Levantar uma frente internacional anti-imperialista contra Trump

23 de Fevereiro, 2026
6 mins leitura

Pela Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol

O ataque a Caracas, a 3 de janeiro, com o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, é mais um passo de Trump para impor as novas regras imperialistas. Por trás da cortina de fumo da acusação de narcotráfico, fica claro que o que os Estados Unidos querem é o petróleo venezuelano, que já foi repartido entre as grandes petrolíferas, incluindo a espanhola ‘Repsol‘. Encorajado, Trump vira-se para Cuba, Colômbia e México.

O reforço do bloqueio levou o povo cubano a uma situação limite. O imperialismo quer impor uma nova ‘Doutrina Monroe’, que já batizou de ‘Donroe‘, com a qual subjugar a América Latina. Também ameaça o Irão com o apoio de Israel. Da mão do imperialismo – que exibe ao mundo o genocídio palestiniano -, não virá a liberdade dos povos, mas mais empobrecimento e opressão.

Será possível derrotar a agressão imperialista contra a Venezuela? Sim, como aconteceu com o golpe de Estado de 2002, quando os trabalhadores saíram em massa às ruas. É o que lembra o Partido Socialismo e Liberdade (PSL), nossa seção irmão da UIT-QI na Venezuela, que teve um papel relevante na derrota do lockout patronal na PDVSA em 2002. Por isso, hoje alertam para os “sinais claros de que o atual governo chavista está disposto a acatar as exigências”, afirmando que “o governo de Delcy Rodríguez, em vez de reagir com dignidade à agressão e romper relações com os Estados Unidos, cedeu às tentativas de tutela de Trump sobre o nosso país. Nunca convocou uma resistência real, nem mobilização, nem medidas nem o mundo“.

Para unir o povo venezuelano na resposta ao imperialismo, eram necessárias “medidas para sair da miséria em que vivem os trabalhadores e pensionistas, devolver as liberdades sindicais e políticas, libertar os presos, entre eles os 120 trabalhadores do petróleo que foram detidos por denunciar a corrupção, parar a repressão, legalizar os partidos de esquerda (como o ‘PCV’, ‘Marea Socialista’ ou o ‘PSL’) e um petróleo 100% público, sem multinacionais, que se coloque ao serviço do aumento dos salários, da educação, da saúde e da produção de alimentos e medicamentos“. Pelo contrário, enquanto se negocia com Trump, o aparato repressivo mantém-se, a lei de amnistia é adiada e continuam negando liberdades aos partidos de esquerda críticos ao regime.

A denúncia categórica do ataque e das ameaças imperialistas é feita a partir da nossa posição de esquerda crítica ao regime capitalista, autoritário e repressivo de Chávez. É muito sintomático que, embora a ação criminosa do imperialismo tenha sido aplaudida por Maria Corina Machado e outros representantes da direita patronal e pró-imperialista, Trump tenha optado por um acordo com o regime. O PSL “rejeita o plano dos Estados Unidos de recolonizar o nosso país e controlar a exploração e comercialização do petróleo” e adverte que “devemos ser categóricos: se houver um acordo com o imperialismo, haverá mais miséria e espoliação dos nossos recursos e nenhum benefício para o povo trabalhador1. A soberania não é negociável.

Com Delcy Rodríguez, Diosdado Cabello (Ministro do Interior, Justiça e Paz) e Padrino López (General do exército e Ministro da Defesa das Forças Armadas Nacionais) à frente, o regime concordou em entregar o petróleo às multinacionais americanas, com a aprovação em regime de urgência da ‘Lei dos Hidrocarbonetos‘, aplaudida por Trump, com os votos do chavismo e da direita patronal. A lei põe fim ao controlo estatal sobre o petróleo, permitindo a livre exploração e controlo sobre os lucros, e reduzindo os impostos às multinacionais petrolíferas de 33,3% para 15% e, em alguns projetos, para 20%. O chavismo, que já impôs um retrocesso em 2006 à nacionalização do petróleo conquistada em 1975 com as empresas mistas, acaba de abrir as portas às multinacionais para a reprivatização. É até mesmo uma renúncia à soberania dos tribunais venezuelanos para resolver litígios com as petrolíferas. Até ao momento, os EUA já sequestraram seis petroleiros e venderam petróleo por cerca de 500 milhões de dólares que não entregaram à Venezuela. Trump pede, por enquanto, entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo. É neste contexto em que se fala em reativar as relações diplomáticas?!

