Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia
Já de regresso a casa, depois da sua particpação na última missão da Flotilha ‘Global Sumud’ em que voltou novamente a ser sequestrado pelo Estado Sionista, conversamos com o voluntário turco Görkem Duru, militante e dirigente do Partido da Democracia dos Trabalhadores, sobre a experiência da sua participação na Flotilha Global Sumud, a importância desta organização para a luta palestiniana e as tarefas pendentes.
Nos últimos dois anos, integrou a organização da Flotilha ‘Global Sumud’. Como avalia o significado e a contribuição desta organização para a luta palestiniana? Quais foram os fatores que determinaram o apoio político da UIT-QI e da IDP a esta organização e a sua decisão de participar na Flotilha?
GD: Na verdade, as organizações da flotilha têm sido organizadas repetidamente desde 2007, ano em que a entidade sionista iniciou o bloqueio ilegal contra Gaza, com o objetivo de quebrar esse bloqueio e garantir a entrada de material de ajuda humanitária na região. Desde 7 de outubro de 2023, com a transição para uma nova fase do genocídio e da ocupação impostos pela entidade sionista, a organização da flotilha assumiu também um caráter muito mais abrangente a nível internacional. O facto de a Flotilha ‘Global Sumud‘ ter conseguido organizar-se, por dois anos consecutivos, como a maior frota civil da história mundial é a prova mais evidente disso.
Tal como referiu, também eu tenho participado na organização nos últimos dois anos. Embora não tenha podido embarcar nos navios que partiram para Gaza na missão de 2025, participei ativamente no processo de preparação em terra, em Tunes. Este ano, participei no processo de preparação da frota, tanto como membro do Grupo de Coordenação da Campanha do Comité Turco da Flotilha ‘Global Sumud‘, como também organizador nos navios que partiram para quebrar o bloqueio.
Isto porque considero que a organização da Flotilha ‘Global Sumud‘ tem muitos significados e contribuições para a luta palestiniana. Uma delas é o facto de a frota constituir a maior campanha internacional organizada, desde 7 de outubro de 2023, em torno das exigências de solidariedade com a luta palestiniana; de quebrar o bloqueio, de fazer chegar ajuda humanitária a Gaza e de pôr fim à ocupação e ao genocídio. Pensem nisto: estas quatro exigências conseguem reunir mais de 500 participantes de diferentes tendências políticas, provenientes de mais de 50 países – não pensem apenas nos que estão a bordo dos navios, há também aqueles que participaram no processo de preparação ou que continuam a dar apoio em terra após a partida dos navios – numa unidade de ação. “Criar a mais ampla unidade em torno de exigências urgentes“. Esta fórmula é frequentemente citada na política marxista revolucionária e internacionalista. A frota é, na verdade, um dos exemplos mais fundamentais desta fórmula posta em prática.
Outra importância desta organização, no que diz respeito à luta palestiniana, reside no seguinte: há mais de dois anos e meio que assistimos, em tempo real, a um genocídio. E o alicerce fundamental que permite à entidade sionista perpetuar o genocídio e a ocupação reside nas políticas hipócritas e na cumplicidade dos nossos governos. O resultado natural de todas as relações diplomáticas, militares, económicas, culturais e académicas com a entidade sionista e o seu regime nazi é a continuação do genocídio na Palestina. É precisamente neste sentido que a flotilha assume um papel crucial ao denunciar a cumplicidade e as políticas hipócritas dos governos e ao convidar os povos do mundo a mobilizarem-se contra isso. Sim, o contexto humano e emocional da luta palestiniana é extremamente importante, mas quero sublinhar o seguinte: A persistência do genocídio e da ocupação é o resultado das escolhas políticas dos nossos governos capitalistas e, precisamente por isso, torna a luta política imperativa.
A perspectiva que enumerei acima constitui também os fatores fundamentais da nossa participação na Flotilha ‘Global Sumud‘, enquanto Unidade Internacional de Trabalhadores e Trabalhadoras – Quarta Internacional. Os nossos camaradas do Partido da Democracia dos Trabalhadores, o partido da nossa Internacional na Turquia, do qual também sou membro, e da nossa secção argentina, a Esquerda Socialista, estão ativamente presentes na Flotilha há dois anos. Da mesma forma, os nossos camaradas do nosso partido irmão em Espanha, a Luta Internacionalista, e do nosso partido irmão no Brasil, a Corrente Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores, são também membros ativos dos comités da Flotilha ‘Global Sumud‘ nos seus países.
