“A esquerda deve apoiar uma paz justa para a Ucrânia, não um acordo Trump-Putin para apaziguar o agressor”

15 de Março, 2025
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Pelo seu interesse, reproduzimos abaixo a entrevista dada pelo Federico Fuentes, da revista online ‘LINKS – International Journal of Socialist Renewal‘, ao Denys Pilash, cientista político, membro da organização socialista democrática ucraniana ‘Sotsialnyi Rukh’ (‘Movimento Social’) e editor da revista de esquerda ‘Сommons‘.

Nesta extensa entrevista, Pilash discute a reação na Ucrânia ao recente encontro entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e as implicações para a Ucrânia e para o mundo da mudança na política dos EUA em relação à Rússia. Descreve também a ameaça representada pelo crescente eixo global de reação extrema liderado pelos EUA, Israel e Rússia, e argumenta por que razão a esquerda deve defender um internacionalismo renovado que se oponha a todos os opressores.

Qual foi a reação na Ucrânia ao recente encontro entre Trump e Zelensky?

DP: Como era de prever, a reação foi de indignação. O consenso é que Trump e o vice-presidente JD Vance tentaram humilhar, não só Zelensky, mas também a Ucrânia e o seu povo. Mostraram um desrespeito absoluto pela Ucrânia e culparam cinicamente a vítima. Revelaram-se rufias que se colocaram do lado de outro rufia que está a fazer guerra contra a Ucrânia. Pelo que ouvi de pessoas, mesmo nas forças armadas, elas estão furiosas com a atual administração dos EUA. Sentem que a Ucrânia está a ser chantageada para aceitar um “acordo” muito desvantajoso, que entregará os nossos recursos em troca de nada: nenhuma garantia de segurança, nenhum lucro, nada. O acordo obriga simplesmente a Ucrânia a pagar por tudo, não o agressor.

Isto é o oposto do que a nossa organização, o ‘Movimento Social‘, e a esquerda ucraniana em geral, têm defendido. Exigimos a anulação da dívida externa da Ucrânia. Afirmámos que a reconstrução da Ucrânia deve ser financiada com a riqueza que as oligarquias russas e ucranianas saquearam no espaço pós-soviético, e que agora armazenam no Ocidente e em paraísos fiscais. Alguns destes ativos foram congelados pelos governos europeus, e deveriam ser utilizados para reconstruir a Ucrânia. Mas, neste momento, está a acontecer o contrário.

Portanto, há muito descontentamento contra Trump. Apenas uma minoria muito pequena continua a ter algumas ilusões sobre Trump. Acreditam que Zelensky devia ter sido mais obediente e ter acenado com a cabeça, porque supostamente se apaziguarmos o enorme ego de Trump, ele ouvir-nos-á. Mas a forma como muitos líderes mundiais tentaram fazer acordos com Trump não é apenas desprezível, apenas reforçou a crença de Trump, Vance e Elon Musk de que não enfrentam qualquer resistência forte, a nível interno ou internacional, e podem safar-se com qualquer coisa.

Talvez a única coisa otimista que possa resultar desta situação seja o facto de as pessoas estarem a perder as suas ilusões, não apenas em relação a Trump, mas também em relação à sua marca de política conservadora de extrema-direita. Antes da tomada de posse de Trump, quando ele fazia afirmações absurdas sobre o fim da guerra em 24 horas, havia muita esperança para Trump na Ucrânia. A esperança era grande de que, de alguma forma, a imprevisibilidade de Trump ajudaria a mudar o curso dos acontecimentos e que talvez, magicamente, ele pudesse criar um fim favorável para a guerra. Agora quase toda a gente odeia Trump. E vêem uma ligação direta entre a política de extrema-direita de Trump e a de Putin. Vêem Trump e Putin como sendo, em última análise, a mesma coisa: são dois governantes, de duas grandes potências, que querem impor a regra da força no mundo, onde os mais fortes ditam os termos.

Foram dadas várias explicações para a viragem de 180 graus da política dos EUA em relação à Ucrânia. Como é que a explica?

