Por que razão os ucranianos devem apoiar os palestinianos

27 de Outubro, 2023
8 mins leitura

Pelo seu interesse, partilhamos com os nossos leitores este artigo da Daria Saburova, originalmente publicado na revista online ‘Commons‘

Como podemos olhar para as imagens de Gaza e não ver Mariupol ou Bakhmut?

À medida que o ataque de Israel à Palestina continua, as semelhanças evidentes com a invasão da Ucrânia pela Rússia tornam-se cada vez mais evidentes. O “cerco total” imposto por Israel à Faixa de Gaza – cortando o abastecimento de água, eletricidade e alimentos a mais de dois milhões de habitantes – faz eco da destruição intencional da nossa infraestrutura energética pela Rússia no inverno passado. Isto, entre outras coisas, valeu à Rússia o rótulo de “Estado terrorista” entre os ucranianos.

Desde o momento em que foi anunciada a ordem de evacuação para os 1,1 milhões de habitantes do norte de Gaza, os ucranianos devem ter percebido que isso iria expor os mais vulneráveis – os idosos e os doentes – a uma morte certa. Sabemos que, quando as pessoas não têm alternativas viáveis, muitas vezes preferem ficar.

As imagens de devastação generalizada que nos chegam de Gaza, que sugerem o desrespeito do exército israelita pelo direito internacional humanitário, também se assemelham às de Mariupol ou Bakhmut no ano passado. Israel – tal como a Rússia na Ucrânia – tem sido acusado de bombardear zonas residenciais, corredores de evacuação e o único ponto de saída da cidade de Rafah.

É claro que os ataques brutais do Hamas contra civis nos kibutzim israelitas também se assemelham aos massacres perpetrados pela Rússia em Bucha, em março de 2022. É mais do que justo que estes tenham sido condenados pelo presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyi e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia. No entanto, as suas mensagens de apoio às vítimas e às suas famílias foram acompanhadas por afirmações problemáticas, incluindo a conclusão verdadeiramente catastrófica de Zelenskyi de que Israel tem o direito incondicional de se defender.

Desde então, as autoridades ucranianas têm evitado falar diretamente sobre a Operação “Espadas de Ferro” de Israel, apesar de o número de mortos em Gaza ter ultrapassado os 3.500 nos 11 dias desde o seu início, segundo as autoridades palestinianas.

No entanto, a carta branca concedida pela Ucrânia a qualquer resposta que Israel considere necessária faz pouco sentido, tendo em conta as relações históricas ou recentes entre a Ucrânia e Israel, que têm sido marcadas por tensões relacionadas com a ocupação e o respeito pelo direito internacional. Dados os problemas de segurança que a Ucrânia enfrenta, a sua política externa mantém-se fiel à promoção de duas causas: o respeito pela integridade territorial e o desarmamento nuclear.

Tensões diplomáticas

Ao contrário dos EUA e dos seus aliados europeus, a Ucrânia tem apoiado sistematicamente as resoluções da ONU que condenam a ocupação ilegal de territórios palestinianos, não sem alguma preocupação com a coerência em relação à sua própria reivindicação territorial sobre a Crimeia ocupada.

Em 2014, Israel absteve-se de votar numa resolução da ONU que denunciava a anexação da Crimeia pela Rússia e reafirmava a integridade territorial da Ucrânia. Dois anos mais tarde, a Ucrânia aprovou uma resolução que condenava os colonatos israelitas em Jerusalém – o que levou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a cancelar uma visita a Israel de um representante ucraniano, o então primeiro-ministro Volodymyr Groysman.

Estas tensões intensificaram-se ao longo do último ano – nomeadamente quando Kiev apoiou duas resoluções da ONU em novembro de 2022. A primeira visava o desarmamento nuclear do Sudoeste Asiático, dirigida contra o programa nuclear de Israel, e a segunda a abertura de uma investigação internacional sobre a “ocupação prolongada, colonização e anexação do território palestiniano” por parte de Israel, reafirmando o direito dos palestinianos à autodeterminação.

