A derrota eleitoral da extrema-direita no Brasil

30 de Outubro, 2026
2 mins leitura

Por Bektaş Deneri, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

No Brasil, Lula venceu as eleições presidenciais. Esta vitória representa também uma derrota significativa para a extrema-direita latino-americana, que se encontra sob a influência de Trump. No entanto, o facto de a extrema-direita ter liderado as eleições em muitos estados brasileiros e de Flávio Bolsonaro ter obtido quase metade dos votos como candidato à presidência continua a ser uma questão importante.

Apesar de o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula ter surgido das lutas contra a ditadura militar, ao longo da década de 1990 afastou-se da perspetiva de classe. Depois de chegar ao poder em 2002, o seu programa assumiu uma linha totalmente reformista burguesa; contrariando as reivindicações de milhões de trabalhadores que nele votaram e depositaram esperanças, seguiu um programa neoliberal. Desde o seu primeiro mandato que integrou representantes da burguesia no seu governo. Alckmin, vice-presidente de Lula no seu último mandato presidencial, é um político burguês proveniente de uma corrente de centro-direita. Os governos de Lula e do PT estabeleceram alianças com diferentes setores da burguesia; prosseguiram com políticas de privatização e austeridade. Problemas como a pobreza e a desigualdade de rendimentos não foram resolvidos de forma duradoura. A pilhagem e a exploração dos recursos do país, sobretudo da Amazónia, não diminuíram.

O facto de o PT seguir uma linha reformista burguesa não elimina as ameaças ainda maiores criadas pela extrema-direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro, de extrema-direita, é um político antitrabalhista, um importante aliado de Trump e pró-sionismo. É também uma parte importante da onda de extrema-direita que está a crescer no continente. A ascensão da extrema-direita no Brasil não é um fenómeno exclusivo dos dias de hoje, mas sim um fenómeno que marcou a última década. Nesta ascensão, a desilusão que Lula provocou junto das massas teve, sem dúvida, um papel bastante significativo.

As políticas neoliberais dos governos de esquerda reformista e a desilusão que estas provocaram nos trabalhadores constituem um dos principais fatores que alimentam a ascensão da extrema-direita. A extrema-direita desvia a raiva dos trabalhadores para outros setores da sociedade, atribuindo a responsabilidade pela crise capitalista, pela pauperização e pelos problemas sociais às mulheres, aos migrantes e aos povos indígenas. Ao mesmo tempo, aproveita-se dessa desilusão para atacar os governos de esquerda fracassados. A esquerda reformista, que não apresenta um programa a favor dos trabalhadores, contribui para a ampliação do terreno social onde a extrema-direita pode fortalecer-se.

Apesar das limitações da esquerda reformista e de toda a desilusão que esta provoca junto das massas, a eleição de Lula deve ser interpretada, mais do que como um sinal da confiança que as massas depositam nele, como um esforço para impedir a chegada de Flávio Bolsonaro ao poder. Além disso, é importante ter bem em conta os limites da política do “mal menor” imposta às massas.

A vitória de Lula impediu que a extrema-direita chegasse ao poder nestas eleições, mas não eliminou a sua base social. Por isso, a questão fundamental é conseguir construir uma linha política a favor dos trabalhadores, a um nível que determine também os resultados eleitorais. É por aqui que passa o caminho para quebrar o ciclo vicioso que se manifesta através da desilusão criada pela esquerda reformista e da subsequente ascensão da extrema-direita. Criar focos onde os trabalhadores existam com base nas suas próprias reivindicações e na sua própria política, independentes da linha reformista burguesa de Lula ou dos seus homólogos e do imperialismo, é a nossa tarefa principal, tanto no Brasil como na Turquia, neste momento.

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