Reproduzimos abaixo a entrevista dada pela Elisabetta Piqué, do ‘La Nación‘, ao Basim Khandaqji. O escritor, que recebeu o maior prémio da literatura árabe, foi libertado e enviado para o Egito como parte do acordo de troca de refens assinado no Egito.
Basim Khandaqji é um escritor que ganhou no ano passado o Prémio Internacional de Ficção Árabe, o mais prestigiado reconhecimento da literatura em língua árabe, pelo seu romance ‘A mask, the colour of the sky‘ (‘Uma máscara, a cor do céu‘), livro que foi traduzido para várias línguas. Além disso, é um dos 250 palestinianos com pena perpétua que foi libertado na segunda-feira passada de uma prisão israelita, como parte da troca de reféns estipulada no acordo promovido por Donald Trump.
Nascido em 1983 em Nablus, na Cisjordânia ocupada, aos 22 anos, e em plena ‘Segunda Intifada‘1, foi condenado a três penas perpétuas por um atentado suicida em novembro de 2004 num mercado desta cidade, no qual morreram três pessoas.
Segundo as IDF (Forças de Defesa de Israel), Khandaqji, que era estudante universitário na época, facilitou a entrada do terrorista suicida na cidade. Já para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, ele foi julgado “indevidamente”.
Na segunda-feira, após 21 anos atrás das grades, durante os quais se tornou poeta e escritor (conseguiu publicar graças ao seu irmão que o visitava), foi deportado para o Egito, onde, ainda em estado de choque, se encontra num hotel.
Numa entrevista telefónica com o jornal ‘La Nación‘, além de expressar a sua felicidade indescritível e os seus sentimentos contraditórios, ele não escondeu o seu ceticismo em relação a uma possível resolução do conflito palestino-israelita: “Não acredito neste plano de paz, mas pelo menos conseguiu deter o genocídio em Gaza“, disse ele.
Primeiro de tudo, como está?
BK: Estou bem. Agora estou em terra de pessoas livres e tento compreender o que aconteceu comigo depois de 21 anos na prisão. Tento compreender isso e vou conseguir, acredito.
Agora que está fora de Israel, em liberdade, quais são os seus planos?
BK: Tenho muitos planos na cabeça. Vou escrever um texto sobre um amigo que estava na prisão. Vou escrever um romance sobre ele quando me sentir descansado. Talvez dentro de um mês comece a escrever esse romance. Escrevi esse romance na minha cabeça, na prisão. Nos últimos dois anos, não pude escrever, os guardas prisionais israelitas tiraram-nos todas as canetas, papéis, cadernos e livros. Então, tentei escrever um romance na minha mente e acho que consegui. Vou concentrar-me nesse romance sobre as relações entre palestinianos e israelitas.
O que foi a primeira coisa que fez quando chegou ao Egito? Comeu algo especial? Pôde abraçar alguém?
BK: Infelizmente, os israelitas, os ocupantes, recusaram-se a deixar a minha família passar da Cisjordânia para o Egito. Aqui estou eu, no hotel, na hospitalidade do país egípcio. Por enquanto, não sei o que vai acontecer comigo, para onde vou, onde vou ficar. Estou à espera de ver a minha família e tentar entender, pensar em tudo o que está por trás, ao meu redor e à minha frente…
Pode descrever como foram esses 21 anos na prisão?
BK: O que posso descrever é o momento em que, após 21 anos preso, me anunciaram que eu seria um homem livre… Até agora não sei como descrever isso… Mas posso dizer que são sentimentos contraditórios: felicidade, mas também tristeza porque deixei companheiros e amigos na prisão. Infelizmente, este acordo de troca não incluiu todos os prisioneiros nas prisões israelitas.
Como foi tratado lá?
BK: Quando nos tiraram da prisão, bateram-nos; quando nos levaram ao ponto de entrega na fronteira, bateram-nos. Bateram-me no peito e é muito doloroso, mas o que dói é a liberdade. É a dor da liberdade.
