Por Esther del Alcázar i Fabregat, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
A Palestina viveu uma revolução entre 1936 e 1939, com o apogeu de um movimento de autodeterminação que tinha ganho força a partir da Declaração de Balfour de 1917, que apoiava a criação de um “lar nacional judeu” na Palestina. O movimento opôs-se tanto aos britânicos como à colonização sionista, recorrendo aos métodos da classe trabalhadora, nomeadamente a greve geral decretada a 20 de abril de 1936, que deu início à Grande Revolta Árabe na Palestina.
As razões para as revoltas da década de 1920 foram três: a aquisição de terras por imigrantes judeus (que passaram de 3% para 30% da população); a expulsão dos camponeses palestinianos e beduínos das suas terras (só em 1930-31, foram expulsas cerca de 20.000 famílias; em 1941, cerca de 80% dos camponeses árabes não possuíam terras ou estas eram insuficientes para a sua subsistência); e o armamento das organizações sionistas. Na década de 1930, o descontentamento contra o mandato britânico instaurado em 1922 aprofundou-se, com levantes como os de Jerusalém e Jaffa, em outubro de 1933.
Greve geral e rejeição do plano de partilha britânico
O clérigo e pregador Izzedin al-Qassam, que em 1930 formou um grupo de resistência armada com raízes no campesinato, foi assassinado numa emboscada britânica em Jenín, durante a revolta de outubro de 1935. A sua morte desencadeou a grande manifestação de 21/11/1935 em Haifa contra os símbolos britânicos, durante a qual foram atacados postos de polícia. Após o assassinato, em Nablus, de quatro palestinianos em retaliação ao assassinato de dois judeus, o Comité Nacional de Nablus convocou uma greve geral.
Nos anos anteriores, tinham-se multiplicado as organizações de base e as associações de mulheres em cidades como Jaffa e Ramallah (em 1929, um Congresso de Mulheres reuniu 300 delegadas exigindo a revogação da Declaração de Balfour e o fim das leis de punição coletiva), que organizavam o boicote aos produtos sionistas e a distribuição de ajuda às famílias das vítimas de represálias. Assim, quando a insurreição eclodiu nas cidades, ficou nas mãos dos Comités Nacionais locais (‘al-Lajnah al-Qawmiyya‘), compostos por trabalhadores, intelectuais e comerciantes. Foram a espinha dorsal da greve, atuando como governos de facto em cada cidade. Temendo que os comités locais os deixassem para trás, os partidos políticos formaram, cinco dias depois, o Alto Comité Árabe, presidido pelo mufti de Jerusalém, M. Amin al-Husayni, e apelaram à continuação da greve até que fosse proibida a aquisição de terras, fosse formado um governo palestiniano e acabasse a imigração judaica.
O PCP (‘Partido Comunista da Palestina‘) não integrou o Alto Comité Árabe. Participou em comités e manifestações onde exercia influência: portos de Haifa, caminhos-de-ferro e indústria petrolífera. Apoiou também a criação da Federação de Sindicatos Árabes, promovendo a organização árabe-judaica, na clandestinidade e alvo da repressão britânica e da Federação Geral dos Trabalhadores de Israel, a Histadrut. Mas, apesar do seu nome, “da Palestina“, o PCP era dominado por membros judeus e não conseguiu “arabizar-se” nem enraizar-se no campesinato. A Oposição de Esquerda não tinha um grupo próprio, mas sim pequenos núcleos no seio do PCP1.
Perante a dura greve, os britânicos solicitaram a mediação de líderes árabes para conseguir a sua suspensão, o que conseguiram em outubro de 1936. A Plano Peel, chegada de Londres, propôs pôr fim ao mandato britânico e dividir a Palestina histórica em duas entidades: um Estado judeu, com a zona agrícola mais fértil e as cidades e vilas árabes; um Estado palestiniano sob o controlo da dinastia hachemita da Transjordânia, com o deserto do Negev, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Os britânicos manteriam apenas um corredor desde a costa mediterrânica até Jerusalém.
Os palestinianos rejeitaram a proposta e a revolta deslocou-se para o campo e alastrou-se, entrando numa fase mais violenta, com o assassinato do comissário britânico para a Galileia, em setembro de 1937, e adquiriu uma dimensão árabe, incorporando ex-combatentes da Grande Revolta Síria de 1925. As manifestações pró-palestinianas multiplicaram-se no Iraque, na Síria e no Egito.
A derrota e o Livro Branco
Os britânicos declararam o estado de emergência e reforçaram a sua presença com mais unidades militares. Milhares de palestinianos foram detidos e dezenas condenados à morte. As aldeias e cidades que se revoltaram sofreram castigos coletivos, como a destruição das casas. As forças britânicas, juntamente com as da Haganá (organização paramilitar sionista criada na década de 1920), multiplicaram as execuções sumárias. Em 1939, os palestinianos registavam 5.000 mortos, 10.000 feridos, 5.697 prisioneiros e milhares de exilados: mais de 10% da população vítima de represálias!
Segundo Ghassan Kanafani, marxista palestiniano assassinado pelo Mossad com um tiro na nuca, as razões da derrota foram: a fraqueza da classe operária, a hegemonia da camada feudal-clerical sobre o movimento, o fracasso dos camponeses sem terra em manter uma independência de classe e a aliança britânico-sionista com a sua enorme superioridade em recursos e violência. Ele acreditava que essa derrota foi o prelúdio da Nakba.
Uma conferência entre britânicos, judeus e árabes, realizada em 1939, culminou no Livro Branco, que respondia em parte às reivindicações árabes, travando a aquisição de terras e limitando a imigração judaica, bem como promovendo a criação de um Estado palestiniano no prazo de cinco anos, o que provocou protestos e atentados sionistas. O Livro Branco nunca chegou a ser aplicado e, pouco tempo depois, eclodiu a Segunda Guerra Mundial.
- No início da década de 1940, a tensão no seio do PCP levou muitos quadros árabes a formar a Liga de Libertação Nacional (LLN), seguindo a política do Kremlin e apoiando o Plano de Partilha de 1947 como um “passo rumo à autodeterminação”. Quando o Estado de Israel foi proclamado em 1948, membros da LLN, juntamente com comunistas judeus, formaram o Partido Comunista de Israel (Maki), com líderes como Meir Vilner, um comunista judeu, que chegou mesmo a assinar a Declaração de Independência de Israel [↩]