Pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela
No domingo passado, 25 de maio, realizaram-se eleições legislativas e regionais no nosso país. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), no poder, e os seus aliados, de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), obtiveram 4.553.484 votos, o que corresponde a 82,6% dos cadernos eleitorais, enquanto os partidos dos diferentes sectores da oposição patronal obtiveram 17,3%, repartidos da seguinte forma: A Aliança Democrática (AD) obteve 344.422 (6,25%), a aliança Uma Nova Era-União e Mudança (UNT-Única), encabeçada por Manuel Rosales e Henrique Capriles, obteve 285.501 votos (5,18%), e a Força de Vizinhança (FV) ficou com 141.566 votos (2,57%). O CNE informou que a abstenção foi de 57,4% do total de eleitores.
O PSUV obteve a maioria dos deputados à Assembleia Nacional, tendo a AD obtido 3 deputados e a UNT-Única outros 3 (nomeadamente Henrique Capriles, cofundador do partido Justiça Primeiro e seu antigo candidato às eleições presidenciais de 2012/13). O governo obteve 23 dos 24 cargos de governador, incluindo o da Guiana de Essequibo (território disputado, reivindicado pela Guiana e pela Venezuela, mas reconhecido internacionalmente como parte da Guiana. Na sequência de um referendo realizado em dezembro de 2023, foi aprovada em 2024 uma nova lei que designa a região como um novo Estado). Recuperou os governos de Zulia, Nueva Esparta e Barinas, enquanto a oposição burguesa manteve o Estado de Cojedes.
Elevada abstenção: um sinal de insatisfação
O aspeto mais marcante destas eleições é a elevadíssima taxa de abstenção. A CNE estima que esta seja ligeiramente inferior a 58%, mas a verdade é que as imagens que se tornaram virais nas redes sociais mostram a alarmante ausência de eleitores em todas as assembleias de voto do país.
De acordo com algumas sondagens, a taxa de abstenção não oficial terá rondado os 80%, ou até mesmo 85%. Se o próprio governo fala de uma afluência às urnas inferior a 43%, certamente que a abstenção foi muito superior. Já nas semanas que antecederam as eleições, o desinteresse da população era manifesto, e contrastava com a grande vontade de votar que foi evidente nos dias que antecederam as eleições presidenciais de julho do ano passado.
María Corina Machado e os seus apoiantes querem reivindicar um suposto triunfo com a elevada taxa de abstenção. Querem fazer crer que esse foi o resultado do seu apelo ao não voto. Na verdade, a elevada abstenção foi a expressão do cansaço e do descontentamento genuíno que reside no coração do povo. Foi uma manifestação de repúdio ao governo e de descrença no sistema eleitoral. As pessoas não votaram porque alguém lhes disse para não o fazerem, mas simplesmente porque não vêem qualquer possibilidade de mudança na situação política e social do país através do processo eleitoral.
Após a escandalosa fraude cometida pelo governo nas eleições presidenciais do ano passado, tornou-se claro para milhões de pessoas que há poucas hipóteses de derrotar o governo nas urnas. Mas também não se identificam com os candidatos da oposição patronal que participaram nas eleições, especialmente depois destes terem chegado a acordos com o governo para assim poderem participar (como foi o caso de Henrique Capriles, que negociou a sua qualificação em troca de participar nas eleições sem ser demasiado crítico).
A oposição patronal, liderada por María Corina Machado e os seus aliados, semeou falsas expectativas nas eleições de 28 de julho de 2024. Num processo que, desde o momento da sua convocação, esteve cheio de irregularidades, oportunismo, desqualificações e muita repressão e perseguição.
Esta oposição desmobilizou o descontentamento que se manifestou no dia seguinte às eleições, o que foi conveniente para o governo ditatorial de Maduro. Nessas eleições a fraude foi flagrante e, nas últimas eleições, persistiram as mesmas condições anti-democráticas, agravadas pelos efeitos da brutal repressão pós 28 de Julho.
De facto, como expressamos na nossa declaração antes das eleições, elas iam realizar-se em condições adversas, com cerca de 900 pessoas detidas por razões políticas e outras 10.000 sob medidas cautelares, partidos ilegalizados ou intervencionados pelo Supremo Tribunal de Justiça, outros com pedidos de nomes não processados, líderes políticos exilados ou desqualificados. Mesmo nos dias que antecederam as eleições, registou-se uma nova repressão governamental, que resultou na detenção de cerca de 70 pessoas. Tudo isto num contexto de utilização abusiva dos recursos do Estado por parte do partido no poder.
Desta forma, o governo consumou uma nova fraude, controlando todos os instrumentos do regime político, com o objetivo de se manter no poder contra todas as probabilidades.
A única coisa que resta é lutar por um plano operário e popular e pelas liberdades democráticas
No Partido Socialismo e Liberdade, afirmamos que só com a luta, com a mobilização unida e massiva, poderemos recuperar as liberdades democráticas que foram violadas, conseguir eleições livres e transparentes, ganhar a liberdade dos presos políticos e derrotar o plano de austeridade que Maduro está a aplicar de acordo com os patrões.
Só com a nossa mobilização, independente do governo e da oposição patronal em todas as suas variantes, poderemos impor um plano de emergência operário e popular para responder a todos os graves males que afligem o povo trabalhador.