DP: Foram dadas muitas explicações, por exemplo, que faz parte de uma estratégia profunda para separar a Rússia da China. Mas é difícil ver qualquer visão particularmente coerente no que diz respeito à política externa de Trump. O que podemos ver, no entanto, é uma mensagem ideológica muito clara. Trump, Vance, e Musk, estão essencialmente a dizer ao mundo, e em particular à Europa: “Declaramos guerra a vocês”. Estão a dizer: “Queremos levar as forças de extrema-direita e neofascistas ao poder em todo o lado, e só trabalharemos com estes líderes fascistas e autoritários”.

É bastante revelador o facto de as únicas pessoas que são agora saudadas e respeitadas pela Casa Branca serem criminosos de guerra procurados pelo ‘TPI‘ (‘Tribunal Penal Internacional‘). Basta ver a forma como o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu foi recebido aquando da sua recente visita. Ou a forma como a administração Trump fala de Putin; Trump evita sempre culpar Putin pela guerra ou chamar-lhe ditador, preferindo antes falar da sua forte liderança. Outros que eles cumprimentam de bom grado são aqueles associados ao que podemos agora chamar de “Elon salute”: a ‘Alternativa para a Alemanha‘ (‘AFD‘), o presidente argentino Javier Milei, e outros partidos e líderes políticos da extrema-direita que promovem os valores do ultraconservadorismo, do fundamentalismo de mercado e do neofascismo.

Está a emergir claramente um novo eixo, que junta Trump, Putin, Netanyahu, a extrema-direita na Europa e vários regimes autoritários de todo o mundo. Pudemos ver isso em ação na votação da Assembleia Geral da ONU sobre o projeto de resolução condenando a guerra da Rússia apresentado pela Ucrânia e cerca de 50 co-patrocinadores no terceiro aniversário da invasão em grande escala da Rússia. Entre os que votaram contra estão a Rússia, evidentemente, mas também os EUA, Israel, a Hungria de Viktor Orban, as juntas militares da cintura de golpes na África Ocidental, a Coreia do Norte, etc. Até a Argentina de Milei, que anteriormente se promovia como ultra pró-ucraniana, se absteve; Milei não conseguiu criticar o papá Trump.

Quando se trata dos Estados Unidos, da Rússia e de Israel, há um claro alinhamento de interesses com a sua visão do mundo. É uma visão que Putin defendeu durante muito tempo e que enquadrou como “multipolaridade”. Nesta visão, a Rússia, por exemplo, é livre de fazer o que quiser no espaço pós-soviético, enquanto os EUA são livres de fazer o que quiserem no hemisfério ocidental. É claro que os EUA têm adotado políticas imperialistas nessa região há muitos anos. Mas o que estamos a ver agora – com Trump a fazer reivindicações expansionistas sobre a Gronelândia, o Canadá, o Panamá e a pressionar os Estados latino-americanos, a começar pelo México – é que já nem sequer estão a tentar esconder este facto.

Nesse sentido, temos algo semelhante ao imperialismo de há mais de um século. Muitos da esquerda campista, que vêem o mundo dividido entre um campo pró-imperialismo americano e um campo anti-imperialismo americano, caíram na armadilha de pensar que seria inerentemente melhor ter muitos centros de poder em todo o mundo; que isso seria de alguma forma automaticamente mais igualitário, mais democrático. De facto, o que se verificou foi o oposto: este tipo de “multipolaridade” não se destinava a democratizar o mundo, mas a dividi-lo em esferas de influência, onde um punhado de grandes potências – e apenas essas grandes potências – têm poder.

Neste cenário, é verdade que a única grande potência que Trump vê como verdadeira concorrência é a China, pelo que quer a Rússia do seu lado. Mas a aliança de Trump com Putin não pode ser simplesmente explicada pela geopolítica. Recorrer a um pensamento puramente geopolítico, abandonando a análise de classe, é o calcanhar de Aquiles de grande parte da esquerda contemporânea. Trump e Putin são modelos para a extrema-direita global. Partilham uma visão de uma ordem conservadora, que procura desmantelar o legado do iluminismo e querem replicar esta visão nacionalista, chauvinista e excludente, em todo o mundo. É isso que explica esta aliança.

