e expressões, com o nosso petróleo, gás natural, ouro, tório, coltan e outros elementos da tabela periódica existentes na Venezuela. Com o apoio de governos servis como o de Abinader e Milei, Trump continua tratando o Caribe como seu “quintal”. O Caribe deve se unir para defender sua dignidade. Quanto à Venezuela, seu futuro não deve estar nas mãos de militares corruptos, muito menos dos imperialistas. É o povo trabalhador venezuelano que deve decidir seu destino.
Por último, e muito instrutivo, é recrearmo-nos na experiência da juventude do Nepal. Esse pequeno país da Ásia entre a China e a Índia, que saiu em busca do seu destino. A mobilização autónoma levou-os a mudar a face do seu país e hoje podemos dizer mais uma vez: só a luta muda a vida. Os destinos na Venezuela não têm por que ser diferentes.
“Fora gringos da Venezuela”
Fora o imperialismo ianque da América Latina e das Caraíbas!