Posteriormente, em julho de 2023, o embaixador israelita na Ucrânia, Michael Brodsky, condenou o apoio da Ucrânia a 90% das resoluções “anti-Israel” da ONU, que descreveu como uma “situação anormal, especialmente tendo em conta que a Ucrânia recorre frequentemente a Israel para diversos pedidos“. Estes pedidos têm sido também motivo de tensão entre os dois países, tendo Israel enviado ajuda humanitária à Ucrânia, mas recusado o envio de armas, incluindo armas defensivas, alegando que Israel, ao contrário dos Estados-Membros da NATO, só pode contar consigo próprio.

Israel tem-se mostrado igualmente cauteloso na sua posição face à agressão russa contra a Ucrânia, procurando manter relações diplomáticas cordiais com a Rússia, tendo em conta os seus próprios interesses militares na Síria. Não se juntou a muitos países ocidentais na imposição de sanções à Rússia e absteve-se na votação de uma resolução da ONU a favor de que a Rússia pagasse indemnizações pela destruição causada na Ucrânia. Desde o início da invasão em grande escala, Israel acolheu 30.000 ucranianos – incluindo 15.000 judeus ucranianos no âmbito de um programa de repatriação -, um número muito inferior ao acolhido por outros países.

Explicando o silêncio

A maioria dos políticos e diplomatas ucranianos considera, provavelmente, a história entre Israel e a Palestina demasiado complexa para distinguir entre agressor e vítima. Mas isto não explica o seu silêncio sobre as violações do direito internacional cometidas por Israel nos últimos dias, que não são muito diferentes das ações que denunciaram anteriormente. O seu silêncio tem provavelmente três origens.

Em primeiro lugar, a Ucrânia tem procurado distanciar-se o mais claramente possível do Hamas – rotulado como “os novos nazis” por Netanyahu – e dos seus métodos implacáveis, que têm sido utilizados para atacar arbitrariamente civis israelitas. Isto deve-se, em grande parte, ao facto de a justificação da Rússia para a invasão da Ucrânia – a alegada necessidade de “desnazificar” o país – ter sido eficaz no Sul Global e em certos setores marginais da sociedade civil ocidental. No entanto, no discurso dominante estabelecido pelos governos ocidentais, é impossível distinguir entre as ações do Hamas e a luta mais geral dos palestinianos pela liberdade e pela justiça, que envolve forças múltiplas e variadas. Ironicamente, os diplomatas alertaram que a falta de apoio à Palestina resultará, quase certamente, numa diminuição do apoio à Ucrânia no Sul Global.

O discurso ocidental predominante é frequentemente visto como confundindo o antissemitismo com as críticas a Israel – outra razão pela qual o governo ucraniano é particularmente cauteloso nas suas declarações oficiais na arena internacional. Isto deve-se, em parte, ao facto de a Ucrânia ser um dos países mais marcados pelo Holocausto, com quase 1,5 milhões de judeus mortos entre 1941 e 1945, mas também porque os movimentos nacionalistas ucranianos, que deram abrigo a pessoas diretamente responsáveis por estes massacres, foram branquejados e heroizados no interior da Ucrânia.

E, por fim, a posição da Ucrânia pode ser simplesmente uma questão de pragmatismo geopolítico. O Acordo de Associação da Ucrânia com a União Europeia inclui uma cláusula sobre “convergência em matéria de política externa e questões de segurança” que exige que a Ucrânia se alinhe com as posições expressas pelos responsáveis europeus. Além disso, a sua dependência da ajuda humanitária ocidental e, sobretudo, da ajuda militar, predispõe os seus líderes a alinharem-se com os seus aliados, em particular os EUA, sob o risco de serem privados desse apoio. O facto de o Hamas manter laços privilegiados com a Rússia apenas reforça esta lealdade.

Uma declaração recente do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano, publicada a 17 de outubro, reflete a ambiguidade e os princípios contraditórios da política externa da Ucrânia. Reafirma o apoio aos “esforços de Israel para combater atos terroristas“, mas também “defende a resolução do conflito palestiniano-israelita com recurso a meios políticos e diplomáticos“.

