O que revelaram as eleições na Alemanha

26 de Fevereiro, 2025
4 mins leitura

Por Bahadır Bedri, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Após as eleições realizadas na Alemanha em 2021, a coligação formada pelo Partido Social-Democrata (SPD), pelos Verdes e pelo Partido Democrático Liberal (FDP) desmoronou-se na sequência das negociações orçamentais, o que levou à decisão de realizar eleições antecipadas. As eleições revelaram, ainda que de forma distorcida, as reflexões políticas da profunda crise em que a Alemanha se encontra: os trabalhadores estão indignados e à procura de alternativas; não querem novas medidas de austeridade sob a égide da União Europeia. Qualquer partido que não consiga produzir políticas genuínas, centradas nas classes sociais e concretas para esta crise está condenado ao fracasso.

No Bundestag (Parlamento Federal da Alemanha), com 630 lugares, a maioria é alcançada com 316 lugares. Como nenhum partido conseguiu atingir esse número, é obrigatório formar uma coligação. É altamente provável que assistamos a uma coligação entre os dois partidos que mais contribuíram para todas as políticas de austeridade na Alemanha: os Democratas-Cristãos (CDU) e o SPD.

A realidade da AfD

O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que duplicou os seus votos, é um dos vencedores das eleições. Com a declaração de que nenhum partido formará governo com a AfD, esta permanecerá como principal partido da oposição até às eleições de 2029. É evidente que a AfD, cada vez mais apoiada e legitimada na Europa pela administração Trump, manterá uma posição forte contra a grande coligação do SPD e da CDU, que nada oferece à Alemanha para além do neoliberalismo e da austeridade. A ausência de alternativas na política geral da Alemanha aumenta a probabilidade de a AfD chegar ao poder nas próximas eleições.

O partido que obteve mais votos nas eleições foi a CDU, herdeira de Merkel. A CDU, que sofreu uma grave perda de votos devido à pandemia, tinha cedido o lugar ao SPD nas eleições de 2021. A CDU, que saiu do poder devido à crise económica, regressou com uma nova crise económica e um novo presidente.

Como novo chanceler da Alemanha, Friedrich Merz não promete nada de muito diferente das antigas políticas neoliberais. No entanto, a ascensão da AfD empurrou a CDU mais para a direita. O novo chanceler aprovou no parlamento, em janeiro, uma lei que visa endurecer as políticas de imigração da Alemanha, com o apoio da AfD. Esta aliança provocou sérias mobilizações populares no país.

Na Alemanha, quem vive com menos de 1.350 euros é considerado pobre. Partindo deste ponto, pode-se dizer que 16% da população alemã é pobre. Desde 2020, a inflação dos alimentos na Alemanha aumentou 30%. Além disso, a Alemanha enfrenta também o problema da habitação a preços acessíveis. Como resultado da crise imobiliária, os preços das rendas aumentaram significativamente.

AfD está a crescer neste clima de impasse, devido ao empobrecimento das massas e à ausência de uma alternativa revolucionária de esquerda. No meio de todo este empobrecimento, da crise energética, da crise económica e da AfD, que promete uma política contra a UE, 38% dos trabalhadores, 34% dos desempregados e 13% dos reformados votaram neste partido. Entre os jovens com menos de 25 anos, é o segundo partido mais votado. Face à crise energética na Alemanha, a AfD promete reabrir centrais nucleares. A presidente da AfD, Alice Weidel, afirmou num discurso contra as centrais eólicas: “Vamos demolir todas as turbinas eólicas. Que sejam demolidos estes moinhos vergonhosos!

Existe alternativa?

A ascensão da AfD está a levar partidos como a CDU, o SPD e os Verdes a posicionarem-se ainda mais à direita do que já se encontravam. Em 1998, sob o governo do SPD e dos Verdes, foram implementadas as políticas que hoje estão na origem da crise energética na Alemanha. Além disso, a transição da UE para a moeda única, o euro, ocorreu também sob este governo.

No início dos anos 2000, a Confederação Sindical Alemã (DGB)e o Banco Central, detentor do monopólio da emissão do euro, celebraram um acordo para reprimir greves e conter os salários. Enquanto os custos com a mão-de-obra aumentavam no sul da Europa, na Alemanha diminuíram. Os setores em que a DGB estava organizada eram, em particular, os setores exportadores. Enquanto a Alemanha registava um excedente da balança corrente graças ao excedente de exportações, entre 2001 e 2009 o poder de compra real dos trabalhadores alemães sofreu uma redução significativa. As sementes lançadas naquela época manifestam-se hoje num impasse económico e numa crise.

Um dos partidos que se destacou nas eleições foi o Die Linke (A Esquerda), que, apesar de ter passado por uma divisão, entrou na corrida eleitoral com a sua nova líder, Heidi Reichinnek, e conseguiu duplicar rapidamente os seus votos (8,7 %). Este partido, que não segue uma linha de ruptura revolucionária, ganhou rapidamente popularidade entre os jovens com menos de 25 anos. Além disso, entre os trabalhadores, a sua votação aumentou 3 pontos percentuais, atingindo os 8%. No entanto, o Die Linke está longe de ser um partido que conduza uma política independente no seio da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, não se opõe ao genocídio na Palestina, nem consegue criticar abertamente Israel. Ainda assim, o rápido crescimento deste partido demonstra que a classe trabalhadora se mobilizará rapidamente quando for criada uma alternativa de esquerda e de ruptura.

O imperialismo alemão, quer seja sob o governo da CDU ou da AfD, entrará de qualquer forma numa grande luta contra a classe trabalhadora e o movimento operário. A luta contra os migrantes, que são os maiores contribuintes para a escassez de mão-de-obra qualificada da classe trabalhadora, é parte integrante da luta contra a classe. Este ambiente de exploração e opressão far-se-á sentir também sobre o movimento operário alemão.

A classe trabalhadora alemã não pode ser condenada à AfD. Na Alemanha, onde outrora foram fundados os mais antigos partidos operários do mundo, a construção de um partido operário revolucionário mantém hoje uma urgência premente. A existência de um partido deste tipo constituirá uma alternativa para a classe trabalhadora em toda a Europa e será o catalisador do internacionalismo europeu.

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