E esta aliança tem a ver com a classe. Os sectores mais reacionárias da classe dominante no Ocidente estão a aproveitar a oportunidade para desmantelar os restos do Estado-providência e reverter as concessões conquistadas pelos movimentos laborais e sociais durante o século XX. Vemos isso com o ataque que está a ser feito nos EUA por Musk – o capitalista mais rico do mundo – à segurança social, à educação, à saúde pública, a tudo. Querem implementar aquilo a que alguns chamam ‘tecnofeudalismo‘, mas a que eu chamo ‘ultracapitalismo com esteróides‘. Também aqui Trump e Putin têm uma visão partilhada: o bilionário presidente dos EUA tem inveja do sistema oligárquico da Rússia, onde os líderes políticos permitem que os ultra-ricos continuem a pilhar, desde que os oligarcas não interfiram nas decisões políticas. Este sistema oligárquico, baseado num poder supremo sem controlo, é algo que Trump e a extrema-direita gostariam de replicar no Ocidente.

Portanto, tudo isto faz parte da sua visão comum de remodelar a ordem mundial para uma ordem em que as nações mais pequenas e os seus próprios povos são privados de qualquer poder. Pretendem impor hierarquias autoritárias em todos os países. A sua tentativa deliberada de humilhar a Ucrânia foi uma manifestação clara de como este eixo de reação extrema acredita que o mundo deve funcionar.

Onde é que o acordo proposto por Trump deixa não só a Ucrânia, mas também o ‘Sul Global’?

DP: A primeira coisa a dizer em relação ao acordo sobre minerais de terras raras é que ainda não sabemos exatamente o que está nele contido. De facto, nem sequer sabemos se existe um acordo finalizado. Em segundo lugar, mesmo que o acordo seja concluído, baseia-se atualmente em estimativas de explorações realizadas nos tempos soviéticos. Por isso, não há garantias de que a Ucrânia tenha minerais de terras raras suficientes para cumprir o suposto acordo de 500 mil milhões de dólares. O que acontece se descobrirem que não há minerais suficientes ou que a extração é demasiado cara? O acordo parece implicar que a Ucrânia teria de compensar os EUA entregando outros recursos e outros sectores da sua economia, especialmente infra-estruturas.

É evidente que este acordo visa impor o colonialismo económico. Só pode consolidar o papel da Ucrânia como um país dependente e explorado, e abre um precedente perigoso para o ‘Sul Global‘.

E as conversações de paz entre a Rússia e os EUA? Qual é o seu significado?

DP: Se este acordo entre Moscovo e Washington para dividir a Ucrânia à revelia dos ucranianos for para a frente, deverá servir como uma lição importante para os povos do mundo, especialmente no ‘Sul Global‘. A situação é muito clara. A Ucrânia, enquanto país da periferia, tem sido maltratada pelo imperialismo russo vizinho. Para além disso, está agora a ser vendida pelo imperialismo norte-americano. Estes dois imperialismos estão a conspirar num negócio obscuro à custa da Ucrânia. O cenário não podia ser mais claro. É como se um argumentista marxista muito pouco subtil tivesse escrito o guião: temos uma administração de bilionários, co-gerida por um presidente palhaço e pela pessoa mais rica do mundo, a agir de forma descarada e abertamente imperialista, e a afirmar claramente que estão a trabalhar com a Rússia de Putin.

É claro que nós, na esquerda política, não tínhamos ilusões nos EUA. Os ucranianos compreenderam, tal como os curdos na Síria, que é preciso aproveitar todas as oportunidades para obter o apoio necessário para resistir a um agressor. Mas também criticámos a nossa classe dirigente, que não compreendeu que não se tratava de um diálogo entre iguais e que as grandes potências podem virar-se contra nós a qualquer momento, se isso servir os seus interesses. Esta nova situação, no entanto, não deixa desculpas para aqueles que pensam que a Rússia de Putin representa uma espécie de contrapeso ao imperialismo ocidental e norte-americano. O modo de pensar campista acredita que os imperialismos permanecerão em oposição permanente e que o inimigo do meu inimigo é, de alguma forma, meu amigo. Está claramente demonstrado que isto não funciona. A nossa situação atual deveria também dissipar o argumento simplista de que tudo isto não passou de uma guerra por procuração. Se for esse o caso, em nome de quem é que a Ucrânia está agora a travar uma guerra por procuração? Os EUA não estão claramente do lado da Ucrânia – estão a convergir com a Rússia. Então, estará a Ucrânia a travar uma guerra por procuração em nome da Dinamarca? Da Letónia?

