Sobre a mobilização em França: A greve de 29 de setembro e o movimento dos alunos do ensino secundário

16 de Outubro, 2026
9 mins leitura

Por Baran Mihaliç, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Em França, a jornada de greve e manifestação dos trabalhadores do setor público contra os cortes orçamentais, liderada pelos bombeiros, decorreu a 29 de setembro, dois dias antes da divulgação do projeto de orçamento para 2027 pelo governo. Aos protestos, que mobilizaram centenas de milhares de pessoas em todo o país, juntou-se uma força que ninguém esperava há duas semanas: os alunos do ensino secundário, que bloquearam as suas escolas e saíram para a rua. A polícia deteve mais de 400 alunos do ensino secundário num só dia.

Como jornal “Nisan”, no dia seguinte ao dia de greve de 29 de setembro, conversámos com Fred Bailhau, membro do Comité Executivo da Juventude do ‘NPA – Révolutionnaires’ (Novo Partido Anticapitalista – Revolucionários) da região de Gironde, sobre a mobilização em França, os cortes orçamentais, o movimento dos alunos do ensino secundário, o movimento sindical e a esquerda francesa. Partilhamos a entrevista com os nossos leitores em várias partes. Na primeira parte, abordamos o processo que conduziu ao dia 29 de setembro e a mobilização dos alunos do ensino secundário. A nossa entrevista continuará com a segunda parte, dedicada ao movimento sindical, à luta salarial e às comissões de greve.

No dia de ontem, assistimos a uma greve e a uma manifestação com grande afluência em Bordéus. A participação maciça dos alunos do ensino secundário foi particularmente notável. Podes resumir o processo que conduziu a este dia de ação e a participação dos alunos do ensino secundário?

FB: A mobilização de 29 de setembro começou inicialmente com o apelo dos bombeiros. Embora os bombeiros constituíssem um dos pilares fundamentais do movimento, muitos trabalhadores do setor público, e até mesmo alguns do setor privado, aderiram à causa. Nós também trabalhámos para organizar as universidades no período que antecedeu o dia 29 de setembro. No entanto, o que mais surpreendeu foi a forte participação dos alunos do ensino secundário.

O movimento nas escolas secundárias desenvolveu-se de forma totalmente imprevisível. Há duas semanas, ninguém esperava que algo assim acontecesse. O dia 29 de setembro não tinha sido planeado como uma mobilização da juventude ou dos estudantes. Mas o processo levou-nos a um ponto em que a mobilização dos alunos do ensino secundário se uniu à greve.

Quais foram as razões e as reivindicações que levaram os bombeiros à greve? Soubemos que houve bombeiros que perderam a vida nos últimos incêndios florestais. Isso também teve algum impacto?

FB: Os bombeiros têm sido alvo de cortes orçamentais muito significativos nos últimos anos. Há dois anos, o governo fez cortes de milhares de milhões de euros no orçamento público e o orçamento destinado ao combate aos incêndios também foi afetado. Os bombeiros ficaram gravemente carentes, tanto em termos de equipamento como de pessoal.

Há um exemplo que irrita particularmente os bombeiros mais experientes. Nos incêndios florestais, são utilizados aviões de combate a incêndios fabricados por uma empresa canadiana e a que chamamos “Canadair“. O Estado francês deveria ter 12 Canadair, mas apenas quatro deles estavam operacionais. Ou seja, o Estado dispunha de apenas quatro ‘Canadair‘ para combater os incêndios. Os aviões são antigos, talvez com cerca de 30 anos; não funcionam e necessitam de manutenção constante1.

Por outro lado, a empresa Dassault, historicamente muito próxima do Estado francês, fabrica aviões de combate. O Estado francês possui centenas de aviões de combate Rafale produzidos pela Dassault, e estes aviões são também vendidos à Arábia Saudita, à Índia e a muitas ditaduras. Enquanto a Dassault produz novos Rafale todos os meses, o Estado não consegue manter um número suficiente de ‘Canadair‘2. Ou seja, os cortes orçamentais são feitos com o dinheiro destinado às forças armadas e às grandes empresas.

