Por Ezequiel Peressini, dirigente da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI
Após dois anos de grandes mobilizações e organização, o movimento estudantil, em conjunto com a classe trabalhadora, derrotou o governo de Aleksandar Vučić – um ultraconservador aliado de Trump e, ao mesmo tempo, de Putin, do Partido Progressista Sérvio (SNS) – após 14 anos no poder, ao vencer as eleições num processo político sem precedentes. A Lista dos Estudantes, surgida democraticamente a partir das bases de um conflito longo e profundo, impôs-se sobre o partido no poder com 52,6% dos votos, obtendo uma maioria de 140 deputados, contra os 104 do governo, num parlamento de 250 membros, pelo que poderá formar governo e nomear o primeiro-ministro.
As origens do conflito e as mobilizações em massa
Em novembro de 2024, o teto da estação ferroviária de Novi Sad (a segunda cidade mais importante da Sérvia) desabou sobre centenas de pessoas, matando dezasseis delas. A estação tinha sido remodelada pouco tempo antes por um conglomerado de empresas chinesas. O desabamento e as mortes desencadearam a ira contra todo o governo, que foi acusado de corrupção.
Muito perto da estação fica a Faculdade de Artes. Lá, os estudantes convocaram uma mobilização no dia 22 de novembro, que foi brutalmente reprimida pela polícia e por grupos de choque do partido no poder. A indignação contra a repressão e o autoritarismo fez com que a mobilização se espalhasse como fogo. Apenas 24 horas depois, 74% das universidades estavam ocupadas.
As ações de protesto alastraram-se a 58 cidades e, durante o mês de março de 2025, as mobilizações ultrapassaram as 350.000 pessoas, desencadeando uma rebelião massiva; a mais importante desde os protestos de 1992 contra Slobodan Milošević e a subsequente dissolução da Jugoslávia.
Foram constituídos órgãos de direção democráticos, onde os representantes, os programas e as ações eram decididos em assembleia. As reivindicações iniciais foram a publicação de toda a documentação relativa ao investimento na estação ferroviária de Novi Sad, a libertação e absolvição de todas as pessoas detidas durante a repressão e um aumento de 20% do orçamento universitário.
A 24 de janeiro, as assembleias estudantis convocaram uma greve geral, a que aderiram algumas organizações sindicais, como os trabalhadores dos transportes e os sindicatos farmacêuticos, que protestaram contra a privatização. Os professores do ensino básico e secundário criaram a nova “Associação de Escolas em Greve” para entrarem na luta. Até o tenista Novak Djokovic se pronunciou em apoio ao protesto.
As primeiras vitórias da mobilização começaram a abalar o governo desde o início de 2025. A 28 de janeiro, o primeiro-ministro Miloš Vučević demitiu-se. O presidente da câmara de Novi Sad e outros altos funcionários foram alvo de investigações por repressão e atos de corrupção. O ministro da Construção, Goran Vesić, foi detido e posteriormente libertado.
O governo cedeu e divulgou toda a informação relativa à estação de Novi Sad. Concedeu um aumento orçamental de 20% às universidades e disponibilizou uma dotação extraordinária para o aumento salarial do corpo docente e para o alargamento da participação dos docentes nos órgãos de cogoverno universitário, que passou de 55% para 60%.
Apesar de o governo ter procurado instrumentalizar estas importantes conquistas parciais para neutralizar as mobilizações, não o conseguiu. O processo político assumiu uma dimensão sem precedentes e a rebelião tornou-se imparável ao combinar diversas reivindicações, como a rejeição às privatizações e a defesa da saúde e da educação. Foram também levantadas reivindicações ambientais, como a necessidade de manter a paralisação do projeto mineiro nas mãos da multinacional saqueadora “Río Tinto“, que pretende extrair lítio no vale de Jadar.
A revolta continuou e – apesar das ameaças e da repressão do governo, que classificava os manifestantes como golpistas e agentes estrangeiros – levou à demissão do presidente Vučić a 27 de setembro de 2026, obrigando-o a convocar eleições antecipadas para 25 de outubro, um ano antes do previsto.
A Lista dos Estudantes inflige uma derrota a Vucic e provoca o colapso dos partidos políticos tradicionais
A demissão de Vučić abriu um vazio político. A apresentação e a vitória da Lista dos Estudantes abalaram todo o regime sérvio, as suas instituições e os seus partidos políticos tradicionais.
Nenhum dos partidos do regime sérvio conseguiu preencher esse vazio. O Partido Progressista Sérvio (SNS) de Vučić perdeu as eleições para uma lista constituída em apenas algumas semanas, sem figuras políticas de longa trajetória e organizada democraticamente. O antigo aliado de Vučić, o Partido Socialista da Sérvia (SPS), desapareceu da cena política. Nenhum dos partidos políticos que concorreram em eleições anteriores participou nestas eleições (apenas alguns pequenos partidos étnicos o fizeram) e cederam à exigência dos estudantes de retirarem as suas listas.
A Lista dos Estudantes, agora com maioria parlamentar e figuras de prestígio como o seu principal candidato – o médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina Ilija Srdanović – ou o reconhecido ex-jogador de basquetebol Dejan Bodiroga -, poderá formar o novo governo para levar por diante o seu programa.
O programa de 11 pontos centra-se em reivindicações democráticas e sociais, tais como a autonomia nas investigações anticorrupção, a independência dos meios de comunicação social, a auditoria a todas as obras públicas e um maior investimento na educação, na saúde e nas condições de trabalho do povo sérvio. Devido à heterogeneidade da Lista, ficaram de fora do programa questões centrais como a adesão à União Europeia, as relações com a Rússia e a independência do Kosovo.
O impacto da vitória já se faz sentir: jornalistas dos canais de televisão públicos pediram desculpa por anos de desinformação; os trabalhadores da imprensa conseguiram a demissão do diretor da Rádio e Televisão da Sérvia; e, nas repartições públicas, começam a ser retirados os retratos de Vučić. O debate para concretizar as reivindicações da mobilização começa a tornar-se concreto, além de urgente.
No meio da crescente mobilização da juventude em todo o continente europeu e da proximidade com outras revoltas nos Balcãs, como na Albânia e na Grécia, a vitória colossal da juventude e do povo trabalhador da Sérvia deixa de ser um facto isolado. Apresenta-se como um exemplo que irá abrir novos desafios para os e as lutadores e lutadoras de todo o mundo que enfrentam os governos capitalistas, os seus cortes e a sua repressão. Para tal, manter a mobilização e a organização democrática e independente face aos grandes capitalistas cúmplices da corrupção do regime (que procurará reconstituir-se) serão elementos fundamentais para avançar rumo à vitória definitiva.