8M: Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

7 de Março, 2026
10 mins leitura

Pela UIT-QI

Contra a austeridade dos governos e as agressões do imperialismo!

No âmbito da ‘Greve Internacional Feminista‘, mulheres e pessoas queer de todo o mundo sairão às ruas para repudiar as políticas de austeridade de todos os governos, que afetam mais as mulheres e comunidade LGBTQIA+ da classe trabalhadora.

Mobilizamo-nos contra a violência de género e os crimes de ódio que, de acordo com o último relatório da ONU (2025), ascendem a 83.300 em apenas um ano. Organizamo-nos contra as políticas racistas e anti-imigração do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos) nos Estados Unidos. Levantamos a nossa voz contra o genocídio na Palestina e o plano imperialista colonizador de Trump em Gaza através do “Conselho da Paz” (‘Board of Peace‘). Denunciamos as redes de pedofilia de Jeffrey Epstein, nas quais estão envolvidos o presidente Donald Trump, o ex-príncipe André do Reino Unido, e tantos outros; um punhado de super-ricos que pretende impunidade para sustentar um sistema capitalista e patriarcal perverso.

Com todas as nossas forças, condenamos a agressão imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão. Repudiamo-la a partir da nossa independência política em relação ao regime ditatorial e teocrático dos aiatolas, que oprime as mulheres que lutam pelos seus direitos. Rejeitamos o cerco imposto por Donald Trump ao povo cubano, que está literalmente a ser submetido a uma fome e paralisação da ilha.

Como todos os dias 8 de março, reivindicamos as lutas das trabalhadoras que, no início do século XX, se mobilizaram pela jornada de oito horas e pelo sufrágio universal. Em homenagem a elas e a todas as lutas que continuamos a travar contra a opressão e a exploração, sairemos às ruas, mais de um século depois, para lutar pelos nossos direitos.

Como feministas anti-imperialistas, denunciamos a ‘NATO‘ e a campanha de rearmamento imperialista da União Europeia, que usa a propaganda do medo e a falsa narrativa da “insegurança” como desculpa para disparar os gastos militares e a repressão. Esta estratégia implica uma injeção maciça de dinheiro público para salvar a indústria armamentista e metalúrgica, tal como foi feito com a banca há vinte anos, enquanto se cortam serviços essenciais como a saúde, as pensões ou as políticas feministas. Denunciamos a instrumentalização cínica do povo ucraniano, cuja resistência contra a invasão russa é utilizada como pretexto para um rearmamento que pouco beneficia esse povo. Perante este belicismo, que apenas visa o lucro empresarial, reivindicamos o direito legítimo dos povos a defenderem-se das agressões imperialistas. Nem um euro para a escalada militar imperialista!

Neste 8 de março, na Turquia, a principal agenda das mulheres é enfrentar o crescente empobrecimento e a violência machista. O governo de Erdoğan, com as políticas da “Década da Família1, ataca os direitos conquistados pelas mulheres, transformando os nossos corpos e as nossas vidas em objeto de políticas demográficas. O acesso a direitos legais, como o aborto, está a ser bloqueado, enquanto os feminicídios não param e as políticas de impunidade recompensam os perpetradores da violência machista. O aparato judicial mobiliza-se, não para nos proteger, mas para nos tirar os nossos direitos. As pessoas LGBTQIA+ são demonizadas e as suas existências negadas. As políticas económicas aprofundam a pobreza, desvalorizando e precarizando ainda mais o trabalho das mulheres, e a ausência de serviços públicos não garante as tarefas de cuidados que recaem inteiramente sobre nós. Enquantos mulheres, continuamos a fortalecer a luta pelos nossos direitos, pelos nossos empregos e pelos nossos corpos.

Em Portugal, a violência machista continua a ceifar vidas todos os anos e a violência doméstica continua a ser um dos crimes mais denunciados. Em 2025, pelo menos 24 mulheres foram assassinadas, e dezenas de tentativas de feminicídio mostram que não se trata de casos isolados. Ao mesmo tempo, a crise do sistema público de saúde provocou o encerramento e a instabilidade dos serviços de urgência obstétrica, aumentando os partos em ambulâncias e fora do hospital, uma forma de violência obstétrica que afeta especialmente as mulheres trabalhadoras. Enfrentamos também a tentativa de reforma laboral do governo, que avança na flexibilização dos despedimentos, na ampliação da precariedade e no ataque aos direitos parentais, como a licença para amamentação. Por isso, neste 8 de março, saímos às ruas para exigir o fim da violência machista, o reforço do sistema público de saúde e a defesa dos nossos direitos laborais.