De acordo com o relatório da comissão de inquérito do Senado, o Estado francês concede às empresas 211 mil milhões de euros de apoio público por ano3. É claro que nós, como pessoas de esquerda, damos grande importância ao dinheiro destinado às forças armadas, mas o dinheiro que o Estado concede às grandes empresas é ainda maior.

Um terceiro elemento é a dívida. Os políticos afirmam que temos de pagar a dívida do Estado. A dívida da França é colossal4 e pretendem pagá-la através de cortes nas despesas sociais. O Estado destina verbas avultadas ao pagamento da dívida.

Podemos dizer que a questão orçamental está também no centro da crise política em França?

FB: Sim. O primeiro passo para os cortes foi dado há dois anos. No ano passado, o governo não conseguiu aprovar o orçamento porque estava em minoria no parlamento. Após meses de debates e sucessivas demissões de primeiros-ministros – podemos dizer que tivemos quatro primeiros-ministros num ano -, o governo conseguiu finalmente aprovar o orçamento com o apoio do Partido Socialista e da extrema-direita.

O orçamento deste ano prevê também um corte de cerca de 50 mil milhões de euros, e o que está a ser cortado são as despesas sociais: hospitais, universidades, escolas, combate a incêndios… Este valor pode parecer pequeno quando comparado com os mais de 200 mil milhões que o Estado concede às grandes empresas, mas tem um impacto enorme na vida dos trabalhadores. O dia de mobilização de 29 de setembro foi precisamente contra estes cortes: os cortes aos bombeiros, aos professores, a todos os serviços públicos…

O aspeto mais marcante do movimento foram os alunos do ensino secundário. Quais são as razões fundamentais e as reivindicações por trás desta forte participação dos alunos do ensino secundário?

FB: Havia uma indignação contra os cortes orçamentais e o custo de vida elevado, e o movimento dos alunos do ensino secundário surgiu de forma repentina. Por isso, é difícil definir as reivindicações concretas do movimento. Na minha opinião, isto está relacionado com a recusa dos alunos do ensino secundário em aceitar o que a sociedade lhes impõe atualmente. Uma parte significativa dos que se mobilizaram são alunos de famílias da classe trabalhadora. Também há alunos de origem pequeno-burguesa a participar na luta, o que é positivo.

Uma das reivindicações que ouvimos é a oposição ao horário escolar que se estende das 8h da manhã às 18h. É um dia muito longo e há grandes intervalos entre as aulas. Além disso, estão a ser introduzidas regras cada vez mais autoritárias. A proibição dos telemóveis é uma delas: agora é preciso entregar o telemóvel ao entrar na sala de aula; se o professor o vir na mão, pode retirá-lo. Mas o que mais ouvimos é que, nos liceus dos bairros da classe trabalhadora, nem sequer há mesas e cadeiras suficientes. As salas de aula estão superlotadas.

Os alunos do ensino secundário sentem diretamente nas suas escolas o impacto dos cortes orçamentais? Estão a sentir a falta de certas coisas?

FB: Sem dúvida. Para além da falta de espaço, a escassez de pessoal é enorme. Numa escola secundária com 2.000 alunos, há apenas uma enfermeira, que nem sempre está presente. Não há psicólogos e faltam professores.

Como os salários são muito baixos, o magistério está a tornar-se uma profissão cada vez menos procurada. No ano passado, o governo viu-se obrigado a reduzir de cinco para três anos a duração da formação necessária para se tornar professor, com o objetivo de aumentar o número de docentes. Apesar disso, os salários são tão baixos que os professores se tornaram praticamente um grupo de trabalhadores sem segurança no emprego. À medida que o número de professores diminui, o magistério torna-se ainda mais difícil, o que afasta ainda mais as pessoas desta profissão.

E há mais uma coisa: muitos alunos do ensino secundário, especialmente os que provêm da classe trabalhadora, gritam “Palestina Livre” nas manifestações e dizem que odeiam Netanyahu.

