Um presidente imparcial, uma oposição neutralizada

30 de Setembro, 2026
5 mins leitura

Por Enes Karakaş, do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Mansur Yavaş (Presidente da Câmara de Ancara) reuniu-se com Erdoğan em Beştepe (Complexo presidencial em Ancara), no dia 9 de setembro. Segundo as declarações, o tema em discussão foram os empréstimos para o metro de Ancara. Yavaş afirmou: “Se não nos reunirmos com quem governa este país, como é que vamos servir o povo?“, e, quanto à questão da escolha entre o CHP (Partido Republicano do Povo) e o ‘Novo Partido‘(‘Yeni Parti‘)1, esbateu-a dizendo: “Na separação há sofrimento, na união há misericórdia“. Ou seja, não há aqui uma mudança de lado, mas sim uma atitude de não tomar partido. Interpretar isto como uma preferência pessoal ou como uma prática de gestão municipal seria ignorar a essência da questão.

O segundo ato da nulidade

A decisão de nulidade absoluta de 21 de maio foi uma tentativa do governo, que tinha perdido a possibilidade de vencer nas urnas, de transformar o poder judicial num instrumento de pressão para desqualificar a principal oposição. O plano era paralisar o CHP, que se encontrava sob administração judicial. No entanto, com a criação do ‘Novo Partido‘, o plano falhou: o partido dividiu-se, mas a resistência da oposição não foi quebrada. Porque a força da oposição não residia na estrutura partidária, mas sim no desejo de mudança das massas, fartas da miséria e da repressão. A anulação conseguiu apoderar-se de um letreiro, mas não desse desejo.

É aqui que reside o impasse do regime. De acordo com os dados da Türk-İş (Confederação dos Sindicatos Turcos), em junho, o salário mínimo de 28 mil liras ficou abaixo do limiar da pobreza, que se situava em 36 mil liras. Com um panorama destes, é difícil vencer as eleições politicamente, e eliminar as urnas não é, por enquanto, possível. A única opção que resta é restringir a disputa. Imamoğlu está em Silivri2, ou seja, fora da disputa. O ‘Partido da Esquerda Verde‘ (‘Yeşil Sol Parti‘ – YSP/DEM) colocou em segundo plano, em grande medida, as críticas ao regime em nome do “processo“. Desta forma, está a ser alvo de uma tentativa de neutralização por parte do regime. O que foi proposto a Yavaş é a neutralidade em troca de “serviços“. A torneira dos créditos para o metro está no Tesouro, ou seja, nas mãos do regime ‘de um homem só‘, e o preço para manter a torneira aberta é a restrição da política.

Por outras palavras, a equação “lealdade absoluta ou nulidade absoluta” imposta pelo Palácio ao CHP está agora a ser aplicada individualmente aos intervenientes: ou o bastão da justiça ou uma fotografia em Beştepe. Este é o método para esvaziar a eleição sem a eliminar. As urnas permanecem no lugar, mas deixam de haver opções nas urnas.

Os limites da oposição a meio

Özel (Fundador e porta-voz do ‘Novo Partido‘) afirmou que já tinha sido informado da reunião com antecedência e que não via nisso qualquer problema. A “oposição a meio“, que se abstém de mobilizar as massas contra a nulidade [dos resultados eleitorais], também considera normal que um dos seus candidatos se sente à mesa de negociações “de serviço” com o Palácio. Isto não é uma coincidência, é uma escolha de classe. A oposição burguesa defende o direito e a liberdade de voto, mas não os relaciona com a ruína económica que os trabalhadores vivem, porque o seu próprio programa é o programa do capital. A sua luta contra o regime não se baseia no próprio sistema, mas sim na forma como este deve ser gerido. Por isso, considera natural chegar a um acordo com o Palácio para gerir a câmara municipal e esperar pelas eleições para conquistar o poder. No entanto, toda a estratégia do regime consiste precisamente em aproveitar esse período de espera. A força do Novo Partido não provém do seu programa, mas sim do desânimo da sociedade. À medida que este desejo fica confinado ao calendário eleitoral, fica também vulnerável a ser diluído nos corredores de Beştepe.

Em quem confiar?

As fórmulas do tipo “primeiro que o Erdoğan se vá embora” ou “um voto à esquerda, um voto no candidato do Novo Partido” vinculam a esperança a candidatos que amanhã poderão ser neutralizados. No entanto, a única força que o regime não consegue dividir nem neutralizar é o poder organizado dos trabalhadores, que não encontram os seus interesses em nenhuma das alas do sistema.

A ‘Aliança do Trabalho‘ deve ser precisamente a expressão política desse poder. Uma alternativa independente dos partidos do sistema; uma opção que reúna os sindicatos, os trabalhadores em luta, a esquerda socialista e os trabalhadores curdos e turcos num programa comum. Neste programa, as reivindicações democráticas – como a anulação das decisões nulas e da nomeação de administradores judiciais, e a libertação dos presos políticos – devem ser defendidas em conjunto com as reivindicações económicas, como um salário digno e empregos com segurança. Num país onde o salário mínimo se situa abaixo do limiar da fome, a reivindicação pela democracia não pode ser separada da reivindicação pelo pão. Além disso, esta aliança não é uma mesa de negociações centrada nas eleições; deve ser uma estrutura baseada na mobilização nos locais de trabalho, nos bairros e nos campus universitários, que determine tanto o seu candidato como o seu programa a partir da base. Se o Palácio tenta não deixar qualquer alternativa nas urnas, a resposta é construir uma alternativa que ele não consiga neutralizar. Por isso, a Aliança do Trabalho não é uma escolha, é uma necessidade.

  1. O ‘Novo Partido‘ foi fundado por Özgür Özel na sequência da sua destituição do cargo de presidente do Partido Republicano do Povo (CHP) por uma decisão judicial controversa em maio de 2026. Trata-se de uma facção dissidente do CHP, tendo sido criado como plano de contingência para eventuais eleições antecipadas. Desde então, tornou-se a principal força de oposição no parlamento turco, na sequência da deserção em massa de antigos deputados do CHP, o que o tornou o segundo maior grupo parlamentar. O presidente da câmara de Istambul, Ekrem İmamoğlu, atualmente detido, anunciou o seu total apoio ao partido recém-criado pouco depois da sua fundação [↩]
  2. A Prisão de Marmara, anteriormente conhecida como Prisão de Silivri, é um complexo prisional estatal de alta segurança situado no distrito de Silivri, na província de Istambul, na Turquia. Inaugurada em 2008, é a instalação prisional mais moderna do país e a maior da Europa [↩]
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