No dia seguinte, após o ataque ao Hospital Al-Ahli que matou centenas de palestinianos – pelo qual tanto Israel como o Hamas negam a responsabilidade -, as autoridades ucranianas emitiram a sua primeira declaração sobre a situação humanitária em Gaza. A declaração salienta que ambas as partes devem “cumprir as regras da guerra e respeitar as normas do direito internacional humanitário“, mas não apela a um cessar-fogo imediato.

A necessidade de se manifestar

Embora a posição oficial da Ucrânia seja ditada por considerações diplomáticas pragmáticas, a sociedade civil ucraniana não é obrigada a fazer eco do silêncio do seu governo relativamente à operação punitiva de Israel contra Gaza.

As injustiças de Israel na Palestina, assim como as da Rússia na Ucrânia, vão muito além da mera falta de respeito pelas leis da guerra. Os ucranianos repetem, com razão, que a guerra da Rússia contra o povo ucraniano não começou a 24 de fevereiro de 2022. A Rússia ocupa parte da Ucrânia desde a anexação da Crimeia em 2014, e a colonização pelo Império Russo dos povos que habitam os territórios ucranianos remonta ao século XVII.

Esta história, que se prolongou durante a era soviética, envolve episódios de natureza genocida. Entre estes contam-se o Holodomor, uma grande fome provocada artificialmente que matou vários milhões de ucranianos em 1932 e 1933, e deslocamentos maciços de populações, como os 238.000 tártaros da Crimeia deportados da Crimeia para outras repúblicas soviéticas sob as ordens de Estaline em 1944. Quase metade dos tártaros morreu de fome e de doenças durante os anos seguintes.

Da mesma forma, a guerra de Israel contra o povo palestiniano não começou a 7 de outubro de 2023. Começou com a Nakba de 1948, quando mais de 700.000 palestinianos foram expulsos das suas terras. Em 1967, no final da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou o resto dos territórios palestinianos, provocando um novo êxodo palestiniano e a instalação de novas colónias israelitas.

Os palestinianos costumam dizer que a Nakba é um processo perpétuo, uma vez que as expropriações e os crimes coloniais nunca terminaram. Estão fragmentados e vivem situações diferentes, dependendo se residem na Cisjordânia, em Israel, em Gaza ou se são refugiados. Mas todos são afetados pelo regime de apartheid. Os palestinianos de Gaza sofrem particularmente com o bloqueio imposto por Israel desde 2006, com a colaboração do Egito, o que transforma a Faixa de Gaza na maior prisão a céu aberto do mundo.

O mal que tem matado civis, tanto israelitas como palestinianos, nos últimos dias tem as suas raízes na ocupação e colonização contínuas dos territórios palestinianos por parte de Israel. Neste sentido, a opressão dos povos ucraniano e palestiniano apresenta semelhanças: trata-se da ocupação das nossas terras por Estados dotados de armas nucleares e de uma força militar avassaladora, que desrespeitam as resoluções da ONU e o direito internacional, colocando as suas causas acima de qualquer diálogo diplomático.

Como ucranianos, como defensores da causa ucraniana, temos a responsabilidade especial de compreender e levantar a nossa voz perante o que está a acontecer. Temos de apontar as incoerências dos governos ocidentais que apoiam a nossa luta anti-imperialista, ao mesmo tempo que apoiam a violência colonial de Israel. A tragédia que estamos a viver atualmente deve aguçar a nossa sensibilidade para experiências humanas semelhantes.

Na sequência da invasão da Rússia, descobrimos o quão pouco a comunidade internacional sabia sobre a história da Ucrânia. Mas o que sabemos sobre a história da Palestina? Num mundo em que a polarização vai aumentando, onde ressurgem guerras coloniais de uma escala e violência impressionantes, só a solidariedade entre os povos oprimidos e a curiosidade pelas nossas respetivas lutas, para além das divisões geopolíticas, podem mostrar-nos o caminho para uma paz justa e duradoura.

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