Por Patrick König, Correspondente
Aprofundemos a mobilização até derrotarmos o governo de Merz e o seu plano de cortes
Por vezes, na política, temos a impressão de que o tempo pára e nada, ou quase nada, se move. Mas há outros momentos em que os acontecimentos políticos começam a suceder-se rapidamente. É isso que está a começar a acontecer na Alemanha. Tudo leva a crer que o descontentamento gerado pelas medidas do governo de Friedrich Merz, os tambores de guerra que rufam na Europa, a sensação de um futuro mais do que incerto e de que o Estado-providência vai ser desmantelado estão a fazer com que a passividade ou o simples debate se transformem em manifestações concretas que se expressam de diferentes formas. Por vezes através das urnas, por vezes com manifestações setoriais, como as dos estudantes e do setor automóvel, ou as manifestações convocadas pela ‘Confederação Sindical Alemã’ (‘DGB‘) no passado dia 26 de setembro, nas quais participou um número significativo de organizações sindicais, políticas e sociais para protestar contra os cortes, o plano de despedimentos na indústria, o armamento, o genocídio na Palestina e para exigir uma distribuição justa da riqueza.
Esta mudança no estado de espírito de um setor importante da população trabalhadora e juvenil leva-nos a colocar algumas questões e a tentar responder-lhes. Por exemplo: existe realmente uma mudança no processo de resistência e mobilização contra o governo? Por que razão se verifica esta mudança? Como se manifesta esta nova situação? Ao longo do artigo, tentaremos apresentar alguns elementos que sirvam para começar a abordar estas questões.
A situação internacional e na União Europeia (UE)
A profunda crise que o sistema capitalista atravessa é um fator fundamental que mina as bases do chamado “Estado de Bem-Estar” e da estabilidade que, durante décadas, existiu no país. Neste contexto, a Alemanha vê-se obrigada a procurar as melhores condições possíveis para participar na disputa interimperialista pela repartição do “bolo” mundial. Esta disputa no plano internacional obriga-a a “reorganizar” a sua economia a nível nacional, para o que recorre a instrumentos como os planos de cortes sociais, o endividamento e a aposta na guerra como forma de salvar a indústria. “Disciplinar” e aumentar a taxa de exploração da sua própria classe trabalhadora é também uma tarefa de primeira ordem. Para tal, o governo de Merz e o setor empresarial impulsionam planos de cortes e encerramentos de fábricas, como na Volkswagen, Mercedes-Benz, Audi, BMW, ZF, Bosch, Varta e uma longa lista de outras.
No domínio da mobilização e das lutas, os acontecimentos que se estão a verificar em países como a França, com os protestos estudantis contra a deterioração do ensino público, ou a Espanha, com os acampamentos em prol da habitação, a recente convocação antecipada de eleições e a próxima greve geral a 11 de novembro, convocada pelas principais centrais sindicais, são fatores que impulsionam e incentivam o ativismo, potenciando a mobilização. Tudo leva a crer que nos encaminhamos para um outono agitado em vários países da UE, e a Alemanha não fica alheia a esse processo europeu.
Trata-se, portanto, de tentar interpretar os novos fenómenos que se vão sucedendo, tanto no plano eleitoral como no das mobilizações, para assim podermos perceber para onde caminha a luta de classes na Alemanha e como nos preparamos para intervir, desenvolver e aprofundar esta situação, de modo a fazer com que avance no sentido de uma saída de classe, operária e socialista. Vamos por partes.
As eleições regionais
Os resultados das últimas três eleições regionais (Saxónia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental) têm sido muito comentados, não só na Alemanha, mas a nível mundial. Para além das percentagens e tendo sempre em conta que os fenómenos eleitorais refletem normalmente a realidade de forma distorcida, é possível tirar algumas conclusões gerais.
A primeira, embora talvez não tenha sido a mais comentada, é que, nas três eleições em que se verificou um aumento da participação eleitoral, houve uma queda muito acentuada dos dois principais partidos capitalistas, a União Democrata-Cristã (CDU) e o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD). Estes partidos e as suas alianças têm-se alternado no poder há muitos anos e são os responsáveis pela queda do nível de vida e pela decadência social do povo trabalhador e da juventude, que não vêem perspetivas.
Outro elemento que é evidente é que quem mais cresceu foi a extrema-direita. Infelizmente, nas eleições, verificou-se um voto de protesto equivocado de milhões de pessoas a favor da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD). Com falsas promessas e muito populismo, a AfD aproveita-se da desconfiança em relação aos antigos partidos capitalistas para se apresentar como uma “alternativa“. Sabemos que, se chegarem ao poder, irão agravar a austeridade e o corte nas liberdades democráticas conquistadas. É o que demonstram as experiências de Viktor Orbán na Hungria, de Donald Trump nos EUA ou de Javier Milei na Argentina, entre outros. São os mesmos que apoiam Benjamin Netanyahu e o genocídio palestiniano, as guerras e as agressões contra os povos. Mas isto, que é claro para a esquerda, não o é para um grande número de eleitores que terão de fazer a sua própria experiência. Nos últimos dias, a AfD conseguiu formar governo na Saxónia-Anhalt. Embora a votação tenha sido secreta, é um grito em voz alta que contou com os votos da CDU e do Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), o partido da ex-esquerdista Sahra Wagenknecht. A AfD tem agora a obrigação de passar do discurso populista para a concretização do seu plano de governo. Conseguirá reafirmar e aumentar o seu eleitorado ou, passado algum tempo, uma parte da sua base começará a sentir-se novamente defraudada? A esquerda revolucionária terá de prestar muita atenção a este fenómeno e apresentar-se como alternativa.
