Por Cristina Mas, da Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
Partilhamos o seguinte artigo elaborado por Cristina Mas, dirigente da Lucha Internacionalista, secção da UIT-CI no Estado Espanhol, publicado originalmente pelo jornal ‘ARA‘ no passado dia 16 de agosto.
Hussam Abu Safiya, diretor do hospital Kamal Adwan, em Gaza, encontra-se detido em Israel sem acusação nem julgamento há quase vinte meses.
“Trouxeram-me para cá para me matar. Não creio que saia daqui com vida“. Esta foi a última mensagem que o pediatra Hussam Abu Safiya conseguiu transmitir através do seu advogado a partir do local onde se encontra detido. Há pouco tempo que o tinham transferido para Rakefet, uma prisão subterrânea israelita onde os reclusos nunca vêem a luz do dia. Quando o advogado, Nasser Odeh, o visitou a 2 de julho, mal o reconheceu: tinha o rosto cheio de hematomas, tinha dificuldade em falar e respirar e mal conseguia manter-se sentado. Por várias vezes, pareceu que estava prestes a desmaiar.
“A situação é muito grave. Ele não tem comida nem medicamentos e está completamente isolado“, explica numa videochamada com a ‘ARA‘ o seu filho Ilyas, que vive no Cazaquistão com parte da família. As informações chegam-lhes de forma intermitente através dos advogados. Não podem ligar-lhe, escrever-lhe nem visitá-lo. Cada período de silêncio aumenta o receio de que algo lhe tenha acontecido.
Abu Safiya, pediatra e diretor do hospital Kamal Adwan, no norte da Faixa de Gaza, foi detido pelo exército israelita a 27 de dezembro de 2024, durante o ataque que deixou fora de serviço o último grande hospital que ainda funcionava naquela zona. Há semanas que a sua figura se tinha tornado um símbolo dos profissionais de saúde palestinianos que continuavam a atender doentes sob os bombardeamentos, sem eletricidade, combustível, medicamentos nem pessoal suficiente.
Tinha tido várias oportunidades de abandonar Gaza, mas recusou-se a fazê-lo. “Decidiu ficar com os seus doentes“, explica Shorouq Saleh Al-Rantisi, de 32 anos, que começou a trabalhar como técnica de laboratório no Kamal Adwan em 2019. “Como pediatra, não podia abandonar as crianças doentes e feridas que não tinham mais ninguém para as cuidar“.
O chefe do gabinete de imprensa do governo do Hamas, Ismail al-Thawabta, conduz uma conferência de imprensa no Hospital Al-Aqsa, em Deir al-Balah, para anunciar a dissolução do órgão que governou a Faixa de Gaza durante quase duas décadas, abrindo caminho para que um comité tecnocrático implemente um governo civil
Al-Rantisi trabalhou ao seu lado durante toda a guerra, até ao dia da detenção. Como não havia pessoal suficiente, teve de dar uma ajuda em áreas fora da sua especialidade: urgências, radiologia, bloco operatório e obstetrícia. Tal como muitos dos seus colegas, ela era voluntária.
O último refúgio do norte
O Kamal Adwan tinha-se tornado o último refúgio do norte de Gaza, que o exército israelita estava literalmente a esvaziar. Os restantes hospitais tinham sido evacuados ou destruídos. Abu Safiya e a sua equipa estavam plenamente conscientes de que, se abandonassem as pessoas, estas ficariam desamparadas, sem esperança e acabariam por partir. O primeiro grande ataque israelita ocorreu em dezembro de 2023. As tropas detiveram então o seu diretor, Ahmed Kahlout, juntamente com dezenas de profissionais, e esvaziaram e encerraram o hospital.
“Pouco depois, o doutor Hussam ligou-me e disse-me que queriam reabrir o Kamal Adwan, e pediu-me para me juntar a eles“, explica a sua colega. “Era ele quem nos dava força para continuarmos a trabalhar, dizia-nos que não devíamos abandonar a nossa humanidade nem por um minuto. Não é apenas um médico: é a consciência de Gaza e a sua detenção é uma tentativa de silenciar a própria humanidade. O mundo não pode esquecer o hospital Kamal Adwan e os profissionais que decidiram ficar“.
Abu Safiya reabriu o centro e tornou-se o seu novo diretor: recuperaram o equipamento que ainda estava em condições de uso e voltaram a colocar em funcionamento a unidade de cuidados intensivos e as salas de operações. O seu empenho inspirava esperança na população. O hospital ficou sitiado durante meses e sofreu várias incursões militares. O equipamento médico, os geradores, os reservatórios de água e as instalações de oxigénio foram danificados pelo fogo israelita. “Os médicos e as enfermeiras têm de tratar os feridos enquanto caem bombas à sua volta, e os doentes têm de ser operados sem todo o equipamento necessário ou sem anestesia. Mas ir embora significa deixá-los morrer“.
O caso de Abu Safiya, recorda ele, foi mais extremo porque, literalmente, os drones israelitas perseguiam-no dentro do hospital: numa ocasião, um desses aparelhos disparou-lhe na perna esquerda, enquanto ele se encontrava na sala dos médicos. Durante meses, recebeu chamadas de comandantes israelitas que lhe exigiam que se rendesse: a partir dos drones equipados com altifalantes, os soldados israelitas gritavam o seu nome.
Na incursão militar israelita ao hospital, morreu o seu filho Ibrahim, de quinze anos. Enterraram-no perto do centro e os poucos jornalistas palestinianos que sobreviveram no norte da Faixa – onde Israel continua a negar o acesso à imprensa internacional – captaram as imagens do herói destroçado, a chorar desconsoladamente enquanto os seus companheiros o abraçavam.
Telhas e isolamento
O jovem não volta a ver o pai desde que este foi detido a 27 de dezembro de 2024. O exército israelita lançou o ataque final ao Kamal Adwan: dezenas de tanques cercaram o hospital e chamaram-no pelos altifalantes. Foi visto a caminhar sozinho, de bata branca, por uma rua destruída, em direção a uma coluna de tanques. Entrou num tanque e cumprimentou os soldados. Acordaram as condições da evacuação. Ele ficou até que o último doente e o último funcionário do hospital saíssem, tal como o capitão que não abandona o navio que se afunda.
Abu Safiya passou por várias prisões israelitas. Só foi visto uma vez, em junho passado, quando compareceu por videoconferência numa audiência no Supremo Tribunal de Israel, onde denunciou que mais de cinco funcionários o tinham agredido com bastões e martelos. A 24 de junho, foi transferido para a prisão de Rakefet, um edifício semi-subterrâneo dos anos 80 concebido para reclusão de chefes do crime organizado e que acabou por ser encerrado por ser considerado desumano. O ministro da Segurança Nacional israelita, o extremista de direita Itamar Ben-Gvir, ordenou a sua reabertura.
O Supremo Tribunal de Israel instou o governo a responder a uma petição que exige a libertação de Abu Safiya e de mais treze médicos de Gaza detidos sem acusação.
Israel nega que o pediatra esteja a ser maltratado ou que a sua vida corra perigo. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado hebraico afirma que ele se encontra detido legalmente com base em “informações concretas dos serviços secretos” e classifica-o de “Coronel do Hamas“, sem apresentar provas. Também não foram apresentadas acusações formais. As autoridades israelitas divulgaram uma única imagem para o associar ao Hamas, na qual se vê Abu Safiya com um uniforme dos serviços médicos militares do governo palestiniano, um organismo que opera tanto em Gaza como na Cisjordânia e que não tem qualquer relação com o Hamas nem com o seu braço armado.