Infelizmente, muitas vezes ignoramos a situação das pessoas em diferentes partes do mundo. Foi por isso que a nossa revista, ‘Commons‘, lançou o projeto “Diálogos das Periferias”, para ajudar a reunir pessoas da Ucrânia e da Europa Central e Oriental com pessoas da América Latina, África, Médio Oriente e Ásia, para partilhar experiências, histórias e legados do colonialismo, neocolonialismo e imperialismo. Os nossos contextos são diferentes, mas o padrão das grandes potências que conquistam, colonizam e subjugam nações mais pequenas é muito semelhante.     

O que é que os ucranianos gostariam que resultasse de quaisquer negociações?

DP: A primeira coisa a dizer é que, embora a propaganda russa esteja longe de ser magistral, conseguiu criar a ideia de que os ucranianos são os belicistas e que a Rússia está do lado da paz, apesar de ter desencadeado a maior invasão na Europa desde Adolf Hitler. Conseguiram monopolizar termos como “negociações”, “conversações de paz”, “acordos de paz”. Mas se ouvirmos o que dizem os responsáveis russos – estou a referir-me a Putin e ao ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov, e não aos mais loucos que agem como cães de ataque do regime – eles disseram claramente que a Rússia não só não vai devolver as terras que ocupou, como tem como pré-requisito para as conversações de paz que a Ucrânia ceda ainda mais território. Isto inclui a cedência da totalidade dos oblasts de Kherson e Zaporizhya, incluindo a grande cidade de Zaporizhya, que a Rússia nunca conseguiu ocupar e, por conseguinte, não pôde realizar os seus referendos fictícios para incorporar estes territórios na sua Constituição. No entanto, dizem que isto faz parte da “nova realidade geopolítica” que tem de ser aceite.

A verdade é que ninguém no mundo quer mais a paz na Ucrânia do que os ucranianos. A maioria das pessoas está, naturalmente, cansada da guerra. Mas isso não significa que queiram capitular perante a Rússia e simplesmente entregar as nossas terras e o nosso povo. As pessoas compreendem que, se a Ucrânia for dividida, os milhões de pessoas que se encontram nos territórios ocupados, ou que tiveram de fugir, não terão para onde regressar. Sabem que um resultado que recompense enormemente o agressor apenas fortalecerá o regime autoritário de Putin e significará ainda mais repressão, especialmente nos territórios ocupados. Por isso, os ucranianos têm duas coisas em mente quando pensam em qualquer acordo: o destino das pessoas nos territórios ocupados, e a forma de evitar que a Rússia reinicie a guerra.

Neste contexto, existem áreas possíveis para acordos. Por exemplo, o governo ucraniano deixou claro que não reconhecerá as anexações ilegais da Rússia, pois isso criaria um precedente perigoso para a Ucrânia e para o mundo. No entanto, afirmou que poderia estar disposto a aceitar um acordo temporário segundo o qual, após um cessar-fogo, a Ucrânia manteria pelo menos alguns dos territórios atualmente ocupados e seriam realizadas negociações sobre o destino dos restantes.

Outra condição importante que o Governo ucraniano colocou é a das garantias de segurança. Que garantias haverá para assegurar que a Rússia não utiliza qualquer cessar-fogo para simplesmente acumular mais recursos, poder humano e projéteis, e depois reiniciar a guerra? Trump diz que isso não vai acontecer porque, ao contrário dos presidentes anteriores “fracos” dos EUA, Putin respeita-o pessoalmente, porque ele é “forte”. Mas a Rússia nunca parou a sua guerra híbrida contra a Ucrânia durante a primeira administração de Trump. As palavras de Trump não significam nada. Cada vez mais, pessoas (embora ainda uma minoria) entendem que não há perspetiva de adesão à NATO – vamos deixar de lado aqui todas as implicações disso e tudo o que nós, da esquerda, sabemos que está errado com a NATO. Mas é necessário algum tipo de garantia de segurança que envolva actores importantes para assegurar que a Rússia não volte a invadir.

Uma crítica frequentemente levantada é o facto de não terem sido realizadas eleições e, por conseguinte, Zelensky não ter legitimidade ou mandato em termos de possíveis negociações. Como é que responde a esta questão?

DP: É engraçado, porque temos um tipo que tentou anular uma eleição que perdeu, e outro tipo que está no poder há 25 anos através de eleições completamente falsas, que mata os seus opositores políticos, e estes dois tipos encontram-se na Arábia Saudita, que é governada por uma monarquia absoluta não eleita, para criticar a Ucrânia porque não realizou eleições no meio de uma guerra.

