A Turquia e Israel vão entrar em guerra?

1 de Setembro, 2026
5 mins leitura

Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Há já bastante tempo que assistimos a um aumento da intensidade do discurso anti-Israel por parte dos porta-vozes do governo e da imprensa governamental. Os porta-vozes do regime, especialmente nos últimos tempos, tinham endurecido consideravelmente o seu discurso contra Israel, aproveitando a agressividade dirigida ao Irão, a tal ponto que quem acompanhasse apenas a imprensa do governo poderia pensar que os ataques militares contra o Irão eram levados a cabo exclusivamente pelo Estado sionista. Pois os porta-vozes do regime conseguiram passar por este difícil teste sem proferir uma única frase negativa contra os EUA e Trump!

O governo de coligação ultra-fascista do sionismo, da mesma forma, intensificou recentemente as suas declarações e atitudes contra a Turquia. Os representantes das diferentes alas do sionismo começaram a divulgar o discurso de que a maior ameaça, a seguir ao Irão, é a Turquia sob a liderança de Erdoğan, afirmando que “depois do Irão, vem a Turquia“. O ponto culminante desta tensão foi o ataque do Estado sionista, a 18 de agosto, ao Aeródromo Militar de Abu Zuhur, em Idlib.

Após o ataque a esta zona, situada a 70 km da fronteira com a Turquia, Netanyahu afirmou que nunca permitiriam a expansão militar da Turquia para sul, declarando: “Ao que parece, não tinham ouvido isto, por isso fizemos com que compreendessem isso de forma mais clara“. Tom Barrack, que ocupa o cargo de governador regional de Trump, criticou este ataque de Israel e salientou que criou o risco de um conflito entre a Turquia e Israel. O facto de ter sido o próprio Barrack a referir a possibilidade de um conflito fez com que este assunto se tornasse um tema debatido na imprensa internacional.

Especialmente sob o regime autoritário, há já muito que estamos familiarizados com o fosso cada vez maior entre o discurso e a realidade na política burguesa. É evidente que tanto o governo de Erdoğan como o de Netanyahu se esforçam por consolidar as suas bases eleitorais através desta polarização. Por outro lado, sabemos muito bem como as relações comerciais e diplomáticas continuam a decorrer em segundo plano, enquanto estes discursos hostis se mantêm. A Base de Radar de Kürecik, que serve de escudo a Israel contra o Irão, e Ceyhan, que transporta diariamente dezenas de milhares de barris de petróleo do Azerbaijão para o Estado sionista, continuam a ser os indicadores mais evidentes desta hipocrisia.

No entanto, é bastante evidente que, sob a égide do imperialismo norte-americano, ambos os governos, na sua tentativa de se tornarem potências regionais, enfrentam atritos políticos. O palco onde estes conflitos se concretizam é a Síria, onde ambos os países se esforçam por se tornar a força determinante. O Estado sionista pretende que na região existam Estados com governos centrais fracos, a fim de poder manter e garantir as suas políticas de ocupação e genocídio. Neste contexto, na Síria, continua a levar a cabo as suas intervenções militares e políticas no país, tentando assumir o papel de defensor das minorias contra o governo de al-Shara’a. Por seu lado, o governo de Erdoğan está a dar um apoio intenso ao governo de al-Shara’a para que este construa o aparelho estatal central. Esta política do governo de Erdoğan coincide também com a política de Trump de eliminar os atores não estatais na região e de trabalhar com governos centrais aos quais tenha atribuído a soberania. Barrack resume esta política com o slogan “um único exército, um único governo, um único Estado“, que nos é também bastante familiar.

Será que este quadro significa que a administração Trump, que pode ser considerada o governo mais sionista da história dos EUA, prefere Erdoğan ao governo de Israel? A crise crónica e múltipla em que se encontra o imperialismo capitalista possui uma dinâmica que instiga atritos e conflitos conjunturais entre os governos burgueses. No entanto, apesar destas tensões conjunturais, do ponto de vista do imperialismo norte-americano, a existência e a segurança do Estado sionista continuam a ter um caráter estratégico e histórico. Por outro lado, a atual política externa do Palácio, ao contrário do que afirmam os seus porta-vozes, não está a tornar a Turquia um ator internacional mais forte, mas sim a levá-la numa direção que a torna ainda mais dependente do imperialismo norte-americano. O resultado disso é que a Turquia se torna cada vez mais cúmplice das políticas agressivas e genocidas da administração Trump, sendo assim arrastada para uma linha mais frágil e aventureira na política externa.

Todos estes acontecimentos estão, por sua vez, a desenrolar-se à sombra de três guerras que determinam a política mundial: a invasão da Ucrânia pela Rússia, o genocídio de Gaza perpetrado pelo sionismo e a agressão dos EUA contra o Irão, em parceria com o sionismo. Em todas estas três guerras, embora os povos dos países atacados tenham enfrentado custos elevados em diferentes graus, o que é determinante é o facto de os agressores estarem muito longe de concretizar os seus objetivos iniciais e, quando avaliados à luz desses objetivos, terem sido derrotados. Estas derrotas transformam-se em dinâmicas fundamentais que alimentam a crise do capitalismo mundial e reforçam o terreno objetivo da luta de libertação dos trabalhadores e dos povos oprimidos do mundo.

“Com baionetas pode-se fazer tudo, mas não se pode sentar-se sobre elas”

Esta frase, atribuída a Talleyrand, ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão Bonaparte, continua a ser extremamente útil para descrever a situação em que se encontram os agressores. Apesar das suas capacidades militares e tecnológicas superiores, os agressores imperialistas não conseguem atingir os seus objetivos nas guerras ilegítimas e injustas em que se lançam para consolidar a sua hegemonia; esta situação torna-se um fator que agrava ainda mais as crises de legitimidade no seio dos próprios países.

A frase acima é extremamente esclarecedora também no que diz respeito ao poder minoritário do regime ‘de um homem só‘. Com a destreza adquirida ao longo de 25 anos de experiência, está a envidar um esforço tremendo para reprimir e intimidar a oposição, utilizando com a maior habilidade possível os mecanismos de repressão de que dispõe. No entanto, apesar de todo o seu profissionalismo, a política de repressão e terror não consegue encobrir a ruína económica e a corrupção política, nem produzir os resultados desejados pelo Palácio.

A crise de legitimidade do regime ‘de um homem só‘ vai muito além de uma crise governamental, estando intimamente ligada às crises estruturais do imperialismo capitalista. As mudanças superestruturais que reproduzirão este sistema, por sua vez, nunca poderão oferecer uma solução às reivindicações dos trabalhadores e dos povos oprimidos. É precisamente por isso que a esquerda e o movimento operário têm de construir a sua própria alternativa política com base nesta realidade fundamental, num eixo de ruptura com o regime de repressão e com o capitalismo.

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