Em terceiro lugar, podemos afirmar que nem tudo se resume ao avanço da extrema-direita, mas que também há milhões de pessoas que procuram uma alternativa à esquerda. É isso que reflete a vitória eleitoral do Die Linke (‘A Esquerda‘) em Berlim e o seu crescimento em termos de filiação e participação nas mobilizações.
Por último, podemos constatar que, embora seja precipitado afirmar hoje que estamos perante o fim do bipartidarismo que governou a Alemanha desde o pós-guerra até aos dias de hoje, podemos afirmar que estes resultados representaram um duro golpe para a coligação governamental e, em especial, para a figura de Merz – a crise de legitimidade é tal que muitos falam de um governo moribundo que terá de convocar novas eleições a curto prazo – e que se torna cada vez mais difícil para estes partidos patronais conseguir governos estáveis com maioria parlamentar absoluta e um apoio social claro.
As mobilizações e o acordo coletivo do setor metalúrgico
Tal como referimos no início deste artigo e noutros que publicámos nos últimos meses, tem-se verificado um aumento no número de manifestações e ações de rua, como as protagonizadas pelo setor automóvel, pelos estudantes ou as manifestações convocadas pela DGB. Embora seja justo e necessário referir que ainda não estamos perante mobilizações à altura do que a situação exige, nem pelo número de participantes nem pela sua força, podemos afirmar que nos encontramos numa nova dinâmica e que tudo indica que não irão diminuir; pelo contrário, tanto o descontentamento como as mobilizações irão aumentar. De momento, os estudantes do ensino secundário e os jovens são o setor que mais se está a mobilizar e estão a preparar uma nova jornada europeia de luta para 20 de novembro.
Por seu lado, o setor automóvel e metalúrgico em geral, para além das questões relacionadas com os planos de austeridade e despedimentos no setor, está a negociar o novo acordo coletivo. De momento, não há qualquer aproximação entre as partes, o que deixa em aberto a possibilidade de a IGMetall (sindicato dos metalúrgicos) se ver obrigada a convocar uma greve de 24 horas nos primeiros dias de novembro. É preciso exigir à IGMetall e às direções sindicais que dêem continuidade a um plano de luta, exigindo que as empresas assumam a responsabilidade pela sua crise. Trata-se de grandes multinacionais que obtêm lucros milionários na Alemanha e em todo o mundo. Devemos exigir que acabem com os despedimentos, os encerramentos de fábricas, ou qualquer corte n as conquistas. É preciso exigir que, em vez de aumentar a semana de 35 para 40 horas, as horas de trabalho sejam redistribuídas, com jornadas de 6 horas com o mesmo salário. Toda a empresa que encerre a atividade deve ser nacionalizada sob o controlo dos trabalhadores e das trabalhadoras, tal como fez, na altura, a cidade de Bremen com a antiga Klöckner, a atual ArcelorMittal.
O papel do Die Linke nas lutas e na busca por uma nova alternativa política
Ao longo do artigo, tentámos apresentar alguns elementos e argumentos para explicar e compreender a situação. Podemos questioná-los ou minimizá-los. Podemos atribuir-lhes maior ou menor importância no que diz respeito ao impacto que possam ter na realidade. Sabemos que não há nada de unilateral na luta de classes e que estamos apenas no início de uma nova situação. Também seria um erro fazer caracterizações e previsões rígidas ou triunfalistas. Mas daquilo de que podemos ter a certeza é que nos vamos enganar se pensarmos que isto é mais do mesmo, que nada mudou ou que, só porque é verdade que a extrema-direita obteve bons resultados eleitorais, estamos a caminhar para uma derrota ou para o triunfo de uma variante fascista. A esquerda revolucionária, juntamente com outras organizações sociais e com os ativistas sindicais e juvenis, deve intervir desde já neste processo. Temos de discutir como enfrentar o governo e as consequências dos cortes; é preciso discutir o programa e as formas de organização. Os ativistas sindicais devem exigir às direções que deixem de fazer acordos com o governo e convoquem planos de luta. É preciso apoiar as ações da juventude pela educação ou contra a tentativa de restabelecer o serviço militar obrigatório, por uma habitação digna e pelo congelamento das rendas, e unir as reivindicações dos jovens às reivindicações dos trabalhadores e das trabalhadoras.
No calor desta intervenção e desta luta, poderemos ir construindo as novas ferramentas sindicais e políticas que nos permitam derrotar o atual governo de Merz e o seu plano de cortes.
O Die Linke, não só pelo seu crescimento eleitoral, mas também porque se tornou uma referência para muitos novos camaradas que se aproximam da política, deve desempenhar um papel protagonista nesta tarefa de apoiar as lutas e uni-las.
O Die Linke tem de continuar a fortalecer-se como a alternativa política de uma esquerda independente dos antigos partidos capitalistas e reformistas tradicionais e, a partir daí, enfrentar e derrotar o projeto da extrema-direita da AfD. Só a partir de uma esquerda independente poderemos avançar na perspetiva de uma mudança profunda que passará pela conquista de um governo dos trabalhadores e das trabalhadoras.