Milei continua a implementar medidas de austeridade, enquanto a revolta cresce. Qual é a saída?

20 de Maio, 2026
5 mins leitura

Pela Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

O governo de A Liberdade Avança (La Libertad Avanza – LLA) está a deslizar cada vez mais depressa por um escorrega. Qualquer sondagem mostra a queda da sua imagem. Nas ruas, basta ouvir as pessoas: a revolta cresce a níveis astronómicos, sobretudo nos setores populares. A sensação é de que já não se aguenta mais.

Enquanto o escândalo de Manuel Adorni continua em vigor, Milei chega mesmo a defender o corrupto José Luis Espert (candidato na eleições legislativas de 2025, pela provincia de Buenos Aires, que foi obrigado a renunciar a sua candidatura num escandalo de corrupção devida as ligações com o empresário Federico Andrés “Fred” Machado, de quem terá recebido dinheiro. O “Fred” Machado enfrenta um processo de extradição por tráfico de cocaína e um esquema de Ponzi no valor de 550 milhões de dólares nos EUA). Mas o pior é que redobra a aposta com a ‘motosserra‘. Na semana passada, anunciou um novo superajuste de 2,5 biliões de pesos que atinge de cheio a educação e a saúde públicas. Também foram anunciados novos aumentos nas tarifas dos transportes.

Milei não pára. Agora afirmou, num encontro restrito de empresários, que “vamos continuar a apertar até baixar a inflação” e que “o preço desta política paga-se com a taxa de juro e uma política mais austera“. Uma “austeridade” que, evidentemente, não atinge Adorni, nem “Karina 3%1, nem os funcionários beneficiados com créditos hipotecários milionários.

O presidente do Banco Central, Santiago Bausili, declarou no dia anterior que “não é prioridade deste governo resolver o problema dos endividados“, zombando do desespero de centenas de milhares de famílias. E o secretário de Políticas Universitárias, Alejandro Álvarez, não se comoveu perante a gigantesca marcha em defesa da educação pública: afirmou desdenhosamente que “podem fazer mil marchas como estas que não cederão na austeridade“.

Esta quarta-feira haverá uma nova mobilização em massa, desta vez em defesa da saúde pública, pois as lutas contra a ‘motosserra‘ continuam. E no meio desse cenário, a paralisia e a traição da burocracia sindical peronista começam a ter consequências. Isso ficou demonstrado nas eleições da ‘SUTEBA‘ (‘Sindicato Unificado dos Trabalhadores da Educação de Buenos Aires‘), onde a oposição Multicolor2 recuperou a secção sindical da Universidade Nacional de La Matanza (UNLAM) e manteve as demais secções sondicais ligadas ao sindicalismo combativo.

Há setores patronais que começam a mostrar uma preocupação crescente com a crise do governo. Apoiam a reforma laboral escravizante, o alinhamento com o imperialismo norte-americano e as medidas de austeridade, mas duvidam da capacidade de Milei para as sustentar. Também já começam a sofrer consequências nos seus próprios negócios. Por isso, sondam diferentes cenários e lançam balões de ensaio. Paolo Rocca (empresário multimilionario e CEO de Techint, empresa de conglomerado nos setores da engenharia, construção e energia, e a maior empresa siderúrgica da Argentina), por exemplo, convidou Mauricio Macri (empresário, fundador do partido de direita ‘Proposta Republicana – PRO‘, e presidente entre 2015-2019) para jantar e perguntou-lhe diretamente se tencionava voltar a ser candidato presidencial.

O peronismo, principal força patronal da oposição, tenta aproveitar a revolta social para o seu próprio projeto eleitoral, mas, como mostram todas as sondagens e se percebe nas ruas, “não consegue ganhar força“. Continua a carregar com a crise desencadeada pelo desastre do governo de Alberto Fernández (presidente entre2019-2023), Sergio Massa (ministro da Economia entre 2022-2023 e candidato pelo ‘União pela Pátria‘ nas eleições de 2023) e Cristina Kirchner (presidente entre 2007-2015 e vice-presidente entre 2019-2023). Também pesa o papel atual do peronismo como oposição: ausente em muitas lutas, com legisladores que votam leis de Milei ou passam diretamente para o partido no poder, enquanto a CGT (Confederação Geral do Trabalho da República Argentina)mantém um pacto vergonhoso com o governo.