Porque acreditamos que a resistência palestiniana ocupa um lugar de destaque entre os pontos centrais da luta de classes mundial e constitui uma das artérias vitais da luta dos povos do mundo pela libertação do sistema de exploração imperialista e capitalista. Consideramos que é de importância crítica fazer parte da mais ampla aliança de ação realizada por esta causa, para que se possam construir os meios necessários para denunciar as políticas dos governos capitalistas hipócritas que são cúmplices e para que a mobilização possa ser mantida de forma contínua.
Depois de terem partido, foram detidos em águas internacionais no navio de tortura da entidade sionista. Tal como há anos assistem passivamente ao genocídio, os governos assistiram também a isto de braços cruzados. Como avalia este processo?
GD: Sinceramente, não esperava, a título individual, que os governos que mantêm o silêncio há anos perante o genocídio e a tortura a que o povo palestiniano é submetido reagissem de forma séria à tortura a que nós fomos submetidos – que, comparada com o que o povo palestiniano vive, não é nada.
Posso começar por dizer que, quando se trata da entidade sionista, o direito internacional, que em muitos domínios se revela ineficaz, também se mostra ineficaz em águas internacionais. Na noite de 29 de abril, em que 180 pessoas foram sequestradas – entre as quais eu me encontrava – e 22 dos nossos navios foram apreendidos, a entidade sionista interveio quando estávamos a 650 milhas marítimas de Gaza, ou seja, antes mesmo de chegarmos às águas territoriais da Grécia. A última intervenção, que teve início na noite de 18 de maio, ocorreu novamente a 350 milhas marítimas de Gaza. Daqui resulta o seguinte: o sionismo declara, mais uma vez, que pode praticar pirataria em qualquer ponto do Mediterrâneo, sem se importar com o direito internacional. Naturalmente, a primeira pergunta que vem à mente é: “Como é que os Estados com costa no Mediterrâneo, em particular, não tomaram conhecimento de tal mobilização militar na noite de 29 de abril e nos dias 18 e 19 de maio?” Vou relatar o que testemunhei pessoalmente. Na noite de 29 de abril, cerca de meia hora antes de o nosso navio Idna (Ghea), no qual eu me encontrava, ser apreendido por forças sionistas, um navio da guarda costeira grega passou perto de nós. Na manhã de 1 de maio, quando fomos deixados no porto da NATO em Creta, perguntámos às autoridades locais o que tinham feito na noite de 29 de abril. A resposta foi: “Estávamos a observar“. A observar o tráfico de pessoas! Este é, sem dúvida, um dos exemplos mais chocantes da cumplicidade dos nossos governos.
Outro exemplo desta cumplicidade e hipocrisia foi o facto de, na noite de 29 de abril, enquanto 22 navios da frota eram apreendidos, um navio de carga que transportava munições – e que fornece recursos ao sionismo para que este possa continuar o genocídio – ter passado ao nosso lado.
Outro ponto que gostaria de salientar é o seguinte. A entidade sionista teme mais os participantes da Flotilha ‘Global Sumud‘ do que os nossos governos. O facto de terem construído uma prisão flutuante onde nos podem torturar, o silêncio dos governos face à tortura infligida aos participantes da frota que sequestraram a 29 de abril e, posteriormente, a tortura muito mais intensa que infligiram aos nossos amigos sequestrados nos dias 18 e 19 de maio… O sionismo tentou, de certa forma, intimidar, aumentando consideravelmente a dimensão da violência infligida aos participantes da flotilha em comparação com os anos anteriores. Porque, enquanto os governos mantêm as suas relações com o sionismo, permanecendo em silêncio perante o genocídio na Palestina, o que mais assusta o adversário é a mobilização dos povos do mundo em prol da Palestina.
A organização da Frota Global da Resistência não conseguiu quebrar o bloqueio, mas gerou uma importante sensibilização. Acha que a frota atingiu o seu objetivo?
GD: Sim, talvez não tenhamos conseguido quebrar o bloqueio e fazer chegar os materiais de ajuda humanitária a Gaza, mas penso que causámos um impacto significativo no que diz respeito a sensibilizar as pessoas e a tornar possível que a luta palestiniana volte a ser tema de debate entre os povos do mundo.