E enquanto se entrega sem luta ao imperialismo, o regime chavista cala-se sobre o brutal bloqueio contra Cuba e suspende o fornecimento de petróleo à ilha.

A União Europeia baixa a cabeça, limita-se a mostrar preocupação e recusa-se a denunciar a agressão. Só quando Trump também aponta para a Gronelândia é que se levantam algumas vozes tímidas. A China e a Rússia reclamam, mas não fazem nada para apoiar o seu aliado chavista nem Cuba, mesmo quando Trump capturou um petroleiro com bandeira russa. O mesmo fazem diante dos planos de Trump e Netanyahu de recolonizar Gaza: a Rússia e a China abstiveram-se na votação no Conselho de Segurança para deixar passar a ‘Resolução 2803‘. Entre os imperialismos também existe uma hierarquia. Nesta divisão do mundo entre imperialismos vemos que Trump e os EUA fica com a Venezuela e a América Latina, e Putin será recompensado com uma parte da Ucrânia. Resta saber o que acontecerá com os interesses chineses na América Latina, a começar pelos 10 bilhões de dólares de dívida com bancos chineses.

Sánchez posicionou-se inicialmente com um comunicado apelando à “contenção” e à “desescalada“, tal como os seus parceiros europeus, mas depois alinhou-se com as declarações de Lula e Petro a denunciarem a agressão norte-americana. A crise que as primeiras declarações provocaram na coligação governamental e a própria fraqueza da direita, dividida entre o apoio a Trump e aqueles que reivindicam o governo de Corina Machado e Edmundo González, obrigaram à reviravolta, e Sánchez tenta tirar proveito eleitoral dos seus gestos anti-Trump.

Não há possibilidade de impor esta nova ordem imperialista no exterior sem disciplinar a classe trabalhadora americana. São duas faces da mesma moeda. Por isso, Trump leva a guerra para dentro dos EUA e desencadeia a violência com o ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos) perseguindo imigrantes, parte essencial da classe trabalhadora. Os dois assassinatos em Minneapolis não ficaram sem resposta, com fortes mobilizações que lembram o movimento ‘Black Lives Matter‘ contra o assassinato de George Floyd, na mesma cidade, em 2020, e tem se visto uma enorme onda de solidariedade com as famílias migrantes.

É possível derrotar os planos do imperialismo se as lutas se unirem. Por isso, o PSL, juntamente com toda a UIT-QI, exortou o governo de Delcy Rodríguez a, em vez de negociar com os EUA, convocar, juntamente com os presidentes Petro da Colômbia, Lula do Brasil e Sheinbaum do México, a promoção de uma grande frente anti-imperialista em toda a América Latina e no mundo. As agressões imperialistas devem encontrar uma resposta contundente: a condenação sem paliativos do ataque norte-americano à Venezuela, que provocou cerca de 200 mortes, e a exigência da libertação imediata dos sequestrados; o fim imediato do cerco a Cuba e o levantamento do embargo, bem como o fim de todas as ameaças de ataque ao Irão e a outros lugares do planeta. É necessária uma ampla frente internacional.

No Estado espanhol e à escala europeia, é necessário coordenar a luta anti-imperialista. É preciso criar amplas plataformas de mobilização exigindo aos governos a condenação sem paliativos do ataque, a liberdade para os sequestrados e o fim de toda a ingerência imperialista, cortando toda a cooperação militar, com o encerramento das bases norte-americanas em todo o continente. Exigimos ao Governo PSOE-Sumar/IU (Esquerda Unida), para além de declarações, a revogação do acordo militar com os EUA e o fim das bases de ‘Morón de la Frontera’ (Perto da Sevilha, na Andalusia) e ‘Rota’ (Perto de Cádiz, na Andalusia), que têm sido amplamente utilizadas no apoio dos Estados Unidos a Israel no genocídio do povo palestiniano.

Não à NATO, fora as bases!

Fora o imperialismo da Venezuela e da América Latina!

  1. https://trabalhadores-unidos.pt/2026/01/12/nao-a-um-acordo-com-trump-para-aprofundar-a-entrega-do-petroleo-e-dos-nossos-recursos/ []
Ir paraTopo

Don't Miss