Pelo seu interesse, reproduzimos abaixo a breve entrevista concedida pelo ativista e socialista iraniano Nima Sabouri. Nima Sabouri é um escritor e investigador independente com formação académica de pós-graduação em ciências naturais e filosofia, com a sua investigação e escrita a centrar-se na economia política marxista e na “política a partir da base”, com especial ênfase nos desenvolvimentos políticos e nas lutas no Irão e no Médio Oriente. Originário do Irão, é um ativista socialista empenhado, que colabora com várias redes internacionalistas de esquerda, bem como com coletivos de “organização de bairro” na Alemanha, onde vive atualmente no exílio há vários anos. Sabouri procura utilizar as suas experiências para esclarecer as complexidades e as possibilidades das lutas políticas contemporâneas e dos movimentos de justiça social no Irão e no Médio Oriente. É também membro do “Coletivo Roud”, uma rede de iranianos de esquerda na Europa.
Como funciona o regime iraniano e como é que evoluiu?
NS: O Estado iraniano contemporâneo é consequência da hegemonia da contrarrevolução sobre a revolução de 1979: uma transição de uma monarquia autocrática para um sistema totalitário islâmico facilitada pelas relações imperialistas da Guerra Fria. Dois fatores principais catalisaram esta degeneração: a repressão dos movimentos de esquerda após o golpe imperialista de 1953 e o subsequente consenso ocidental para apoiar os islamistas como barreira de contenção face à “ameaça comunista” durante a escalada revolucionária de 1978-1979.
Após tomarem o poder, os islamistas iniciaram uma consolidação contrarrevolucionária através da repressão sistemática das mulheres, da esquerda e das nacionalidades marginalizadas. Neste processo, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC), uma organização militar recém-criada, desempenhou um papel central. A eclosão da guerra entre o Irão e o Iraque, em 1980, consolidou ainda mais esse poder ao instaurar um estado de exceção, alimentar o fervor nacionalista e relegar as reivindicações revolucionárias.
Um elemento crucial para esta consolidação foi a metamorfose do anti-imperialismo em antiocidentalismo. A viragem do regime nascente para o antagonismo com as potências ocidentais foi impulsionada pelos elementos inerentemente antiocidentais e antissemitas do islamismo xiita de Khomeini. Para alcançar a hegemonia, os islamistas apropriaram-se do antiamericanismo da esquerda e ocuparam simbolicamente a embaixada dos Estados Unidos em 1979. Este episódio, que se transformou numa crise de reféns com a duração de 444 dias, institucionalizou a hostilidade como uma componente ideológica permanente.
Este antagonismo desempenhava uma dupla função, interna e regional: proporcionava um instrumento de legitimidade política através da narrativa do “inimigo externo“, que justificava a repressão interna e a ineficiência económica, ao mesmo tempo que mobilizava o sentimento anticolonial regional. Consequentemente, o islamismo xiita revestiu-se do anti-imperialismo para garantir a sobrevivência estratégica da República.
A estratégia anti-imperialista facilitou a expansão contínua do militarismo e a securitização da esfera social, dando origem a um ciclo de acumulação através do militarismo, tendo o IRGC como principal beneficiário. Devido à desconfiança do regime em relação ao exército herdado da época monárquica, durante a guerra com o Iraque, o IRGC tornou-se o braço de confiança do poder e ampliou a sua presença nos setores técnico-industriais e da engenharia civil.
Quando a guerra terminou, em 1988, o IRGC estava em condições de reivindicar uma parte substancial do poder. Este período coincidiu com a viragem estratégica do Estado no sentido de uma reestruturação neoliberal para fazer face ao isolamento económico e ao descontentamento popular, em que a execução em massa de presos políticos em 1988 funcionou como um pré-requisito violento para essa abertura neoliberal. Isto conduziu diretamente à viragem neoliberal e ao processo de amadurecimento do IRGC.
O que queres dizer com isso?
NS: O neoliberalismo foi adotado como um modelo autoritário de desenvolvimento económico de “choque“. O IRGC, encarregado da reconstrução pós-guerra, utilizou a sua influência para assumir o controlo dos recursos económicos. Através da privatização e da expropriação, grandes empresas estatais e projetos de infraestruturas – como a construção de barragens – foram cedidos aos ‘Guardiões‘, o que permitiu uma transição para uma acumulação rentista de capital.
A imposição agressiva do neoliberalismo exigia que o IRGC atuasse simultaneamente como principal executor dos planos económicos e como protetor do regime face às revoltas em massa protagonizadas pelas classes populares urbanas. Este processo culminou no surgimento de um capitalismo oligárquico no Irão, uma vez que o IRGC conseguiu monopolizar tanto a segurança do Estado como a riqueza pública.
A estabilidade mantém-se também graças às convergências ideológicas e estratégicas das elites governantes. A elite governante continua unida pela fidelidade a três pilares ideológicos: em primeiro lugar, o Islão político, nomeadamente o poder absoluto do jurista e o antagonismo antiocidental e antissionista; em segundo lugar, o neoliberalismo, paradoxalmente integrado como uma visão do mundo que justifica a espoliação e a busca de rendimentos; e, em terceiro lugar, o grande nacionalismo, uma grandiloquência xiita-iraniana sintetizada no discurso da “segurança nacional“.
O domínio do IRGC sustenta-se através de um ciclo sinérgico de ameaças, sanções económicas e militarismo. As sanções forneceram o pretexto para o desenvolvimento de tecnologias nucleares e de mísseis, que, por sua vez, provocaram novas sanções. Os ‘Guardiões‘ aproveitaram estas condições para estabelecer redes clandestinas destinadas a contornar as sanções, criando assim uma via para a corrupção estrutural.
Em conclusão, a evolução da República Islâmica ao longo das últimas décadas demonstra que o Estado e o capital no Irão alcançaram uma unidade orgânica.
Por que razão o lema “Mulher, Vida, Liberdade” não esteve presente durante os protestos de rua da revolta em massa de janeiro?
NS: Na realidade, em consequência da sucessão de revoltas, repressões e derrotas, a população perdeu a confiança na sua própria capacidade de ação e, a partir da impotência ou da passividade, depositou a esperança num agente externo que prometia a salvação. Este estado de desespero geral criou o terreno para a expansão de discursos reacionários e das promessas de forças reacionárias, como os monarquistas e os defensores da guerra.
Sem dúvida, o apoio externo à corrente monárquica e a sua súbita irrupção após a revolta de Jina como rival reacionário constituem uma realidade objetiva e um fenómeno digno de reflexão. Isto não só contribuiu para enfraquecer a revolta de Jina, como teve uma continuidade ainda mais intensa na revolta de janeiro de 2026.
Penso que tanto a forma como a revolta de dezembro foram aproveitadas pelos líderes e propagandistas monárquicos – o que abriu caminho para terríveis massacres perpetrados pelo Estado -, bem como as consequências arrepiantes da agressão militar externa, que acabou por ocorrer de acordo com as promessas e os desejos dos monárquicos e de outros defensores da guerra, provocaram importantes abalos de consciência nos oprimidos, levando-os a não cederem a sua capacidade de ação a autoridades externas.