É claro que, ao analisar isto, não se deve ignorar as mudanças na conjuntura política. Antes da partida da missão do ano passado, havia mobilizações muito significativas dos povos do mundo em solidariedade com a Palestina. A flotilha partiu no seguimento dessas mobilizações e conseguiu dar um novo impulso a essas ações. Se bem se lembram, as classes trabalhadoras da Itália e de Espanha entraram em greve geral, com a causa palestiniana no centro, o que, na verdade, assinalava um salto qualitativo nas lutas. E precisamente porque este salto nas mobilizações assustou o imperialismo e os governos capitalistas – afinal, as massas que saíram às ruas em solidariedade com a Palestina acabavam por visar também os seus próprios governos hipócritas e cúmplices -, estes optaram por uma mudança de tática. Para atenuar a reação das massas, muitos governos capitalistas começaram, um após outro, a reconhecer o Estado da Palestina. Mas, claro, sem cortar relações com a entidade sionista! Com uma tática democrática-retrógrada, conseguiram criar nas massas a ilusão de que estavam a fazer algo pela Palestina e, assim, refrear as mobilizações. Posteriormente, ainda como parte da mesma tática, foi posto em prática um falso cessar-fogo no âmbito do falso plano de paz de Trump. O objetivo era lançar um salva-vidas à entidade sionista, que atravessa o período mais isolado da sua história; permitir que a entidade sionista continuasse o genocídio e a ocupação de forma mais diluída do que antes do “cessar-fogo“. Ou seja, o objetivo era, de certa forma, a normalização do genocídio e da ocupação. Da mesma forma, nós, como Flotilha ‘Global Sumud‘, procurámos salientar constantemente ao longo deste processo: “Não aceitamos a normalização sob o pretexto de um falso plano de paz“, afirmámos.
A retirada das mobilizações e a imposição de um falso cessar-fogo, infelizmente, empurraram a luta palestiniana para o fundo da agenda este ano. E quando a isso se somou à escalada da agressão imperialista nos últimos tempos, surgiram muitos temas que passaram à frente da questão palestiniana. A intervenção do imperialismo norte-americano na Venezuela, a guerra que o imperialismo norte-americano, em conjunto com o sionismo, iniciou contra o Irão e a ocupação do Líbano pelo sionismo, por exemplo. O imperialismo e o sionismo tentaram paralisar o movimento de massas, acrescentando novas frentes à “guerra“» para superar o seu impasse. Talvez tenham conseguido, em certa medida. Mas, em última análise, considero que a escalada desta política agressiva não permite ao imperialismo superar a sua crise de hegemonia. É claro que isto é tema para uma discussão mais longa e diferente, mas penso também que a missão de 2026 da Flotilha ‘Global Sumud‘, ao centrar-se na Palestina, conseguiu unificar a reação das massas contra esta agressão imperialista. Quando olhamos para as ações realizadas a nível internacional em solidariedade connosco, enquanto estamos a caminho de Gaza ou enquanto somos sequestrados pela entidade sionista, vemos que não é apenas o sionismo que é exposto, mas também as políticas dos EUA, do imperialismo e dos governos capitalistas. Da mesma forma, hoje o sionismo continua a bombardear Gaza sob o pretexto de um “cessar-fogo” e a manter a ocupação do Líbano.
Outro tema que contribuiu para a sensibilização foi o facto de o sionismo ter aumentado consideravelmente o nível de violência exercida contra os participantes da Frota Global da Resistência, em comparação com os anos anteriores. Os vídeos partilhados pelo próprio genocida Ben-Gvir e as declarações dos participantes após terem recuperado a liberdade permitiram compreender a dimensão da tortura. Mas, do nosso ponto de vista, o mais importante é que a opinião pública internacional comece a questionar-se cada vez mais sobre o que o sionismo – capaz de torturar desta forma os participantes da Flotilha ‘Global Sumud‘ – estará a fazer ao povo palestiniano!
