O Irão antes da “Revolução Islâmica”

11 de Fevereiro, 2026
7 mins leitura

Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Os protestos em massa que começaram no final de dezembro de 2025 no Irão trouxeram o Xá de volta à ribalta. Reza Pahlavi, filho do Xá deposto, que se autoproclamou Xá do Irão no Egito após a morte do pai em 1980, é uma das figuras mais influentes da diáspora iraniana como opositor da República Islâmica. Este personagem, que espera que Trump e o imperialismo americano tragam a “paz” ao Irão e não poupa o seu apoio ao estado sionista de Israel, sabe bem o que promete. Mas como era a situação antes da Revolução Islâmica de 1979?

A Revolução de Fevereiro de 1979 ocorreu através de um movimento popular massivo, no qual a classe trabalhadora desempenhou um papel decisivo e que reuniu forças muito diferentes. No longo período que antecedeu a revolução, destacam-se o descontentamento com a entrada de capital estrangeiro no país desde o final do século XIX, a forte repressão de Reza Shah Pahlavi às lutas operárias na década de 1920 e a neutralização dos sindicatos, a repressão do movimento sindicalista (que ganhou força na década de 1940) e do partido Tudeh ((O Partido Tudeh é um partido comunista marxista-leninista iraniano, formado em 1941 com Soleiman Mirza Eskandari como líder. A organização teve influência significativa nos seus primeiros anos e desempenhou um papel importante durante a campanha de Mohammad Mossadegh para nacionalizar a ‘Anglo-Persian Oil Company‘, o agora BP – British Petroleum, bem como ao longo do seu mandato como primeiro-ministro. A partir da Crise Iraniana de 1946, desencadeada pela recusa da União Soviética de Joseph Stalin em abandonar o território iraniano ocupado durante a Segunda Guerra Mundial , o Tudeh tornou-se uma organização pró-soviética e ‘estalinista‘. A repressão que se seguiu ao golpe de 1953 contra Mossadegh terá “destruído” o partido, que em 1982 foi ainda mais enfraquecido após detenções em massa pela República Islâmica no contexto dos Massacres de 1981-1982, e a sua subsequente proibição. Em 1988, sofreu outro golpe com as execuções de prisioneiros políticos)) (que se tornou uma oposição eficaz) com a ajuda do imperialismo britânico, o fortalecimento do capitalismo na década de 1950 e a aliança do Tudeh com a Frente Nacional ((A Frente Nacional do Irão é uma organização política da oposição no Irão, fundada em 1949 por Mohammad Mosaddegh. Inicialmente, a Frente era uma organização guarda-chuva para uma ampla coligação de forças com tendências nacionalistas, liberal-democráticas, socialistas, ‘bazaaris‘, seculares e islâmicas, que se mobilizou para fazer campanha pela nacionalização da indústria petrolífera iraniana. Em 1951, a Frente formou um governo que foi deposto pelo golpe de Estado iraniano de 1953 e posteriormente reprimido)) burguesa (com uma abordagem popular).

A década de 1970 foi palco de grandes reações da classe trabalhadora e da população pobre contra a profunda crise económica e política criada pelo Xá Mohammad Reza Pahlavi. Em 1977, a resistência de 50 mil moradores de favelas contra a tentativa do Xá de demolir as suas habitações fez com que o regime recuasse. O número de greves aumentava e os trabalhadores incendiavam fábricas. Por outro lado, sob a liderança do Ruhollah Khomeini, no exílio, começava a formar-se uma oposição islâmica ao regime monárquico. As manifestações organizadas a pedido dos mulás espalhavam-se, e os comerciantes, mercadores e pobres das cidades, insatisfeitos com o regime, também encontravam o seu lugar nessa oposição religiosa.