O facto é que não se podem realizar eleições adequadas durante uma guerra, porque para realizar eleições é necessário garantir a segurança das pessoas. E não se pode fazer isso se o país estiver a ser constantemente bombardeado. Outra questão é como é que se envolvem os milhões de pessoas que foram forçadas a fugir e que agora são pessoas deslocadas internamente ou refugiados que vivem fora do país. E como é que se garante que os soldados na linha da frente ou as pessoas nas regiões ocupadas possam votar livremente. Todos estes problemas tornam bastante difícil a realização de um ato eleitoral justo. E isto antes mesmo de começarmos a falar da Constituição da Ucrânia, que proíbe a realização de eleições em tempo de guerra ou de lei marcial. Mas se a Rússia está tão ansiosa por que a Ucrânia realize eleições, então o melhor que tem a fazer é deixar de bombardear as cidades ucranianas.

Quanto à alegação de que as autoridades ucranianas são ilegítimas pelo facto de o mandato de Zelensky ter terminado, a resposta é a mesma – acabem com as hostilidades, depois o povo ucraniano pode votar em quem quiser nas eleições. Mas eu diria o seguinte: apesar do declínio acentuado da sua popularidade, as sondagens de opinião mostram que Zelensky ainda tem mais legitimidade aos olhos do povo ucraniano do que alguns outros órgãos governamentais – e é certamente visto pelos ucranianos como muito mais legítimo do que Trump e Putin. E se compararmos o seu índice de aprovação com o de qualquer outro político na Ucrânia, Zelensky ganha de longe. O seu único verdadeiro concorrente parece ser o general Valerii Zaluzhnyi, que foi comandante militar da Ucrânia e, naturalmente, não é amigo da Rússia. Portanto, a insinuação de que as pessoas gostariam de se livrar de Zelensky e eleger um presidente que seja amigo de Trump e Putin é contrária a todas as sondagens públicas. Na realidade, se a Ucrânia tivesse eleições neste momento, Zelensky provavelmente venceria com mais facilidade num processo eleitoral organizado com tanta pressa. Em contrapartida, os políticos que atuam como representantes de Trump, alegando que poderiam negociar um acordo melhor do que Zelensky, têm uma popularidade de 4% ou menos.

Que novos desafios e oportunidades representa a situação atual para a esquerda ucraniana?

DP: Tudo isto constitui um enorme desafio, não apenas para a esquerda ucraniana, mas para todo o povo ucraniano. Se antes o nosso futuro não era claro, agora é ainda mais precário. Mas em termos de esquerda, a situação atual mostrou claramente que o imperador não tem roupa – todos estes mitos que glorificam os capitalistas e os empresários estão a ser desmantelados mesmo à frente dos olhos das pessoas. A forma como Trump e Musk falam da Ucrânia alienou todos os que tinham ilusões nestes falsos ídolos. As únicas pessoas que ainda torcem por eles são as da extrema-direita, que querem que a reação trumpiana triunfe em todo o mundo.

Este momento tem de ser aproveitado para mostrar às pessoas que o problema não são apenas os indivíduos, mas o sistema capitalista que cria pessoas tão desprezíveis. Temos de explicar que o problema é o capitalismo, que se baseia na recompensa dos detentores do capital à custa da sociedade, e que, se continuarmos neste caminho, este sistema não só destruirá a Ucrânia, como o mundo. É também uma oportunidade para apresentar as nossas alternativas ao capitalismo oligárquico neoliberal.

Para isso, é necessário fazer uma campanha efetiva em torno de questões que beneficiem a classe trabalhadora ucraniana, que foi obrigada a pagar o preço mais alto por esta guerra. Temos de dar poder aos trabalhadores e apresentar propostas para reformular a economia da Ucrânia. Não apenas para o bem-estar das pessoas, mas porque isso é necessário em tempos de guerra. Para nos podermos defender adequadamente, precisamos de uma economia de guerra que funcione corretamente, de um sistema de saúde, de um departamento de ciência e investigação, etc. – todas estas coisas estão interligadas e são vitais se quisermos desenvolver a economia. É igualmente necessário garantir que, na fase de reconstrução, seja dada prioridade às questões de carácter social e não aos interesses do capital privado. Para tal, é necessário inverter as privatizações oligárquicas e devolver sectores estratégicos da economia à propriedade pública.