Por último, gostaria de referir o seguinte. Ao partirmos como frota, um dos nossos objetivos era denunciar a cumplicidade e a hipocrisia dos nossos governos. Uma das melhores formas de o fazer é revelar as relações económicas em curso com a entidade sionista e permitir que as massas se mobilizem contra os seus governos. Nesse sentido, os nossos navios, que partiram do porto de Barcelona, denunciaram e realizaram uma ação junto a um navio de carga que transportava munições para o sionismo, com o qual se cruzaram quando se dirigiam para Itália. Da mesma forma, na noite anterior ao dia em que decidimos denunciar outro navio e organizar uma ação, a nossa frota deparou-se com a intervenção do sionismo de 29 de abril. Considero que estes exemplos são importantes do seguinte ponto de vista. Uma das formas mais importantes de parar o genocídio e a ocupação, e de apoiar a luta palestiniana a partir do exterior, é mobilizarmo-nos nos nossos próprios países para cortar todas as relações com a entidade sionista. Por exemplo, o facto de a frota ter levado a cabo esta ação teve um impacto positivo, especialmente nos setores mais combativos da classe trabalhadora. Em Livorno, os trabalhadores portuários tentaram impedir um navio que transportava combustível para o sionismo; da mesma forma, a classe trabalhadora italiana entrou em greve no dia 18 de maio, colocando a causa palestiniana no centro da agenda. Mas, claro, a questão principal é conseguir generalizar e tornar permanentes estes exemplos.
A ‘Sumud’ era uma organização que reunia diferentes tendências políticas de todo o mundo, mas que agia em conjunto com o objetivo comum de quebrar o bloqueio em Gaza. Considera que o movimento socialista na Turquia contribuiu de forma suficiente para este processo? O que mais se poderia fazer?
GD: Tal como tentei explicar acima, a Flotilha ‘Global Sumud‘ é uma aliança de ação bastante ampla. É uma aliança de ação que reúne participantes de muitas tendências políticas diferentes, que se preocupam com a luta palestiniana, que fazem parte dessa luta e que aceitam uma lista de exigências urgentes – como pôr fim ao genocídio e à ocupação, quebrar o bloqueio e fazer chegar ajuda humanitária a Gaza -, demonstrando a vontade de agir em conjunto. Contam-se participantes de sindicatos, partidos socialistas, do movimento feminista, do movimento ecologista, de grupos que abraçam a visão islâmica, de defensores do liberalismo e de muitos outros setores que eu possa ter deixado de mencionar. E todos estes participantes estão envolvidos neste processo com sacrifícios consideráveis.
Como marxista revolucionário da Turquia que participa nesta organização há dois anos consecutivos, posso afirmar que, infelizmente, o movimento socialista e os sindicatos de luta não estão a dar o contributo necessário para este processo. Em comparação com o ano passado, este ano mais grupos socialistas incluíram esta missão na sua agenda, o que considero um passo bastante importante. Da mesma forma, este ano, alguns dos meus camaradas de luta de outros partidos socialistas também se candidataram para integrar a flotilha. E se não tivesse havido a intervenção do sionismo na noite de 29 de abril, que resultou na perda dos nossos 22 navios e que ocorreu muito mais cedo do que esperávamos, é altamente provável que alguns desses camaradas pudessem ter embarcado nos navios que partiram novamente de Marmaris. Considero que isto é importante para que, nas novas organizações da frota que possam ser planeadas no futuro, seja possível organizar a participação de outros partidos socialistas da Turquia.
Mas, em termos gerais, posso dizer que a minha avaliação é negativa no que diz respeito ao lugar que a flotilha ocupa na agenda do movimento socialista e dos sindicatos de luta. Isto é, naturalmente, tema de um longo debate político, mas, tentando ser breve, posso dizer o seguinte.
Na minha opinião, existe, numa parte do movimento socialista, uma perceção política de que integrar a frota ou apoiá-la beneficiaria o AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, o partido do presidente Erdoğan), o que considero um equívoco. A organização da Flotilha ‘Global Sumud‘ mantém-se, atualmente, independente de todos os governos. Por exemplo, o facto de o governo de um país ter aberto o seu porto à frota não torna invisíveis as relações diplomáticas, militares, económicas e académicas que mantém com a entidade sionista. Da mesma forma, os governos que abrem os seus portos adotam, na verdade, essa postura precisamente devido à pressão vinda da base. Mas digamos que o AKP tentasse usar a frota em seu próprio benefício; francamente, isso também seria tema de outra luta política a ser travada. Afinal, é evidente que 30% das necessidades energéticas da entidade sionista provêm da Turquia e que as bases de Kürecik e Incirlik servem de escudo ao sionismo.
Acho que também é preciso pensar nisto. Afinal, a flotilha parte para quebrar o bloqueio e, na sua essência, o seu objetivo político mais fundamental é o enfraquecimento da entidade sionista. E o enfraquecimento da entidade sionista é, de forma direta, sinónimo do enfraquecimento do imperialismo, dos seus cúmplices e dos governos hipócritas.
