Escalada da violência na Cisjordânia: as operações das IDF e a agressividade dos colonos estão a agravar a crise

11 de Fevereiro, 2026
4 mins leitura

Por Maysam AbuHindi, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

A Cisjordânia está atualmente a registar um aumento significativo e preocupante dos atos de violência; as operações militares das forças de ocupação sionistas contra as comunidades palestinianas estão a intensificar-se. As Forças de Ocupação Israelitas (‘Forças de “Defesa” de Israel‘ – IOF/IDF) organizaram ataques em grande escala em grandes cidades como Nablus, Jenin, Tulkarm e Tubas, causando destruição generalizada, detenções em massa e uma crise humanitária crescente. Este aumento da agressividade surgiu na sequência do recente cessar-fogo em Gaza, que provocou alterações na estratégia militar da ocupação e nas tensões políticas internas. Segundo o Ministério da Saúde palestiniano, as IDF mataram pelo menos 70 palestinianos na Cisjordânia desde o início de 2025.

O campo de refugiados de Jenin, com um longo historial de resistência, tornou-se alvo prioritário dos ataques do exército de ocupação. A 2 de fevereiro de 2025, as IDF organizaram uma incursão em grande escala no campo, destruindo infraestruturas e casas de civis com drones, helicópteros e bulldozers/escavadoras blindados; numa única operação, pelo menos 20 edifícios foram destruídos e dezenas de famílias foram desalojadas. O ataque, que durou várias horas, causou inúmeras vítimas mortais e deixou as instalações médicas do campo inutilizáveis. Fundado em 1953 para acolher os refugiados deslocados durante a Nakba1, o campo de Jenin foi alvo de repetidas operações militares das forças de ocupação ao longo dos anos, mas a dimensão do ataque atual nunca tinha sido vista anteriormente.

Da mesma forma, as forças de ocupação intensificaram as suas operações em Nablus, Tulkarm e Tubas. Com o reforço dos postos de controlo militares, que restringem a circulação dos palestinianos, as incursões noturnas e as detenções em massa tornaram-se um acontecimento diário. Visando ativistas, estudantes e crianças, os soldados de ocupação detiveram mais de 2.000 palestinianos desde o início do ano. A maioria dos detidos encontra-se sob custódia administrativa, ou seja, está presa sem acusação ou julgamento.

Mas porquê precisamente estas cidades? Nablus, Jenin, Tulkarm e Tubas sempre tiveram uma importância histórica e estratégica na resistência palestiniana. Estas cidades têm sido, há muito tempo, centros de resistência organizada contra a ocupação, e inúmeros grupos têm operado nestas regiões. Em particular, Jenin e Nablus possuem redes de grupos de resistência armados poderosos que desempenham um papel importante na resistência aos ataques do exército de ocupação. Tulkarm e Tubas são também locais-chave devido à sua proximidade com os colonatos sionistas e aos seus papéis históricos nas revoltas palestinianas. A geografia destas regiões, caracterizada por campos de refugiados densamente povoados e terrenos de difícil acesso, dificulta o controlo das forças de ocupação, o que leva à repetição de operações em grande escala destinadas a desmantelar as redes de resistência e a reprimir a oposição local.

Paralelamente às pressões militares, os colonos sionistas intensificaram os seus ataques contra as comunidades palestinianas. Estes colonos armados, apoiados pela proteção das Forças de “Defesa” de Israel, invadiram aldeias, incendiaram as casas, os veículos e os olivais dos palestinianos e atacaram civis. Segundo as Nações Unidas, entre outubro de 2023 e maio de 2024, foram documentados mais de 800 ataques de colonos contra palestinianos. A frequência e a brutalidade destes ataques aumentaram significativamente nas últimas semanas, obrigando todas as famílias a abandonar as suas casas.

O aumento da violência dos colonos está ligado às dinâmicas políticas no seio do governo de ocupação. O ministro das Finanças Bezalel Smotrich, um nacionalista de extrema-direita, está a pressionar para a anexação da Cisjordânia, aproveitando-se da posição enfraquecida de Netanyahu após o cessar-fogo em Gaza. Smotrich e outros responsáveis de direita defendem o domínio sionista total sobre os territórios ocupados e rejeitam a possibilidade de os palestinianos determinarem o seu próprio destino. Estas pressões políticas encorajaram tanto as IDF como os colonos a intensificarem as suas ações agressivas contra as comunidades palestinianas.

O impacto humanitário destas operações é catastrófico. As famílias nas regiões afetadas enfrentam graves carências de alimentos, água e material médico. A destruição das infraestruturas tornou o acesso aos serviços básicos praticamente impossível. Os hospitais de Jenin, Nablus e Tulkarm têm dificuldade em tratar o número crescente de feridos devido às restrições impostas pelos ocupantes à assistência médica.

Autoridade Palestiniana tem vindo a ser alvo de críticas cada vez mais intensas devido ao seu papel na coordenação de segurança com a ocupação. Muitos palestinianos consideram a Autoridade Palestiniana cúmplice da ocupação, devido ao seu fracasso em proteger os civis palestinianos da agressão das IDF e da violência dos colonos. A decepção com a Autoridade Palestina está a alimentar um apoio crescente à resistência armada, especialmente entre a geração mais jovem.

A recente mudança de foco do exército de ocupação de Gaza para a Cisjordânia levanta questões críticas sobre os objetivos de longo prazo da ocupação. O calendário destes ataques intensificados revela que se trata de uma iniciativa estratégica para enfraquecer a resistência palestiniana na Cisjordânia, enquanto o governo de Netanyahu luta contra a instabilidade interna.

A escalada da violência na Cisjordânia não é um acontecimento isolado, mas sim a continuação de uma opressão e ocupação sistemáticas que se prolongam há décadas. A combinação de incursões militares, ataques de colonos e manobras políticas de autoridades sionistas de extrema-direita criou uma situação explosiva com consequências devastadoras para os civis palestinianos. Sem uma ação internacional imediata, o sofrimento do povo palestiniano continuará a agravar-se. A demolição das casas dos palestinianos, as detenções em massa e a crise humanitária em curso fazem parte de um esforço mais vasto para quebrar a resistência dos palestinianos e reprimir a sua vontade de determinar o seu próprio destino. O povo palestiniano continua a exigir o fim da ocupação, o reconhecimento do direito de regresso dos refugiados e a criação de um único Estado palestiniano, do rio até ao mar.

  1. Refere à expulsão de 1948 das populações arabes dos seus territorios pelos colonos judeus europeus para assim estabelecer Israel. Pode ser traduzido como ‘catástrofe []
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