Além disso, o peronismo não consegue resolver nem mesmo as suas próprias disputas internas. Os únicos sinais que emite apontam para uma guinada em direção a um espaço “moderado”, do “superávit fiscal que não se discute”, acompanhado do apoio à megamineração e ao ‘fracking‘ (‘fraturamento hidráulico‘)de Vaca Muerta3. Procuram apresentar-se como uma alternativa “viável” para os setores empresariais hoje distanciados de Milei. Todos estão nesse jogo: Cristina a reunir-se com Miguel Ángel Pichetto4, Axel Kicillof (ministro de economia no governo da Cristina Kirchner, entre 2015-2019, e governador pela provinica de Buenos Aires desde 2019, pela coligação eleitoral ‘Força Pátria‘, antiga ‘União pela Pátria‘) partido a aproximar-se do macrista Emilio Monzó ou governadores como Sergio Uñac a tentar projetar-se a nível nacional.

Perante esta situação, não deveria surpreender o aumento da popularidade e da simpatia em relação a Myriam Bregman e à Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), algo que até mesmo os jornalistas dos grandes meios de comunicação se viram obrigados a reconhecer. É um reflexo da coerência da esquerda, de ter estado sempre presente em todas as lutas, denunciando, tanto nas ruas como nas bancadas, cada uma das medidas de corte drástico de Milei e do FMI.

Por tudo isto, é fundamental assumir o desafio e a responsabilidade que se abrem: a FIT-U deve responder categoricamente que sim à pergunta sobre se pode governar. Não só pode: tem de o fazer, porque é a única alternativa capaz de responder às necessidades urgentes do povo trabalhador.

Por isso, a partir da Esquerda Socialista (IS), lançamos uma campanha para explicar o que um governo da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos proporia e por que é necessária uma saída operária e popular face ao clamor crescente de que Milei não pode continuar. Vem às nossas reuniões e junta-te à IS para fortalecer esta campanha.

  1. Karina Milei, secretária-geral da Presidência, irmã do presidente Javier Milei, e apelidada de ‘el jefe‘, está a ser investigada na sequência da divulgação de gravações de áudio que sugerem o seu envolvimento num escândalo de corrupção. As gravações revelam um esquema que envolvia a inflação dos preços dos contratos de produtos farmacêuticos, no qual ela receberia 3% em comissões ilegais. Os rendimentos destes contratos fraudulentos de aquisição de medicamentos pelo governo ascenderiam a um montante mensal de aproximadamente 500.000 a 800.000 dólares para a Karina []
  2. A Lista Multicolor é a principal oposição combativa dentro do SUTEBA. É uma frente de esquerda, composta por diversas correntes sindicais e políticas, que se opõe à direção oficialista (Lista Celeste), liderada por Roberto Baradel. Defende métodos tradicionais de greve, mobilização nas ruas e assembleias democráticas nas bases, opondo-se também, tanto à burocracia sindical dominante, quanto aos governos nacional e provincial []
  3. Formação geologica localizado maioritariamente na provincia de Neuquén, zona mais a norte da região da Patagonia, que fornece mais da metade do gás e petróleo de xisto produzido na Argentina. É um dos locais onde mais se pratica a ‘fraturamento hidráulico‘ (também conhecido como ‘fracking‘) fora da América do Norte, com a presença de empresas como RepsolChevronExxonTotalEnergiesPetrobrasShell BP []
  4. Miguel Ángel Pichetto é um advogado argentino e político peronista conservador. Apoiou os governos de Néstor e Cristina Fernández de Kirchner, até à saída de Cristina da presidência. Em 2019, concorreu às eleições presidenciais como candidato à vice-presidência pela aliança governamental “Juntos pela Mudança“, ao lado de Mauricio Macri. Em 2020, Pichetto abandonou oficialmente o Partido Justicialista (do qual era membro desde 1983) e criou, no ano seguinte, o seu próprio partido, o “Encontro Republicano Federal“. Como parte da chamada oposição “dialogante“, tem sido essencial no apoio à governação de Milei, desempenhando um papel crucial, por exemplo, na aprovação da “Ley de Bases []
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