Significa também continuar a organizarmo-nos em conjunto com outras pessoas da esquerda – com camaradas dos diferentes meios socialistas e anarquistas, sindicalistas, de movimentos sociais progressistas – para apoiar aqueles cujas vidas foram destruídas pela guerra, bem como aqueles que estão envolvidos na resistência armada, seja no exército ou na prestação de serviços essenciais. Temos de nos basear nestes laços e estruturas para criar sujeitos políticos que possam abrir caminho a mudanças revolucionárias.

Naturalmente, este não é apenas um desafio para a esquerda ucraniana, mas para a esquerda em todo o lado. Enfrentamos um momento de extrema polarização em que forças extremamente reaccionárias alcançaram um ímpeto não visto desde a Segunda Guerra Mundial. Temos a invasão da Ucrânia por Putin e os planos de Trump para Gaza a reforçarem-se mutuamente e a reforçarem a reação em todo o mundo. Trump e Putin planeiam transformar o mundo num inferno ainda pior. A menos que se deparem com uma resistência genuína e coordenada, as forças ultraconservadoras e fascistas continuarão a tomar o poder em país após país.

Os nossos inimigos de classe estão a unir-se a nível global. Por isso, precisamos realmente de começar a pensar como é que nós, enquanto esquerda, nos unimos a nível internacional. Para o conseguir, será necessário, entre outras coisas, um internacionalismo consistente. Isso significa deixar de inventar desculpas para não prestar solidariedade. Temos de deixar de tentar determinar que povos são, de alguma forma, mais dignos de apoio do que outros, ou não são dignos de qualquer apoio porque, de alguma forma, são oprimidos pelo opressor errado. Temos de estar ao lado de todas as pessoas oprimidas em todo o mundo.

Há verdadeiros progressistas que vêem a nova situação na Ucrânia como positiva (pelo menos em comparação com a anterior) porque acreditam que pode ajudar a pôr fim ao massacre, ou por medo de que a guerra se transforme numa guerra nuclear ou mundial. Como é que lhes responderia?

DP: A verdade é que experimentámos uma enorme solidariedade e apoio de camaradas de todo o mundo. Mas também temos visto os progressistas não só a recusarem-se a tomar partido, mas até a recusarem-se a ouvir-nos. Compreendemos as causas desta situação. Em muitos casos, resulta de um sentimento de impotência. Isso acaba por levar as pessoas a recorrer à ideia de que talvez se alguma outra força pudesse, de alguma forma, desafiar o sistema existente (ou pelo menos o grande imperialismo), poderia de alguma forma criar algum espaço para mudanças. Mas este tipo de pensamento representa uma ruptura clara com a política de esquerda. Em última análise, tem mais em comum com a realpolitik cínica ou a visão “realista” da política. Representa um abandono da política de classe e substitui a luta por uma alternativa ao capitalismo por um simples apoio a qualquer regime anti-ocidental.

Pode ver-se como este tipo de pensamento acaba por ser muito semelhante à mentalidade conservadora de direita. Os conservadores culparam a Revolução Cubana por ter levado o mundo à beira de um conflito nuclear durante a crise dos mísseis cubanos. Na altura, diziam que “Cuba era tão egoísta por querer mísseis soviéticos que podiam pôr em perigo os EUA” e culpavam os “cubanos loucos” por não compreenderem a gravidade da situação. Hoje, ouvimos as mesmas coisas, que os ucranianos são, de alguma forma, “belicistas que estão a jogar com a Terceira Guerra Mundial”, só que agora ouvimos isso, não só do presidente bilionário de extrema-direita dos EUA, mas também de alguns da esquerda. As pessoas que realmente querem a Terceira Guerra Mundial são os agressores. É Putin que está a arriscar a Terceira Guerra Mundial e não tem qualquer consideração pela vida humana, nem mesmo pelas vidas russas. No entanto, ainda se ouvem pessoas de esquerda a culpar os ucranianos e a acusá-los de quererem lutar “até ao último ucraniano”.