Em setembro de 1978, o xá, apoiado pelos EUA, declarou estado de emergência e massacrou milhares de manifestantes. Essa ação sangrenta do xá, conhecida como ‘Sexta-feira Negra‘, em vez de reprimir os protestos, mobilizou ainda mais a classe trabalhadora. No dia seguinte, centenas de trabalhadores petrolíferos em Teerã entraram em greve para protestar contra a lei marcial e o massacre. Nos dias seguintes, seguiram-se greves dos trabalhadores petrolíferos em Isfahan, Abadan, Tabriz, Shiraz e Ahvaz. Em outubro, as greves, que se espalharam por muitos setores, paralisaram a vida e as reivindicações económicas e políticas se uniram; os trabalhadores exigiam aumento salarial, melhoria dos serviços e da assistência social, o fim da lei marcial, a dissolução da SAVAK ((Organização de Segurança e Inteligência Nacional era a polícia secreta, o serviço de segurança interna e o serviço de inteligência do Xá Mohammad Reza Pahlavi, criado com a ajuda da CIA (Agência Central de Inteligência) dos Estados Unidos. Operou entre 1957 e o derrube do regime dos Pahlavi em 1979)), e a libertação dos presos políticos. Khomeini também apoiava as greves, apelando à continuação das ações, mas afirmava que este movimento de massas era uma oposição religiosa. No entanto, a força motriz do movimento era o povo pobre e os trabalhadores, pelo que Khomeini tentou assumir o controlo do movimento operário. Chamava ao movimento de revolução, falava de justiça e democracia e, adaptando-se às exigências das grandes massas populares, reforçava a sua posição de oposição ao Xá. A rede religiosa que se formou em torno de Khomeini e o facto de a atividade política também se organizar através das mesquitas facilitaram o trabalho de Khomeini. Assim, os mulás conseguiram estabelecer o domínio sobre o movimento de rua e limitar o desenvolvimento dos comités de greve. Numa situação em que a Frente Nacional e o Tudeh não conseguiam criar uma alternativa eficaz, e em que as organizações guerrilheiras como os Fedayeen ((A Organização das Guerrilhas Fedai do Povo Iraniano (OIPFG) era uma organização guerrilheira marxista-leninista clandestina no Irão, formada por três grupos ativistas diferentes em 1971)) e os Mojahedin ((A Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano (MeK) é um movimento de oposição ao governo do Irão e uma organização dissidente, fundada em 1965 por estudantes iranianos de esquerda afiliados ao ‘Movimento pela Liberdade do Irão‘, uma ruptura da Frente Nacional, com o objetivo de derrubar o governo do Xá Mohammad Reza Pahlavi, na época apoiado pelos Estados Unidos. A organização contribuiu para derrubar o Xá durante a Revolução Iraniana de 1979 e, posteriormente, procurou o estabelecimento de uma democracia no Irão, ganhando apoio principalmente da intelectualidade da classe média iraniana. O MeK boicotou o referendo constitucional de 1979, o que levou Khomeini a barrar o partido das eleições presidenciais de 1980. Em junho de 1981, organizou uma manifestação contra Khomeini e contra a destituição do presidente Abolhassan Banisadr, que foi violentamente reprimida pela Guarda Revolucionária Islâmica, matando cinquenta pessoas e ferindo centenas, antes de executar mais 23 manifestantes que haviam sido presos. Dias depois, foram implicados na explosão da sede do Partido Republicano Islâmico, matando 74 funcionários e membros do partido, e supostamente conduziram o atentado de agosto que matou o presidente e o primeiro-ministro do Irão. Seguiu-se uma onda de assassinatos e execuções liderada pelo governo de Khomeini, parte dos Massacres de 1981-1982, e eles foram exilados no exterior, embora a rede clandestina que permaneceu no Irão continuasse a planear e a realizar ataques. Durante a Guerra Irão-Iraque, o MeK aliou-se ao Iraque e manteve laços com o governo de Saddam Hussein depois disso. A base ideológica do MeK foi desenvolvida durante o período da revolução iraniana e enraizou-se no ‘Socialismo Islamico‘ numa tentativa de combinar “o Islão com o marxismo revolucionário“, defendendo a criação de uma sociedade sem classes que combatesse o imperialismo mundial, o sionismo internacional, o colonialismo, a exploração, o racismo e as empresas multinacionais. Adotaram o conceito de luta de classes e determinismo histórico de Karl Marx, mas rejeitaram ser rotulados como “marxistas“, “socialistas” ou “comunistas“, pois rejeitavam a negação de Deus. Hoje a organização afirma que sempre enfatizou o Islão e que o marxismo e o Islão são incompatíveis.)), desconectadas dos trabalhadores revoltados nas fábricas, fracassavam, não havia uma liderança revolucionária da classe, e portanto  Khomeini conseguiu aproveitar esse vazio de poder.

A 16 de janeiro de 1979, o xá deixou o país e foi exilado para o Egito. Khomeini voltou ao Irão duas semanas depois, a 1 de fevereiro de 1979. Antes apoiante das greves, Khomeini desta vez tentou acabar com elas e destruir o movimento operário. O governo de Shahpur Bahtiyar, da Frente Nacional, que o Xá nomeou primeiro-ministro antes de fugir na esperança de extinguir a revolta com concessões, caiu em 11 de fevereiro, e Khomeini nomeou um governo provisório composto por representantes da burguesia e da pequena burguesia. O governo de Khomeini agora dizia: “A revolução acabou, o período de reconstrução começou”. Numa época em que as organizações de mulheres, os conselhos camponeses e os conselhos operários se desenvolviam e fortaleciam, assumindo o controle em alguns lugares, e o movimento operário voltava a crescer, o Tudeh, com sua concepção stalinista de revolução gradual (o stalinismo considerava que o proletariado iraniano não poderia fazer uma revolução socialista), deu o seu apoio incondicional ao governo provisório nomeado pelo agora ‘Aiatola‘ Khomeini. A falta de uma postura favorável à classe operária por parte das organizações guerrilheiras, e a perda de uma oportunidade histórica pela esquerda iraniana, resultou na contra-revolução dos mulás.

Neste contexto, Pahlavi é o mal menor? Deveria ter-se optado pela monarquia em vez da ditadura dos mulás? Em vez de recordar o período do xá com nostalgia do ‘modernismo ocidental‘ e do secularismo, não devemos esquecer o pesado balanço desse período para a classe trabalhadora iraniana. Não somos obrigados a escolher entre os mulás e os reis. Os gritos de “Nem Xá, Nem Xeique” nas manifestações no Irão apontam para outro caminho.

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