Em defesa da Flotilha Global Sumud

27 de Junho, 2026
6 mins leitura

Por Cristina Mas, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol

Embora não tenha chegado a Gaza, a Flotilha ‘Global Sumud’ conseguiu, nesta primavera, conquistas significativas. Por um lado, quebrou o silêncio dos meios de comunicação sobre o genocídio na Palestina e voltou a colocar a situação em Gaza no centro das atenções. Com mais de 500 participantes de 44 países – entre os quais os camaradas da UIT-QI Ezequiel Peressini, Mónica Schlotthauer e Görkem Duru -, a frota navegou durante 35 dias para reforçar a solidariedade internacional com a luta do povo palestiniano. Denunciou que, nos 7 meses que se seguiram à assinatura do falso cessar-fogo patrocinado por Donald Trump, o exército israelita assassinou mais de 950 e feriu mais de 2.000 palestinianos e palestinianas de Gaza por fogo direto, sem contar com as mortes provocadas por doenças curáveis ou pela falta de água potável. A Flotilha voltou a denunciar o genocídio, o bloqueio de Gaza e a situação dos mais de 9.500 palestinianos e palestinianas nas masmorras do sionismo.

O falso cessar-fogo de Trump marcava um cenário político diferente do da Flotilha do ano passado: um cenário de desmobilização que deu fôlego ao sionismo para intensificar não só a ocupação de Gaza (o exército israelita continua presente em 60% do território da Faixa), mas também a sua ofensiva na Cisjordânia, com os pogroms diários protagonizados pelos colonos, a aceleração da colonização e a aprovação da lei da pena de morte. A contraofensiva imperialista de Trump desencadeou a guerra regional contra o Líbano e o Irão, onde Trump se atolou e acabou por ter de implorar por um acordo com o mesmo regime que tinha prometido varrer da face da Terra.

A União Europeia também se posicionou contra a Flotilha, ameaçando os participantes de que não era seguro prosseguir, em vez de advertir Israel contra qualquer ação hostil. Houve uma campanha de assédio e difamação nas redes sociais promovida pelo sionismo, que mobilizou os seus ‘bots‘ para atacar a frota muito antes de esta ter começado a navegar e que culminou com a mensagem no ‘X‘ (antigo ‘Twitter‘) do ministro dos Negócios Estrangeiros a referir-se à “Flotilha dos Preservativos“, acompanhada de uma foto de dois preservativos e drogas supostamente encontrados num dos navios após a primeira abordagem.

Apesar deste cenário adverso, a Flotilha prosseguiu a sua viagem, até que, a 29 de abril, as forças sionistas a atacaram a 1.100 quilómetros da costa da Palestina, sequestraram 178 participantes e destruíram 22 embarcações. Ficou exposta a cumplicidade das autoridades da Grécia e da União Europeia, no coração do Mediterrâneo, o mar mais vigiado do mundo, transformado numa enorme vala comum para os migrantes que serão carne para canhão da superexploração. Neste ato de pirataria em toda a regra, foram sequestrados Saif Abukeshek e Thiago Ávila, os rostos visíveis do movimento. Ficou evidente que o bloqueio de Gaza se estende muito além das 100 milhas náuticas reivindicadas pelo Estado sionista e faz parte de uma teia de cumplicidade imperialista enraizada na Europa racista e colonial.

Mas toda essa cumplicidade teve de recuar perante o escândalo e a perspetiva de uma mobilização crescente. Depois de o governo de Netanyahu ter anunciado que os ativistas detidos seriam transferidos para um porto israelita, acabaram por entregá-los às autoridades gregas em Creta, com exceção de Saif e Thiago. Estes foram acusados de terrorismo e levados perante os tribunais sionistas, mas acabaram por ser libertados antes do julgamento. A sua libertação foi uma vitória do movimento internacional de solidariedade com o povo palestiniano e, ao mesmo tempo, uma demonstração de fraqueza do Estado genocida de Israel. É por isso que repetimos vezes sem conta que a mobilização e a solidariedade são indispensáveis e produzem resultados.