Em termos de evitar a guerra, a realidade é que não existe nenhum exemplo histórico em que recompensar ou apaziguar um agressor tenha funcionado. Mas há muitos exemplos de como isso preparou o caminho para a Segunda Guerra Mundial, como quando a comunidade internacional essencialmente não fez nada para impedir que os fascistas ganhassem a Guerra Civil Espanhola. Até a União Soviética estalinista, que prestou ajuda à República, ficou com as reservas de ouro de Espanha em troca – tal como Trump quer fazer com os minerais de terras raras da Ucrânia. Da mesma forma, a Grã-Bretanha e a França simplesmente abandonaram os republicanos espanhóis sob o pretexto de “não-intervenção”. Também colaboraram diretamente com Hitler para desmantelar a Checoslováquia, sem dúvida o país mais democrático da região, mas isso também não impediu a Segunda Guerra Mundial. O ‘Pacto Molotov-Ribbentrop‘ entre a União Soviética e a Alemanha também não impediu a Alemanha de atacar a União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Portanto, o padrão tem-se repetido vezes sem conta.

Em última análise, o problema destes progressistas é que não têm uma verdadeira alternativa a propor. Apresentam slogans pacifistas e, em muitos casos, idealistas, como “temos de olhar para fora da caixa”, “a guerra nunca é a resposta” e “dêem uma oportunidade à diplomacia”. Mas, no fim de contas, as soluções a que aderem são a mesma realpolitik defendida pelas grandes potências: deixar que os imperialistas negoceiem a forma como dividem os países mais pequenos e o mundo em esferas de influência. Aqueles que defendem esta lógica precisam de se colocar no nosso lugar e pensar como é que isto se apresenta do nosso lado. Como é que se sentiriam se estivessem a ser ocupados, torturados, assassinados, mas, de alguma forma, os outros vissem isso como um contributo para reformular a ordem mundial para melhor? A realidade é que a nossa situação atual só ajudará a remodelar o mundo para pior.

Aqueles que se agarram a esta retórica encontrar-se-ão cada vez mais alinhados com as forças de reação extrema que fazem parte da nova internacional fascista liderada pelos EUA e pela Rússia, e aparentemente por Israel. Porque, em última análise, se estamos de acordo com os seus planos para a Ucrânia, estamos de acordo com os seus planos para o povo palestiniano, porque estamos de acordo com o facto de as potências imperialistas se juntarem para decidir unilateralmente o que acontece às nações mais pequenas.

Como é que a esquerda internacional pode ajudar o povo ucraniano, e a esquerda ucraniana em particular, nestes tempos turbulentos?

DP: A primeira coisa que eu diria é que a esquerda não deve renunciar à luta nos seus próprios países contra as suas próprias classes dominantes, contra as suas próprias forças reaccionárias que se estão a aliar a forças semelhantes a nível mundial. Para ajudar o povo ucraniano, a primeira coisa a fazer é continuar as vossas próprias lutas.

A segunda coisa a fazer é apoiarmo-nos numa plataforma internacionalista que se oponha a todos os agressores, a todos os opressores, a todos os imperialistas. Atualmente, isso significa encontrar formas de ajudar o povo da Ucrânia, em vez de apoiar os planos de ditadores bajuladores e ultracapitalistas. A Ucrânia é uma luta importante para a esquerda. Slogans bonitos, como “o sofrimento tem de acabar de alguma forma”, “a guerra tem de acabar de alguma forma”, não são suficientes para acabar com o sofrimento e a guerra. Para o conseguir, é necessária uma paz justa e duradoura. Mas estas negociações ditas de “paz” entre Putin e Trump visam simplesmente recompensar o agressor e convidar a novas agressões.

Assim, contra a realpolitik a que assistimos hoje na esquerda, precisamos de um internacionalismo renovado para enfrentar a administração Trump, que está a liderar um ataque global de extrema-direita ao que resta das forças progressistas e das conquistas sociais em todo o mundo. Sempre que Trump faz uma declaração exigindo que nações inteiras deixem de existir e se tornem estados dos EUA, ou ameaça anexar partes de outros países, tudo o que se obtém é uma resposta muito mansa da comunidade internacional. Eles têm medo. Mas nós, como esquerda, não podemos ter medo, nem mesmo diante do pior pesadelo capitalista. É agora ou nunca. Se não agirmos agora, pode não haver amanhã. Em vez disso, podemos dar por nós a viver sob o tacão de regimes extremamente autoritários e fascistas que procuram remodelar o mundo a seu gosto – um grande e agradável recreio para as pessoas mais brutais e mais ricas do mundo.

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