O imperialismo ianque controla o governo de Milei e quer mais pilhagem

18 de Outubro, 2025
6 mins leitura

Por Guido Poletti, da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina

O governo de Milei entregou a gestão da política económica argentina ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. As decisões económicas já não dependem de leis ou decretos do presidente ou de resoluções do Ministério da Economia ou do Banco Central. O que define são os ‘tweets‘ de Scott Bessent (Secretário do Tesouro).

Vimos Milei implorar e rastejar humildemente diante de Trump. O ministro da Economia, Luis ‘Toto‘ Caputo, e o presidente do Banco Central, Santiago Bausili, passaram a maior parte dos últimos quinze dias nos Estados Unidos dando ‘explicações‘ e a prometer mais e maior submissão aos abutres financeiros ianques, em alguns casos aparecendo em transmissões ao vivo pelo YouTube, como aconteceu na reunião organizada pelo FMI para os ‘investidores’ (leia-se especuladores de Wall Street e abutres da dívida externa), em que são interrogados diretamente.

O casino dos ricos

Scott Bessent anuncia um dia que há 20 mil milhões de dólares para um eventual swap cambial. Noutro dia, estipula que irão intervir diretamente, e que já compraram “diretamente” pesos argentinos (sem especificar quantos), para assim “estabilizar os mercados“. “Usar os fundos dos contribuintes durante a paralisação do governo foi uma ação essencial“, veicula. Depois, Trump ameaça que não irão “perder tempo” com a Argentina caso o Milei perca as eleições, submetendo a ajuda à condição. No dia seguinte, Bessent sai para esclarecer e avisa que o Tesouro voltou a vender dólares na Argentina e acrescenta que haveria um maior apoio, que levaria a ‘ajuda‘ de 20 a 40 mil milhões. Depois, noutra mensagem, fala de uma nova intervenção americana no mercado cambial argentino.

É claro que tudo isto é muito impreciso, sem que ninguém saiba como isso acontece concretamente, já que nem mesmo os valores da intervenção norte-americana em dólares são divulgados oficialmente. Conclusão: a política económica do país está “intervencionada” pelo Scott Bessent, e é ele o verdadeiro ministro da Economia e presidente do Banco Central. A semicolonização e subjugação do nosso país atingem limites nunca antes alcançados, superando obscenamente a, já clássica, subjugação às exigências do FMI.

Tudo isto, vale esclarecer, resulta em que cada uma dessas supostas ‘ajudas‘ não o são; são sim aumentos da bola de neve infernal da nossa dívida externa. Enquanto isso, os especuladores e abutres locais e estrangeiros do mercado financeiro local vivem num casino. São como apostas, em que ainda uns reclamam porque outros conseguem ‘informações privilegiadas‘ de algum funcionário local ou estrangeiro. Ganhando ou perdendo, passam de mãos minutos milhares de milhões de dólares.

O drama dos pobres

Enquanto isso ocupa as manchetes dos jornais, o povo trabalhador e os setores populares continuam a viver no inferno de salários e reformas pulverizados, de uma recessão crescente, e do drama do desemprego, que não pára de aumentar. São milhões as pessoas que vivem com uma realidade cotidiana do dinheiro não chegar, do endividamento excessivo para comprar comida ou pagar serviços, do medo de perder o emprego ou do desespero de trabalhar mais horas para conseguir algum dinheiro extra para poder sobreviver.

A exigência ianque

O governo ultradireitista de Milei é capitulador e se congratula pela sua entrega total e absoluta ao imperialismo: “Estamos incondicionalmente com os Estados Unidos e o seu governo“, afirmou o próprio presidente.

Já conhecemos as exigências que se seguem após as eleições: mais austeridade, reformas laborais, previdenciárias e fiscais, prioridade para as empresas americanas na entrega dos nossos recursos à pilhagem imperialista, e a abertura de bases militares ianques no nosso território. Isto tudo sobre o que já está a acontecer: que a decisão cotidiana da política económica, até ao extremo de qual será o valor da taxa de juro de um empréstimo, depende de uma mensagem de Scott Bessent.

Mas Trump, Bessent e o FMI exigem mais: que haja ‘governabilidade‘. Traduzindo, pressionam o governo de Milei  para que se abra mais para procurar outros aliados patronais, não apenas entre o PRO (Proposta Republicana – Partido do Macri), mas principalmente entre  governadores provinciais e até mesmo em setores do peronismo.

Um assessor do governo norte-americano, chamado Barry Bennet, esteve em Buenos Aires, reunido com o membro do ‘Triângulo do Poder1, Santiago Caputo. Juntos, foram visitar políticos patronais de toda a oposição. A exigência norte-americana é muito clara: construir maiorias para que sejam aprovadas novamente ferramentas para aumentar mais ainda a austeridade, como foi o caso no ano passado com a ‘Lei Base‘(Também conhecido como a ‘Lei Omnibus‘)2.