Mas nem mesmo assim o Estado sionista conseguiu desmobilizar a Frota. Depois de se reagruparem e realizarem uma assembleia na Turquia, no calor da mobilização internacional por ocasião do aniversário da Nakba, cerca de 60 embarcações retomaram a navegação no trecho final da missão. Desta vez, em plena luz do dia, nos dias 18 e 19 de maio, em águas internacionais próximas de Chipre, com um grande dispositivo composto por lanchas rápidas, dois navios de guerra e dois navios-prisão, as forças sionistas interceptaram o resto das embarcações com disparos e chegaram mesmo a colidir com um dos navios. Após dois dias nas prisões flutuantes, onde, em muitos casos, denunciaram torturas físicas, psicológicas e sexuais, os 428 participantes foram transferidos à força para a prisão de Ketziot. As imagens do ministro da Segurança de Israel, o ultradireitista Ben-KetzGvir, a ameaçá-los e a hostilizá-los com arrogância, deram a volta ao mundo. A 18 de maio, houve uma greve em Itália e mobilizações em dezenas de cidades, e vários governos, como os de Espanha, Itália, Reino Unido, França, Áustria, Canadá e Austrália, condenaram Israel. Após conseguirem a libertação, denunciaram que os abusos e as torturas que sofreram são muito piores para as mais de 9.500 pessoas palestinas detidas. A Flotilha contribuiu também para expor esta realidade oculta por trás das grades das prisões sionistas.

A Flotilha ‘Global Sumud‘, além de intentar ações judiciais contra Israel pelos seus atos de pirataria, está a debater os próximos passos e prevê organizar um congresso internacional para decidir as ações no mar e em terra, bem como desenvolver uma campanha em prol dos prisioneiros e prisioneiras palestinianos.

Divisão no movimento

A Frota suscitou divisões no movimento de solidariedade com a Palestina. Algumas camaradas argumentam que se trata de uma estratégia ineficaz, que consome muitos recursos e que desvia o foco da atenção do povo palestiniano para os ativistas. Acrescentam que falta um discurso político e que toda a ação tem um ar de “salvador branco” que apresenta a questão palestiniana como um problema humanitário.

A partir da Luta Internacionalista e da UIT-QI, fazemos uma crítica construtiva aos problemas políticos e organizacionais que observámos no movimento da Flotilha, mas não partilhamos essas críticas. Comecemos pelo argumento da “eficácia“: o que é “eficaz” quando há dois anos e meio que não conseguimos travar o genocídio? O que temos de avaliar é se esta estratégia serve o objetivo para o qual foi concebida: quebrar o silêncio dos meios de comunicação social, colocar novamente a Palestina no centro da agenda e expor a natureza do sionismo e a teia de cumplicidades. E, neste aspeto, a Flotilha alcançou o seu objetivo, com resultados práticos e concretos: o sadismo sionista foi exposto, a situação dos 9.500 prisioneiros e prisioneiras palestinianos foi denunciada, e dezenas de governos foram obrigados a condenar o Estado sionista.

No que diz respeito aos recursos, é óbvio que este tipo de ação implica custos, mas trata-se de dinheiro que foi angariado na própria mobilização gerada pela ação em si; não é dinheiro que estivesse “à disposição” do movimento para ser destinado ao que outros setores consideram ser prioritário. A partir da Luta Internacionalista e da UIT-QI, juntamente com outras organizações também envolvidas na frota, há dois anos que levamos a cabo uma campanha de apoio material permanente à União Independente dos Comités de Trabalhadores – Palestina (ILCUP), na qual dedicamos muito esforço. E estes mesmos camaradas de Gaza não só nos apoiaram como se mobilizaram na própria praia em apoio à Flotilha. A solidariedade material e a política não são incompatíveis, pelo contrário, e foi isso que as nossas camaradas de Gaza compreenderam.

Por último, tratar a Flotilha como um movimento branco que procura apenas a sua autoproclamação épica é, simplesmente, ignorar a realidade. Na sua composição, há uma presença determinante de militantes e organizações do Sul Global que lutam diariamente contra o imperialismo, o colonialismo e o capitalismo. A frota insere-se também numa longa tradição de internacionalismo: a ninguém lhe ocorreria rotular de colonialistas as Brigadas Internacionais na luta contra Franco. Quem nos dera que hoje conseguíssemos construir um movimento de solidariedade internacional dessas proporções para pôr fim ao genocídio. As iniciativas internacionalistas não substituem o sujeito político, neste caso o povo palestiniano: reforçam-no.

A mobilização global pela Palestina tem de continuar a ser construída, respondendo aos desafios de cada momento, e a melhor forma de avançar é contribuir para unificar e coordenar o movimento, em toda a sua diversidade, que é também a sua riqueza.

Palestina livre, do rio até ao mar!

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