Também observámos esses slogans e cartazes. Os alunos do ensino secundário querem que os cortes orçamentais sejam revertidos e que as despesas sociais sejam aumentadas. Por outro lado, estes cortes estão diretamente ligados ao aumento das despesas militares e às políticas de guerra. Na tua opinião, a grande maioria dos trabalhadores e dos alunos do ensino secundário está ciente de que o dinheiro que lhes é retirado está a ser canalizado para as despesas militares e para as empresas?

FB: Não, não creio. Por exemplo, na Alemanha existe um movimento entre os alunos do ensino secundário contra o serviço militar, mas na França não. Não creio que os alunos que gritam “Palestina Livre” sejam contra o orçamento militar. Muitos trabalhadores e alguns alunos do ensino secundário não consideram o aumento do orçamento militar algo negativo. Opôr-se ao exército é uma atitude bastante minoritária na sociedade francesa.

Ainda assim, há exemplos. No ano passado, em Marselha, alunos do ensino secundário reuniram-se e organizaram uma manifestação contra o orçamento militar. Em francês, a palavra “canon” significa, na gíria, “muito bonito“, mas também significa “canhão“. Os alunos de Marselha utilizaram o slogan: “Os nossos professores são muito bonitos, mas os canhões do Estado não são professores“.

Na sociedade, diz-se geralmente que o governo é mau porque gere mal o orçamento. Não acho que isto seja uma questão de gestão. Dar o dinheiro aos capitalistas e ao exército é uma escolha política e social. O orçamento está muito bem gerido para os capitalistas! Mas muitas pessoas acham que Macron é um mau gestor e isso talvez esteja a fortalecer a extrema-direita. A extrema-direita afirma: “Vamos gerir bem os cortes orçamentais“, o que é, evidentemente, uma mentira.

Além disso, os alunos do ensino secundário tendem a opor-se à disciplina militar. Também tentamos destacar este ponto quando falamos com eles. Alguns alunos podem dizer “Temos de nos defender“, mas detestam a disciplina militar, o que é positivo. Nós dizemos-lhes que, se queremos defender-nos, isso não será feito com o exército. O exército francês defende, essencialmente, os interesses capitalistas fora do país.

Como correu o dia 29 de setembro? Foi uma greve eficaz? Como estava a situação em Bordéus e noutras cidades?

FB: Na minha opinião, foi um dia importante. Em Bordéus, estavam presentes cerca de 8 mil pessoas, das quais talvez 800 fossem alunos do ensino secundário. Para uma cidade como Bordéus, isto é simultaneamente bom e mau. A maior parte dos bombeiros que queriam participar na greve foi para a manifestação em Paris, pelo que o número de bombeiros em Bordéus foi muito reduzido. O panorama foi semelhante noutras cidades.

Tendo em conta que a maioria dos sindicatos não fez uma preparação adequada para a greve, o número de participantes foi bastante bom. Havia muitos jovens nas manifestações. A verdadeira surpresa que mudou a situação foi a mobilização dos alunos do ensino secundário. Nós, nas universidades, não conseguimos mobilizar pessoas na mesma medida.

Ouvimos dizer que a polícia interveio de forma bastante violenta contra os alunos do ensino secundário e que alguns foram levados para o hospital. Achas que isso também afetou a luta?

FB: Na minha opinião, foi uma tentativa de dissuadir os alunos do ensino secundário, mas falhou redondamente.

  1. A idade média dos 12 Canadair CL-415 da frota da Segurança Civil francesa aproxima-se dos 30 anos. No pico dos incêndios do verão de 2026, a 24 de julho, apenas 5 aviões da frota se encontravam operacionais [↩]
  2. A Dassault Aviation tem como objetivo entregar, em 2026, cerca de 28 Rafale, ou seja, uma média de três aviões por mês; planeia aumentar a produção para cinco aviões por mês até 2030 [↩]
  3. O relatório publicado a 8 de julho de 2025 pela comissão de inquérito do Senado francês sobre os apoios públicos calculou em 211 mil milhões de euros o montante anual de fundos públicos transferidos para as empresas através de mais de 2 mil mecanismos de apoio [↩]
  4. A dívida pública da França ultrapassou os 3,3 biliões de euros em 2025 [↩]
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