Na Argentina, enfrentamos a reforma laboral esclavagista de Milei, que restringe direitos conquistados há mais de cem anos, como o direito à greve, férias remuneradas e jornada de oito horas de trabalho. Uma reforma que afeta mais as mulheres e pessoas queer, que temos os empregos mais mal remunerados e trabalhos mais precários. E sobre nossas mãos recaem as tarefas de cuidados não remunerados que aprofundam as desigualdades de género!

No Brasil, em dezembro de 2025, milhares de mulheres ocuparam as ruas em todo o país com um único grito: “Mulheres Vivas!“, contra uma onda de feminicídios brutais. Com estatísticas de quatro feminicídios declarados por dia,  2025 foi o ano recorde de assassinatos de mulheres. O Brasil também é o país que mais mata pessoas trans no mundo. A ação da extrema direita, de ideologias conservadoras e machistas, como os ‘red pills2, está a aprofundar todos os tipos de violência. O atual governo da Frente Ampla de Lula utilizou apenas 15% do valor destinado ao ‘Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios‘ (‘PNPF‘). Por isso, neste 8 de março, as mulheres no Brasil vão às ruas para exigir: Basta de violência de género, criminalização da misoginia, prisão para feminicidas, violadores e abusadores, criminalização dos movimentos ‘red pill‘ e os seus discursos misóginos e prisão para seus líderes, como também orçamento para proteção de mulheres e da comunidade LGBTQIA+; a dívida é com a gente.

Na Venezuela, após o ataque militar do governo imperialista dos Estados Unidos que ocorreu a 3 de janeiro, agravou-se o atraso na agenda de reivindicações das mulheres. Essa política agressiva do imperialismo norte-americano constitui um ato covarde, de barbárie, desproporcional, e um verdadeiro massacre contra todo o povo venezuelano e uma ameaça certa para a América Latina e as Caraíbas. Procura apenas intensificar a pilhagem dos recursos naturais, aumentar ainda mais a exploração extrema dos povos e frear os movimentos de massas que, com suas lutas, colocam limites ao sistema capitalista e imperialista que atravessa sua crise mais profunda. A gravidade deste ataque intensificou-se com o pacto entre o governo de Trump e o governo interino da Venezuela, com o consentimento de setores empresariais nacionais e estrangeiros, tudo às custas das verdadeiras necessidades da classe trabalhadora e dos setores populares. Perante esta situação, como mulheres que lutamos pela autonomia dos nossos corpos, defendemos que o povo trabalhador venezuelano no seu conjunto decida o seu próprio destino. Lutamos pelo direito à autodeterminação dos povos, reconhecemo-nos como anti-imperialistas e defendemos o nosso direito a exercer a nossa soberania. Neste 8 de março, como mulheres e dissidentes em luta, também levantamos a bandeira pela liberdade dos presos políticos, com especial ênfase nas trabalhadoras presas por denunciar a corrupção e a exigir reivindicações salariais, e nas presas por abortar.

No Panamá, rejeitamos e lutamos contra a violência institucionalizada que se expressa na judicialização dos protestos, na violência contra manifestantes, que se vê particularmente contra as mulheres, e na política anti-labofral de Mulino de reter as quotas sindicais, promovendo sindicatos amarelos e reprimindo os trabalhadores e trabalhadoras nos seus locais de trabalho. Lutamos contra a situação indignante e inaceitável em que vivem as crianças e adolescentes nos abrigos sob a responsabilidade da ‘SENNIAF‘ (‘Secretaria Nacional da Criança, Adolescência e Família‘), que se tornaram centros de horror. Lutamos contra o aumento dos feminicídios e desaparecimentos forçados. Enfrentamos a rejeição do governo de Mulino em executar a ‘Convenção nº1903 da ‘Organização Internacional do Trabalho‘ (‘OIT‘) e contra a separação e despedimento de professores (a maioria mulheres) por exercerem o direito à greve. Organizámo-nos contra a tentativa de eliminar o Ministério da Mulher, contra o racismo por parte do Ministério da Educação ao exigir a “certificação afro4 nas escolas e contra a violação da nossa soberania. Denunciamos o uso do nosso território pelo imperialismo americano e a rendição de Mulino para agredir os povos do mundo.