Por último, na minha opinião, o ponto em que somos mais fracos no movimento socialista e no campo sindical militante na Turquia é a unidade de ação. A questão da frota é um exemplo disso. As respostas às perguntas “o que é a unidade de ação?“, “porquê?” e “como se faz?” são tão díspares que, mesmo no contexto de crise múltipla que a Turquia atravessa atualmente, não é possível construir uma unidade de ação no sentido pleno da palavra.
Voltando à questão da flotilha, podemos afirmar que, enquanto o bloqueio em Gaza se mantiver e o genocídio e a ocupação continuarem, novos planos serão considerados. Considero que o movimento socialista e as forças sindicais de luta na Turquia devem, por um lado, manter a luta palestiniana mais presente na agenda e, por outro, mostrar-se mais sensíveis à maior ação conjunta internacional realizada em prol da Palestina nos últimos dois anos.
Com que outros meios e métodos deve a luta pela Palestina ser apoiada hoje em dia? Como é que exemplos como o dos trabalhadores portuários italianos podem tornar-se mais comuns?
GD: A questão mais importante a este respeito passa por investigar e debater as possibilidades de manter a luta até que os nossos governos, cúmplices e hipócritas, cortem todas as relações com a entidade sionista e imponham um embargo total a esta. Nesta luta, o aumento do papel da classe trabalhadora mundial é de importância fundamental. Como referiu, os trabalhadores portuários italianos desempenham um papel pioneiro neste sentido. Ao colocar a luta pela Palestina como tema central da agenda, conseguiram organizar duas greves gerais no ano passado e uma este ano. Temos de perceber que isto é resultado do facto de a União Sindical de Base de Itália manter a questão da Palestina constantemente na agenda, das tentativas de impedir os navios que transportam material para a presença sionista nos portos e da pressão que toda esta luta exerce também nos sindicatos burocráticos. Ou seja, a questão não é realizar uma ação e recuar, nem aparecer em determinados momentos históricos da luta palestiniana para depois desaparecer; trata-se de garantir a continuidade da luta.
Sim, talvez, infelizmente, o movimento sindical na Turquia não esteja a este nível. Mas é preciso ter em mente que se pode começar por algum lado. Especialmente quando 30% das necessidades energéticas da entidade sionista passam por este país!
Como todos sabem, este ano a frota contou com a participação de representantes de nível executivo das confederações Hak-İş (Confederação dos Sindicatos dos Trabalhadores) e Memur-Sen (Confederação dos Sindicatos dos Funcionários Públicos) da Turquia, o que considero um passo bastante importante. Mas, claro, cada passo só tem valor se permitir dar o passo seguinte, que é necessário avançar. Porque as necessidades da luta palestiniana passam por conseguir alargar esta mobilização à base, e, em particular, por mobilizar os setores que desempenham um papel fundamental no enfraquecimento da presença sionista. E sabemos que já existem comissões para a Palestina ativas no seio de muitos sindicatos. A primeira questão que me ocorre como ponto de partida é possibilitar que todos os sindicatos e ordens profissionais que mantêm a questão da Palestina na sua agenda e que têm uma comissão se possam reunir, sem distinção de confederação. Talvez, se eu refletisse mais profundamente sobre o assunto, me convencesse de que outra proposta poderia ser mais funcional. Mas é precisamente isso que pretendo dizer: pensar mais sobre o assunto.
Da mesma forma, durante um certo período, as ocupações de campus nas universidades foram uma das forças motrizes da solidariedade internacional com a luta palestiniana. Embora estas experiências de ocupação tenham permitido a criação de coordenações universitárias permanentes em alguns países, infelizmente, em muitos outros, acabaram por esmorecer. No entanto, estes exemplos são também bastante críticos na medida em que demonstram a importância de assentar o período de ascensão das mobilizações numa base duradoura.
Vou tentar resumir as minhas últimas palavras da seguinte forma. Até que se consiga uma Palestina livre, do rio ao mar, os meios, as táticas e as formações de ação podem e devem variar. Mas a construção de uma Palestina única, laica, democrática e não racista passa pela destruição da entidade sionista; e essa destruição, por sua vez, depende de que os governos capitalistas cortem todas as suas relações com o sionismo e imponham um embargo total a Israel, bem como da nossa mobilização contínua nos nossos próprios países.