Milei segue o exemplo de Bolsonaro e Trump

4 de Novembro, 2026
5 mins leitura

Pela Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

A crise que o governo de extrema-direita de Javier Milei tem vindo a atravessar continua a agravar-se. O ponto central é o contínuo aumento da indignação popular face a uma austeridade sem fim. Já são milhões as pessoas convencidas de que as promessas do governo de A Liberdade Avança (LLA) de que “a inflação começará em zero em agosto” ou “vêm aí os 18 melhores meses“, como afirmou o ministro Luis ‘Toto‘ Caputo em abril, nunca se concretizarão. O horizonte apresenta-se cada vez mais marcado pela precariedade, pelo desemprego, pela fome e pela recessão. “Já não se aguenta mais” é a frase mais ouvida nos locais de trabalho, nas conversas nos transportes públicos, nas escolas ou nos bairros populares.

Milei deita gasolina no fogo. Continua e intensifica os seus ataques aos jornalistas, prometendo agora “levá-los para a fogueira“. Levou a cabo uma operação incrivelmente vergonhosa com os serviços secretos para permitir a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil.

O velho ditado de que “quando o barco se afunda, a primeira coisa que se vê são os ratos a fugir” começa a dar sinais de se concretizar. A líder do bloco LLA no Senado, Patricia Bullrich, faz, dia após dia, gestos cada vez mais visíveis para se “diferenciar” de Milei. Mauricio Macri e o PRO (Proposta Republicana) também “sentem” a crescente fraqueza de Milei. Por isso, os votos para anular as PASO (Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias)1 e até mesmo para aprovar o Orçamento de 2027 ainda não aparecem por lado nenhum.

Até mesmo os governadores radicais (União Cívica Radical) e as outras forças patronais “partidárias do diálogo” estão a pisar no travão antes de chegarem a qualquer acordo definitivo com o LLA. O ‘establishment‘ económico internacional também manifesta, cada vez mais, as suas dúvidas. Por isso, o risco-país continua a subir, ultrapassando agora os 800 pontos. São milhões as pessoas que estão convencidas de que isto não tem mais futuro. Mas, ao mesmo tempo, há grandes interrogações sobre o que poderá substituí-lo.

Obviamente, os olhares voltam-se, em primeiro lugar, para o peronismo. Aí, as dúvidas não se dissipam. O que se vê? Uma força política patronal mergulhada nas suas disputas internas, com a competição por cargos entre Cristina Fernández de Kirchner e La Cámpora2, por um lado, e Sergio Massa – que nas últimas semanas se tem apresentado como seu parceiro político – e Axel Kicillof com o seu Movimento Direito ao Futuro, por outro, arrastando atrás de si a maioria dos presidentes de câmara inaceitáveis da Grande Buenos Aires, “os barões da periferia“, cuja última aparição foi numa reunião sugestiva com o governador radical de Jujuy, Carlos Sadir, como sinal de uma “grande frente” contra Milei; e outros setores, como os ex-governadores Sergio Uñac, de San Juan, ou Gerardo Zamora, de Santiago del Estero. Sem mencionar que ficam de fora outros que “pedem espaço” para regressar a um peronismo unificado, como Miguel Ángel Pichetto ou o governador de Córdoba, Martín Llaryora.

Mas, independentemente do desfecho desta disputa interna, a única certeza é que todos defendem o mesmo: respeitar os pagamentos da dívida e os negócios dos grandes empresários. Existe um grande e silencioso acordo entre o peronismo e o governo de Milei: dar continuidade à pilhagem de gás e petróleo em Vaca Muerta3 e à exploração mineira em grande escala na cordilheira. Estão convencidos de que daí virão “os dólares” para continuar a pagar a dívida e a garantir os negócios das grandes patronais.