No México, apesar de ter pela primeira vez uma mulher no governo, Cláudia Sheinbaum, a grande maioria das trabalhadoras, das jovens, das pessoas trans e das indígenas continuam a enfrentar a desigualdade e a violência. O governo tem sido indolente com a crise humanitária que se impôs com o desaparecimento de mais de 131 mil pessoas, sendo que as mulheres e meninas desaparecidas são vítimas de tráfico e exploração sexual ou de feminicídios. Perante isso, os coletivos de mães que procuram os seus filhos e filhas desaparecidos têm levado a cabo ações para os encontrar, uma vez que o governo tem sido omisso e cúmplice destes crimes, muitos deles cometidos pelo crime organizado. No primeiro ano do governo de Sheinbaum, 14 mães que procuravam os seus filhos foram assassinadas ou desapareceram, ficando os seus casos impunes. Por isso, neste 8 de março, o movimento das mulheres reivindicará a mobilização independente, retomando o lema da ‘Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação‘: “Governe quem governar, os direitos são defendidos!“.

Na Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), fazemos parte das lutas antipatriarcais impulsionadas por mulheres e dissidentes em todo o planeta. Estas lutas importantíssimas devem se unir à luta anticapitalista pois, neste momento de profunda crise, nenhuma conquista poderá ser garantida a longo prazo se não acabarmos com este sistema de exploração e opressão. Por isso, somos feministas socialistas e lutamos em todo o mundo por governos da classe trabalhadora.

  1. O “Documento de Visão e Plano de Ação para a Proteção e Fortalecimento da Família” que visa abordar o declínio acentuado nas taxas de fertilidade (que o presidente Erdoğan classificou como um “desastre”) e o aumento das taxas de divórcio, concentra-se em reforçar as estruturas familiares tradicionais e promover taxas de natalidade mais elevadas. A campanha enfatiza a unidade familiar “tradicional” – definida como o casamento entre um homem e uma mulher – como a pedra angular dos valores nacionais e promove o casamento entre os jovens, incentivando as famílias a terem pelo menos três filhos para manter a população acima do ‘nível de reposição‘. Também concentra no que denomina o combate a “projetos de desgenderização” e “movimentos e hábitos prejudiciais que “ameaçam as crianças, a natureza e os direitos humanos, a estrutura familiar tradicional, e a sociedade“, visando especificamente atacar as pessoas LGBTQIA+. Como parte da sua campanha, 2025 foi declarado o “Ano da Família“, centrado no tema “Nossa Família, Nosso Futuro“, para enfatizar o fortalecimento do modelo “Indivíduo Forte, Família Forte, Turquia Forte“, apoiando as famílias como a base do Estado []
  2. Red pill” (‘Pílula Vermelha‘) é uma metáfora originada no filme Matrix (1999) que, no contexto atual da internet, representa o suposto “despertar” de homens para uma visão de mundo onde acreditam ser vítimas de uma sociedade dominada por mulheres e pelo feminismo. Surgiu em fóruns nos anos 2000 (Reddit, 4chan) e tem ganho força através das redes sociais e podcasts, muitas vezes disfarçado de “autoajuda” ou “liberdade de expressão“, sendo adotado por comunidades online masculinas (conhecidas como “machosfera“) para disseminar ideologias anti-feministas, machistas e misóginas. Prega que os homens perderam o seu espaço e poder na sociedade ocidental, encarando relações, amorosas ou não, como disputas de poder ou jogos de interesse. O seu discurso inferioriza as mulheres, objetificando-as e promovendo o ódio contra elas, rotulando-as como não confiáveis ou servis []
  3. A ‘Convenção nº190‘ visa eliminar a violência de gênero e o assédio no Mundo do Trabalho, reconhecendo o direito de todos a um ambiente de trabalho livre de abusos. Protege trabalhadores e empregados, independentemente do seu estatuto contratual, incluindo estagiários, voluntários e candidatos a emprego, abrangendo tanto o setor público quanto o privado, formal e informal []
  4. Depois de várias escolas terem proibido a entrada a várias alunas que usavam o cabelo preso com rastas, sob a desculpa de que eram “penteados exóticos“, desde 2012 que se celebra, em maio, o ‘Dia das Tranças‘. Também existe, desde 2023, uma diretriz que proíbe a discriminação por motivos étnicos ou culturais em centros educacionais públicos e privados. Com o recomeço do ano lectivo este mês, alguns diretores escolares exigiram um “certificado de ascendência africana“, que autentique a “negritude” do aluno em questão, para assim permitir que usassem – dentro de algumas normas gerais – tranças, nós, ‘rastas’ ou cabelo natural, reacendendo acusações de racismo e discriminação dentro das escolas. Isto porque as escolas têm um regulamento interno de cumprimento obrigatório que regula o uso do uniforme e o estilo do cabelo. O presidente Molino justifica tais pedidos de ‘certificado‘, dizendo que “os alunos abusaram do decreto que facilita a expressão cultural“, e defende a medida dizendo que “é preciso entender que as liberdades também têm regras e temos que atender a algumas regras básicas de volumes do cabelo, de condições do uniforme []
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