Rafeef Ziadah: “A Palestiniana faz parte de uma luta muito mais ampla contra o imperialismo”

25 de Outubro, 2026
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Rafeef Ziadah é uma poetisa, ativista e académica palestiniana do King’s College de Londres. Publicou recentemente, em conjunto com o economista político Adam Hanieh e o jurista Robert Knox, o livro “Resisting Erasure: Capital, Imperialism and Race in Palestine” (‘Resistir ao apagamento: Capital, imperialismo e raça na Palestina’). A obra analisa como o colonialismo de colonatos israelitas está interligado com o capitalismo global, o imperialismo e a opressão racial.

A ideia central do livro é que o que está a acontecer na Palestina não é um choque de civilizações, nem simplesmente um problema humanitário ou uma questão de direito internacional.

RZ: Uma das razões pelas quais escrevemos este livro foi precisamente para questionar esta perspetiva dominante, segundo a qual se trata de dois povos que sempre se odiaram por motivos religiosos, desde tempos ancestrais. Queríamos deixar claro que se trata de uma luta anticolonial moderna. Começa com o colonialismo britânico, que decidiu o que deveria acontecer na Palestina sem ter em conta o povo palestiniano. Mas, claro, também está relacionada com o imperialismo, não só na Palestina, mas em toda a região. E, evidentemente, há muitas violações dos direitos humanos. E podemos documentá-las indefinidamente. 

Mas, para além de descrever as violações dos direitos humanos, queremos compreender as razões pelas quais continuam a ocorrer e por que razão os Estados ocidentais as apoiam. Muitas pessoas dizem que “a culpa é toda do Netanyahu“, em vez de pensarem no sistema. E o sistema, neste caso, é o colonialismo de colonatos israelitas, apoiado pelo imperialismo norte-americano. Queremos compreender o sistema que gera essas atrocidades e as financia, e também por que razão os Estados ocidentais e outros países continuam a apoiar Israel, apesar do que este está a fazer. Queremos compreender verdadeiramente o seu papel no imperialismo; deixar para trás estas explicações liberais e chegar a explicações estruturais reais.

Entre estas explicações liberais está também a ideia de que existe um lobby judeu muito poderoso que pressiona os países a apoiarem Israel.

RZ: Ninguém diz que as alterações climáticas existem por culpa de um lobby. Mas quando se trata da Palestina, as pessoas recorrem a esta explicação. Sim, existe um lobby israelita. O seu papel principal é ideológico. Tem uma função de silenciamento. Como temos visto em todo o mundo, contribui para reprimir o ativismo em solidariedade com a Palestina. Mas a relação entre Israel e os Estados Unidos é muito mais profunda do que um simples lobby. Tem a ver com toda a região e com os seus recursos. Temos de pensar em como o imperialismo concebe e estrutura a região, não apenas a Palestina, mas num sentido mais amplo. Temos de deixar de tratar a Palestina como uma exceção; a Palestina faz parte de uma luta mais ampla. Não podemos esquecer que, há relativamente pouco tempo, vivemos as revoltas árabes. Essas revoltas não eram apenas contra as ditaduras, eram também contra o facto de a maioria dessas ditaduras manter alianças muito estreitas com os Estados Unidos, apesar de utilizarem uma retórica anti-imperialista.

E, claro, colocamos no centro a questão do petróleo e do capitalismo fóssil. No livro, abordamos esta questão a partir da relação entre os Estados Unidos e Israel, mas também entre os Estados Unidos e os Estados do Golfo. É evidente que existem dois pilares do imperialismo norte-americano na região: Israel e os Estados do Golfo, e, atualmente, esses dois pilares estão a aproximar-se cada vez mais através da normalização das relações no âmbito dos Acordos de Abraão. E não são apenas os palestinianos que sofrem as consequências desta fórmula, é toda a população da região. É o Sudão, é o Iémen, é a Síria, é a Líbia. Esta fórmula mantém, basicamente, toda a região como uma zona de exploração que permite que o capitalismo fóssil continue a reproduzir-se, e é por isso que a Palestina é importante, não por causa de um lobby.

Como podemos recuperar as ideias marxistas?