Algo que sempre teve liberdade foi a sua voz, já que milhares de pessoas leram o seu livro. Qual foi a importância para si saber que a sua voz era ouvida, que havia tantas pessoas a ouvir o que tinha a dizer da prisão?
BK: Sim, isso significou muito para mim. Isso significa que sou o grande vencedor, sinto-me vencedor agora porque a minha escrita não trata apenas de direitos, é um ato de liberdade, é um ato de desafio, é um ato de existência. E quando soube que estavam a traduzir-me para muitas línguas do mundo, isso fez-me sentir mais orgulhoso de mim mesmo. Isso fez-me pensar mais em como posso desafiar esta ocupação. Então, é muito importante ouvir isso, isso anima-me muito.
O que acha que vai acontecer agora? O que acha do plano de paz de Donald Trump?
BK: Não sei se é realmente um plano de paz. Ontem perguntaram-me sobre esse plano de paz, mas não vejo que seja um verdadeiro plano de paz, porque precisa da vontade do povo. Se houver uma vontade comum entre israelitas e palestinianos de dizer que está tudo bem, acho que isso faria parte do acordo do século. Mas é a visão de Trump. E nós, como povo palestino, não podemos confiar nessa pessoa, que é imprevisível, e temos outra visão. O que resulta, no final, desse plano é que estamos num estado entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, com dois regimes: o primeiro afirma ser a única democracia no Médio Oriente, liderada por Israel. E o segundo é um regime de apartheid, de ocupação, liderado por Israel na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza… Portanto, não acredito neste plano de paz. No entanto, estou muito feliz que o banho de sangue em Gaza tenha acabado e que o meu povo lá possa se sentir um pouco melhor agora, depois deste genocídio que começou do céu, da terra e do mar. Insisto, não acredito neste plano de paz, mas pelo menos conseguiu parar o genocídio em Gaza…
Quando estava na prisão, recebia notícias do que estava a acontecer lá fora?
BK: Eu ficava a saber através dos novos prisioneiros que chegavam ou do meu advogado. Mas depois de ganhar o prémio literário, colocaram-me em isolamento total, bateram-me e ameaçaram-me…
Depois de 21 anos na prisão, quando lhe falam sobre o processo de paz, a coexistência entre os dois povos, a solução de dois Estados, o que pensa? Acredita que as condições podem ser criadas?
BK: Veja, hoje estou a falar de uma nova visão, de uma nova referência ética entre os dois povos. Essa referência ética ou essa assembleia começa com os comentários entre os palestinianos e todos aqueles que são antirracistas, antiocupação, antissionistas. Há muitos judeus em todo o mundo que acreditam nisso e acho que com eles podemos fazer algo juntos. Mas, neste momento, não há canais que possamos abrir com os sionistas ou com os israelitas que não acreditam na existência do povo palestiniano. E quanto à solução de dois Estados, não creio que essa visão seja adequada para a atualidade, porque hoje há mais de um milhão de colonos na Cisjordânia: os colonos estão a tomar posse de todas as terras mais importantes da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Então, onde está esse Estado palestino da fronteira de 1967? Onde está, então, a visão?
E então qual seria a solução?
BK: A solução de um único Estado e democracia para todos.
As Nações Unidas afirmaram que o seu julgamento não foi justo. Israel condenou-o a 21 anos de prisão por terrorismo. O que pode dizer a esse respeito?
BK: Depois do ano 2000, houve uma enorme agressão contra o povo palestino e eu era um jovem que, naquela altura, tinha decidido lutar contra a ocupação ilegal, pois achava que essa era a única maneira. Hoje mudei, há outra coisa que podemos fazer e acredito que há outro tipo de resistência.
- De origem arabe, significa “agitação“, “levantamento“, ou “revolta“, e é o nome popular usado para descrever uma revolta ou rebelião palestiniana contra o controlo israelita. Refere-se principalmente às insurreições de 1987-1993 (“Guerra das Pedras“, ou “1ª Intifada“) e de 2000-2005 (“Intifada Al-Aqsa“, ou “2ª Intifada“), e embora tenha origem na desobediência civil, é frequentemente associado à resistência violenta [↩]