Por Adolfo Santos, dirigenteda Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI
A Europa está em ebulição. Uma onda de protestos, mobilizações e acampamentos cresce contra os brutais ajustamentos económicos na Itália, em Espanha, em Portugal, na Bélgica e na Albânia. Em França, o que começou como um protesto de alunos do ensino secundário em Paris assumiu uma dimensão nacional, ao ponto de ter sido convocada uma greve geral para 5 de novembro.
Desde meados de setembro que a França enfrenta uma rebelião em grande escala. Os protestos iniciais, liderados pelos alunos do ensino secundário, tiveram como motivo a crise na educação. A falta de professores, salas de aula superlotadas, edifícios degradados e sem as condições mínimas para o desenvolvimento das atividades educativas num clima de calor extremo foram a faísca que deu início ao incêndio. Os canais de televisão de todo o mundo transmitiram em direto a ocupação de centenas de estabelecimentos de ensino e as manifestações de rua de jovens, juntamente com os seus professores e pais, no centro de Paris, exigindo respostas ao governo de Emmanuel Macron. Longe de apresentar soluções, o governo respondeu com um forte aparelho repressivo.
Então, o conflito alastrou-se. Mais de mil escolas secundárias de Paris, Lyon, Marselha, Toulouse, Lille e Bordéus aderiram às ocupações e aos bloqueios. Em poucos dias, as reivindicações dos alunos do ensino secundário repercutiram-se nas universidades, onde mais de 40 campus foram paralisados ou ocupados por estudantes e professores que rejeitam os cortes orçamentais, a falta de docentes, a deterioração das instalações e as restrições ao acesso ao ensino superior através da plataforma digital ‘Parcoursup‘, considerada injusta, burocrática e pouco transparente. Trata-se de um conflito contra o crescente desmantelamento da educação pública, ocorrido ao longo de anos de decadência e crise capitalista, ao qual o governo nacional apenas responde com repressão ou promessas de “mesas de diálogo” sem qualquer consequência.
É a crise económica capitalista
A educação não é o único problema. O mal-estar estudantil pôs em evidência a fragilidade económica de um dos gigantes da Europa, que já foi o maior Estado de bem-estar social. Demonstrou que o problema é mais profundo e colocou em cima da mesa a crise económica, o custo de vida, a inflação, o preço dos combustíveis e os cortes na despesa pública. Esta realidade impulsionou as grandes manifestações do fim de semana de 17 e 18 de outubro em toda a França. Os estudantes abriram as comportas, mas existe uma revolta generalizada. Juntaram-se a eles os ‘Coletes Amarelos‘ (‘Gilets Jaunes‘), um setor rural empobrecido que, desde 2018, protesta contra o elevado preço do gasóleo, e os sindicatos, face a um custo de vida insuportável e à perda permanente do poder de compra.
Incapazes de travar a mobilização, Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Sébastien Lecornu respondem com mais repressão. Esta semana entrou em vigor um recolher obrigatório que restringe a livre circulação e a reunião em alguns bairros de Paris e noutras cidades francesas. Concentram-se em zonas marginais, com indivíduos mascarados – muitas vezes infiltrados – que atacam estabelecimentos comerciais para desvirtuar a mobilização. O governo tenta resolver à força um profundo conflito social; no entanto, a mobilização não recua. Estudantes e professores continuam em pé de luta, os ‘Coletes Amarelos‘ convocam a manifestação no próximo sábado, dia 24, e os sindicatos convocam uma greve geral com mobilizações para quinta-feira, 5 de novembro. “A França caminha na corda bamba. A segunda maior economia da zona do euro, um dos pilares sobre os quais assenta a arquitetura financeira europeia, enfrenta o que parece ser uma espécie de tempestade perfeita“.
A França não é uma ilha, faz parte de um continente em chamas devido à crise capitalista, que não dá resposta às reivindicações legítimas de uma população trabalhadora e de uma juventude empobrecida. Macron e Lecornu tentam fugir às suas responsabilidades, atribuindo a culpa pelos protestos à “extrema-esquerda” e ao partido ‘França Insubmissa‘ (‘La France Insoumise‘), encabeçado pelo Jean-Luc Mélenchon. Uma acusação que se desmorona quando testemunhamos os acampamentos da juventude e dos setores populares pelo direito à habitação em Portugal e na Espanha, a rebelião em Itália contra o custo de vida e a desigualdade social ou as manifestações na Albânia devido ao profundo mal-estar socioeconómico. A razão de fundo é a decadência acelerada do capitalismo imperialista, que mergulha a classe trabalhadora e os setores populares numa miséria crescente, na superexploração e na pilhagem das riquezas. Contra isso, as massas populares destes países se revoltam.
A partir da Esquerda Socialista, enquanto parte da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), manifestamos a nossa solidariedade com estas lutas. Repudiamos a repressão e as medidas que restringem as liberdades da juventude e do povo trabalhador, impostas pelos governos de Macron e Lecornu, e exigimos a libertação imediata de todos os detidos durante os protestos.