É muito importante entender o que está em jogo. O governo de Milei está no meio de uma crise aberta, com uma raiva popular crescente contra ele, que já se expressou eleitoralmente a 7 de setembro e que certamente se repetirá a 26 de outubro. O povo trabalhador, com seu voto e com as mobilizações nas ruas, infligiu derrotas importantes ao governo.

O peronismo não é a solução

É claro que o peronismo procura canalizar eleitoralmente a raiva contra o governo. Apresenta-se como a alternativa para ‘travar‘ Milei, mas a realidade não é assim. O peronismo, com os seus diferentes candidatos provinciais (mas principalmente através dos seus líderes nacionais: Cristina Fernández, Axel Kicillof, entre outros), sustenta que é ‘infantil‘ romper com o FMI ou suspender os pagamentos da dívida externa. Apresentam-se como aqueles que são capazes de levar adiante uma relação ‘diferente‘ e ‘inteligente‘ com o governo de Trump. Estão a dizer o mesmo que Alberto Fernández, Cristina e Sergio Massa defendiam no seu governo: que é possível um acordo com o Fundo com um plano económico ‘progressista‘, com distribuição de riqueza.

Nestes dois anos de governo de Milei, a atuação de diferentes setores do peronismo demonstrou que não há nenhuma garantia de que não se repita o que já aconteceu: que, em nome da “governabilidade”, haja deputados e senadores que, com qualquer desculpa, mudem de lado e votem em Milei no Congresso, ou se ausentem para garantir os números que sustentam um veto ou mil e uma manobras semelhantes. Ou o que continua a acontecer no terreno das lutas, com uma CGT que continua a olhar para o outro lado e a manter o seu pacto com o governo para deixar passar a dura austeridade.

Tudo isso é exatamente o que exigem o imperialismo norte-americano e o FMI. Que se reconstrua uma “oposição amigável” que ajude o governo a prosseguir com mais ajustes económicos.

  1. O “Triângulo do Poder“, ou “Triângulo de Ferro“, refere-se às três figuras centrais que definem as principais estratégias políticas do país: nomeia e demite funcionários e escolhe os seus amigos e inimigos. Milei está, convenientemente, convencido de que esta estrutura governamental específica transformará a Argentina numa potência mundial. Cada vértice desempenha um papel: Javier Milei enquanto presidente, a face pública do governo e aquele que, em última instância, toma a decisão final, concentrando-se na economia, campo no qual se considera um especialista e merecedor o Prémio Nobel; Karina Milei, sua irmã, enquanto secretária-geral da Presidência, gere a estratégia eleitoral, a formação da pasta e os assuntos governamentais do dia a dia. Formada em relações públicas, serve de ponte com o mundo exterior, falando em nome do presidente, e é ela quem, sem qualquer oposição, controla a estrutura do A Liberdade Avança, o partido governante; e Santiago Caputo, enquanto assessor principal de Javier, “o” ideólogo, e uma figura-chave. Tem uma ideia clara sobre a direção que a administração deve tomar e, como Milei disse no dia da sua vitória eleitoral, o seu verdadeiro poder está nos bastidores, protegido pelas “sombras“. Está envolvido nos serviços de inteligência do Estado, bem como no escritório que recolhe os impostos federais, duas estruturas que lhe fornecem informações privilegiadas dia após dia, de uma forma que nem sempre é legal. Apesar da sua influência significativa, não é um funcionário público, mas sim um consultor externo, o que lhe permite operar dentro do governo sem as limitações éticas ou legais que se aplicam ao resto dos membros do gabinete de Milei. Controla ainda o exército de ‘trolls‘ que espalham e defendem a narrativa oficial []
  2. A ‘Ley de Bases y Puntos de Partida para la Libertad de los Argentinos‘, é também apelidado de ‘Lei Omnibus‘ por ser um ‘megaprojeto‘ que agrupa uma enorme quantidade (664) de reformas distintas em diferentes áreas numa única votação. Quer implementar mudanças drásticas de forma rápida, aprovando todas as medidas de uma só vez, em vez de enviar leis separadas para cada assunto, contornando assim discussões individuais. Visa a venda e privatização de empresas públicas estatais, maior controlo orçamental para realizar cortes e reduzir o financiamento de serviços públicas, e uma reforma laboral, em que, entre muitas medidas, propõe a criação de um período de experiência de seis meses para novos contratados e a eliminação de multas para empregadores que contratam funcionários sem registro. Pretende ainda uma reforma do Estado, que permitiria a reestruturação ou dissolução de órgãos governamentais, e ao mesmo tempo conceder poderes especiais ao executivo, ao permitir o presidente declarar emergência pública e delegar faculdades legislativas em áreas econômicas, financeiras e energéticas, neste caso com a intenção de desregulamentar a economia no meio de uma crise inflacionária []
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