RZ: Para além da Palestina, temos de reconhecer que sofremos uma enorme contrarrevolução à escala regional. Houve um momento de esperança e otimismo absolutos, e ninguém o viu chegar. Ninguém imaginava que Mubarak cairia, nem que, naquele momento, se verificariam todas essas mudanças na região. Mas também houve uma contrarrevolução. E creio que nos cabe a nós decidir que lições retiramos disso. Sim, poderíamos adotar uma atitude derrotista e dizer que não há nada que possamos fazer, que esta região é demasiado importante para o imperialismo e que nunca nos permitirão alcançar avanços. Ou podemos compreender as lições daquele momento: muitos de nós não estávamos preparados, muitas organizações não estavam preparadas. 

A esquerda árabe enfrentava dificuldades, e continua a enfrentá-las, por vezes com modelos antigos herdados do passado, por vezes com a questão de como se reorientar. Mas não creio que a resposta seja individual. Primeiro, precisamos de manter conversas sinceras e abertas sobre o que aconteceu durante as revoltas: temos de construir esse espaço. E as causas da crise na região não mudaram: continua a haver um desemprego juvenil enorme e uma crise económica em cada um desses países. Por isso, haverá sempre a possibilidade de desafiar a ordem estabelecida na região. A questão é: estaremos preparados? E só se pode estar preparado se nos organizarmos.

Caracterizam o colonialismo de colonatos na Palestina como um ramo ou um instrumento do colonialismo europeu mais amplo.

RZ: No livro, traçamos a relação de Israel com o imperialismo. Primeiro, temos o imperialismo britânico, que essencialmente ajudou a implantar Israel na região e lhe deu luz verde, esmagando uma das revoluções anticoloniais mais importantes da nossa região, a revolta de 1936. Depois surge o imperialismo norte-americano, que assume o testemunho, especialmente após 1967, quando os Estados Unidos descobriram que Israel era um aliado muito valioso e importante. Como disse um presidente norte-americano: “Israel é o maior porta-aviões que temos no mundo“.

Assim, os Estados Unidos reforçam enormemente este Estado tão militarizado, mas também racializado. E todas as colónias de colonatos, não só Israel, assentam numa hierarquia racial muito marcada e na supremacia racial. Sem dúvida, existe uma lógica de eliminação no colonialismo de colonatos, e isso é visível no genocídio, mas é um processo. E esse processo não consiste apenas em apropriar-se da terra, mas também em transformar a própria população, alterar a demografia e modificar a estrutura de classes. Se observarmos a sociedade palestiniana, verificamos que houve uma enorme transformação: os camponeses tornaram-se operários. E passaram a fazer parte das classes trabalhadoras, não só em Israel, mas também em toda a região. Os refugiados palestinianos, por exemplo, desempenharam um papel central na construção dos países do Golfo.

Temos visto algumas organizações de esquerda e pró-palestinianas que apoiavam o regime de al-Assad na Síria ou o regime iraniano sob o pretexto da sua retórica anti-imperialista e do que chamam de “eixo da resistência”. Partilham estas posições? 

RZ: É um momento perigoso, em que os Estados Unidos estão realmente a tentar silenciar e calar qualquer país que ainda demonstre algum tipo de oposição ao seu projeto na região. E os iranianos comuns estão a sofrer. Nenhuma intervenção imperialista tem como objetivo ajudar os povos da região. E isso não significa que não devamos analisar, mais uma vez, numa perspetiva estrutural, quais são as dinâmicas que estão a desenvolver-se no terreno e o que é o regime iraniano. Durante muitas décadas, o meu trabalho consistiu em apoiar os sindicatos do Irão, o movimento operário, que luta intensamente pelos direitos laborais e que também está a ser devastado pelo neoliberalismo e pelas sanções no Irão. E quando dizemos que somos contra a guerra no Irão, também devemos dizer que somos contra o regime de sanções imposto ao Irão, porque esse regime de sanções é brutal. Mas o que ele também permite é, mais uma vez, que uma pequena camada do regime se beneficie enquanto esmaga os movimentos operários. Por isso, como ativista sindical, a minha orientação e o local onde sempre concentrei as minhas energias têm sido os movimentos sociais, os movimentos operários e o movimento feminista no terreno. Não gosto dessas dicotomias simplistas que alguns querem impor-nos e que não nos permitem analisar quais são as verdadeiras dinâmicas de classe.

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