Papa ou Luta

25 de Junho, 2026
3 mins leitura

Por Arnau Adan, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol

O Papa de Roma chega a Madrid a 7 de junho, a Barcelona no dia 9, e conclui a sua digressão pelo Estado nas Ilhas Canárias. Longe de ser a figura de consenso, ordem e serenidade que se espera de Sua Santidade, reabre debates entre a população, desmascara as instituições e provoca o ressurgimento de disputas entre partidos sobre quem se sente mais representado pela Igreja e pelo ‘establishment‘ eclesiástico.

A vergonha dos autoproclamados progressistas do PSOE/PSC torna-se evidente à medida que se sentem cada vez mais à vontade com o conservadorismo. Sentiram-se encorajados por um discurso proferido pelo Papa perante o Congresso dos Deputados contra a xenofobia, a escalada do militarismo e a polarização. Viram-se refletidos nele pelo simples facto de terem aplicado uma regularização insuficiente dos migrantes, ou por se oporem publicamente ao aumento das despesas com a defesa. Nada mais longe da realidade, uma vez que não só aumentaram diretamente as despesas militares, como também aumentaram a frota e os salários dos Mossos d’Esquadra (Policia da Catalunha), além de se terem revelado incapazes de proibir o comércio de armas com Israel.     Na mesma linha, os partidos social-democratas têm aplaudido e admirado os discursos tolerantes sobre a migração, mas apenas por caridade cristã. Em nenhum caso defenderam as migrantes como pessoas que não deveriam ter de enfrentar uma administração pública estruturalmente racista que as trata como cidadãs de segunda classe. Um governo que nem sequer considera revogar a Lei da Mordaça1 ou a Lei da Imigração. Leis que, em última análise, institucionalizam o racismo que dizem combater.

Por outro lado, o PP e o VOX aplaudiram durante mais de 7 minutos um discurso feito à medida para a sua cruzada contra os direitos. O discurso do Pontífice “em defesa” dos nascituros e contra a eutanásia encaixa na perfeição na nova campanha de Isabel Díaz Ayuso (Presidade da Comunidade de Madrid [região Autonoma] pelo PP), que pretende incluir os embriões como novos membros da família. Assim, a direita e a extrema-direita espanholas estão a normalizar o retrocesso dos direitos com o apoio da máxima autoridade da Igreja. Não é uma coincidência: trata-se de um ataque direto a décadas de luta feminista pelo direito ao aborto e a uma morte digna, livre da tutela da moral cristã.

O Papa chega num contexto de renascimento do cristianismo, impulsionado pelas redes sociais com fenómenos como o das “tradwives“, por figuras da cultura pop como a Rosalía e com o apoio dos nossos governos e dos principais partidos políticos de todo o espectro parlamentar. São sobretudo os jovens que, perante um horizonte truncado pelas crises habitacional, económica e climática, encontram nos discursos eclesiásticos uma falsa segurança que os afasta da realidade material e os liberta do mal, defendendo a tradição cristã. Desta forma, procura-se recuperar o controlo episcopal sobre os discursos relativos ao sexo, à sexualidade e ao género, opondo-se às uniões entre pessoas do mesmo sexo, tal como faz o líder do movimento atual. Isto põe em evidência a necessidade de defender ativamente os direitos das mulheres e da comunidade LGTBQIA+ no atual clima de retrocesso.

Felizmente, a classe trabalhadora saiu à rua e organizou-se com um retumbante “Não te espero” (‘Yo no te espero‘). Por um lado, as mais de 237.000 vítimas de abusos sexuais por parte da Igreja exigem reparação. Por outro lado, as organizações sociais manifestam uma clara rejeição aos mais de 5 milhões de euros investidos em segurança para a visita papal, num Estado que se autoproclama laico e no qual a participação em atos religiosos deveria ser individual e não institucional. Apesar da ampla cobertura mediática, o coletivo educativo convocou uma nova greve, unindo forças com diversos setores públicos numa mobilização maciça pela manhã. E à tarde, os movimentos pró-palestinianos, sindicais e de habitação, no âmbito da campanha organizada pelas vítimas e pelo movimento laico, convocaram outro protesto no qual se uniram trabalhadoras de diversos setores públicos e diferentes movimentos sociais em luta.

Em Montjuïc, uma missa. Nas ruas, luta. A classe trabalhadora não esperou pelo Papa para se organizar, nem precisa disso.

  1. Conhecida como ‘Ley Mordaza‘ (‘Lei de Segurança Cidadã‘), em vigor desde 2015, é fortemente criticada por limitar manifestações pacíficas, multar quem fotografa polícias e permitir expulsões sumárias de imigrantes []
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