A cena que melhor ilustrou isso ocorreu em Nova Iorque, na reunião de Kicillof com o ‘establishment‘ económico internacional, onde o governador de Buenos Aires sentou ao seu lado, como “fiador“, nada menos do que o próprio José Luis Manzano, um dos empresários mais corruptos e com mais negócios garantidos pelo governo de Milei.

Trata-se de um peronismo que deixa a motosserra de Milei funcionar à vontade, com governadores que, mais de uma vez, lhe deram os votos de que o governo precisava, ou uma CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina) que mantém o seu escandaloso pacto com o governo. O seu passado imediato foi o desastroso governo de Alberto Fernández, com Cristina Fernández de Kirchner como vice-presidente e Massa como ministro da Economia, e a sua proposta “alternativa” é aquela que descrevemos no parágrafo anterior.

Por isso, cada vez mais os olhares se voltam para o que a esquerda tem para oferecer. A ascensão de Myriam Bregman e da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U) é a expressão de tudo isto. É a resposta popular à única força que se opôs unanimemente a todas e cada uma das medidas do “superajuste” (superausteridade) deste governo, que esteve, e continua, nas ruas a apoiar todas as lutas, e a única voz que se ouve a propor um programa verdadeiramente alternativo, defendendo a suspensão do pagamento da dívida externa, a ruptura com o FMI, o aumento dos salários e das pensões e o regresso à priorização da educação e da saúde.

A realidade argentina não está isolada do resto do mundo. O governo de extrema-direita de Milei começa a espelhar-se nos seus parceiros da extrema-direita, no hoje derrotado e fugitivo Flávio Bolsonaro, ou no seu “patrão” Donald Trump, mas também face às enormes mobilizações que abalam Portugal, França, Espanha, Itália, Alemanha, Bélgica, Albânia e Sérvia, com centenas de milhares a repudiar o mesmo que acontece aqui: os cortes orçamentais na saúde e na educação, o dinheiro que não chega para salários e pensões, ou a priorização da especulação imobiliária em detrimento do direito fundamental à habitação.

Por tudo isto, a partir da Esquerda Socialista (IS) e da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), queremos reforçar esta perspetiva, dar a conhecer e dar voz a todas essas lutas que percorrem o mundo. No próximo sábado, dia 14, realizaremos um grande evento internacionalista na Faculdade de Ciências Exatas da UBA. Uma grande oportunidade para ouvir ao vivo vários dos protagonistas destas lutas que percorrem o mundo. Esperamos por vocês.

  1. PASO são as eleições primárias que definem-se quais partidos estarão habilitados a lançar candidaturas às eleições nacionais, que, segundo a lei são aqueles que obtenham ao menos o 1,5 % dos votos válidos na província em que concorrerão os candidatos, e também onde será definida a lista que representará cada partido ou coligação política [↩]
  2. La Cámpora é uma organização política juvenil e movimento social de orientação peronista e kirchnerista na Argentina, que apoia os governos de Néstor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner e Alberto Fernández. A organização foi criada em 2003 por Máximo Kirchner, filho de Néstor e Cristina, e ganhou destaque político após a morte de Néstor, em 2010. O grupo reivindica as ações do grupo guerrilheiro Montoneros, e por isso, em homenagem, recebeu o nome do ex-presidente peronista Héctor José Cámpora, que os favoreceu. A sua metodologia porém não tem semelhança com os Montoneros, já que procuram confrontar a direita política por meio das novas tecnologias, incluindo blogs, Facebook, ‘X‘ e outras redes sociais na internet [↩]
  3. Formação geologica localizada maioritariamente na provincia de Neuquén, zona mais a norte da região da Patagonia, que fornece mais da metade do gás e petróleo de xisto produzido na Argentina. É um dos locais onde mais se pratica a ‘fraturamento hidráulico‘ (também conhecido como ‘fracking‘) fora da América do Norte, com a presença de empresas como Repsol, Chevron, Exxon, TotalEnergies, Petrobras, Shell e BP [↩]
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