Um mês do acordo na Síria

2 de Março, 2026
3 mins leitura

Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Já passou um mês desde que o acordo entre as ‘Forças Democráticas Sírias‘ (‘FDS‘) e o governo de transição entrou em vigor, mas algumas cláusulas relativas à sua aplicação ainda estão envoltas em incerteza.

Não é segredo que o último acordo, assinado a 28 de janeiro, criou um terreno instável para ambas as partes. Cada uma delas proclamou vitória separadamente, com a participação ativa dos meios de comunicação. Enquanto todos cantam a sua própria música, quem não tem voz nesta equação são os povos da região: árabes, curdos, siríacos e outros.

Por outro lado, o processo de integração militar e de segurança está a avançar. Três brigadas curdas em Haseke e uma brigada em Kobani foram asseguradas. O acordo também prevê a integração da Asayish1na organização geral de segurança. As forças governamentais entraram, em número limitado, em Haseke e, em seguida, em Kamışlı, e têm-se estabelecido nas grandes cidades e nos pontos fronteiriços.

Sempre que ocorre algum contratempo na implementação dos acordos, ambas as partes parecem competir para apresentar as suas queixas aos patrocinadores do acordo, ou seja, os EUA e a Turquia. Esta situação revela mais uma vez o quão frágil é esta integração a partir de dentro. Com efeito, este processo não está a ser moldado com base nas necessidades dos povos e da região, nem está a dar prioridade aos seus direitos, exigências e problemas económicos.

Durante dez anos, o ‘FDS‘ tentou convencer o povo sírio e a comunidade internacional de que era um projeto democrático que garantia os direitos de todos os componentes a leste do rio Eufrates, apresentando-se como um governo pluralista e progressista. No entanto, no primeiro teste real, ficou claro que essas declarações contradiziam a realidade. Os objetivos de longo prazo foram substituídos por ganhos de curto prazo, e os direitos económicos e democráticos dos povos foram subordinados aos interesses e à continuidade do aparelho.

Por outro lado, o novo governo de Damasco apresentou-se como a única garantia para todos os povos da Síria e baseou o seu discurso na unidade do território sírio a partir do centro como ponto de partida para a reconstrução. No entanto, as crises continuam a agravar-se. Em primeiro lugar, vêm o aumento dos preços e a deterioração das condições de vida, a escassez de oportunidades de emprego e o desemprego oculto. Além disso, aumentam os acordos com os remanescentes do regime de al-Assad, especialmente com os elementos burgueses. O nepotismo e o favoritismo estão a espalhar-se. Tudo isto gira em torno do ‘Hayat Tahrir al-Sham‘ (‘HTS‘)2.

Assim, a situação do povo sírio voltou ao ponto de partida. As razões que levaram milhões às ruas em busca de dignidade e liberdade continuam presentes.

O desaparecimento do gangue de al-Assad constituiu um grande ponto de viragem no caminho para a realização dos objetivos revolucionários do povo sírio. No entanto, o reposicionamento das forças imperialistas e da burguesia local e o seu controlo total do processo político através de novas alianças significarão o roubo das reivindicações revolucionárias do povo. A situação atual torna vital a construção de um programa político revolucionário e de uma alternativa que represente as reivindicações de “liberdade e dignidade” do povo sírio.

  1. Asayish é o nome dado a força de segurança interna e policial da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria, uma região autônoma de facto, no nordeste da Síria, mais comumente referida como Rojava, que conquistou sua autonomia de facto em 2012 no contexto do conflito em curso em Rojava e da guerra civil síria mais ampla []
  2. Organização para a Libertação do Levante‘, era uma organização política islâmica sunita e um grupo paramilitar envolvido na guerra civil síria e, de 2021 a 2024, foi a facção militar mais poderosa da oposição síria. Juntamente com outros grupos da oposição síria, lançou uma ofensiva em 2024 que levou à queda do regime de al-Assad em 8 de dezembro de 2024, mais de 13 anos após a revolução síria. Após a queda do regime de Assad, foi declarado que o ‘HTS‘e várias facções armadas se dissolveriam, e o grupo anunciou que se tornaria parte das “instituições estatais“. Em julho de 2025, os EUA revogaram a designação do ‘HTS‘ como Organização Terrorista Estrangeira. Lidera atualmente a coligação governativa provisória, encabeçada pelo al-Shara’a, tratando-se de uma coligação burguesa nacionalista-islâmica que reúne diferentes facções, desde as religiosas às liberais []
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