Pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela
O Partido Socialismo e Liberdade (PSL) reitera a sua solidariedade para com todo o povo venezuelano, atingido pelos terramotos da passada quarta-feira, 24 de junho de 2026, que até ao momento causaram 3.535 mortos, 16.740 feridos, mais de 5.000 famílias afetadas e um número indeterminado de desaparecidos que, segundo a ONU, poderá chegar às 50.000 pessoas.
Sabemos, e temos vindo a denunciá-lo há anos, que o sofrimento não atinge a todos da mesma forma: são os bairros populares, as mulheres e os trabalhadores, que já suportavam a brutal austeridade capitalista aplicado pelo governo, que hoje enfrentam com maior severidade as consequências do terramoto e das réplicas contínuas.
Os movimentos sísmicos de 24 de junho revelaram com toda a sua crueza a face de um governo que, após anos de austeridade capitalista, redução dos salários, desregulamentação laboral, desinvestimento sistemático e corrupção generalizada, tinha destruído a capacidade do país para responder a qualquer emergência.
Antes do sismo, a catástrofe já existia: a destruição dos sistemas de água potável, o colapso do sistema elétrico, a escassez de gás doméstico, a precariedade dos transportes públicos e o acesso limitado à gasolina, tudo fruto de um modelo que favorece o capital privado nacional e as transnacionais, facilitando o enriquecimento de uma minoria em detrimento da vida do povo venezuelano.
Agora que nos deparamos com esta catástrofe socio-natural, denunciamos a resposta improvisada com a criação dos chamados acampamentos temporários e a incerteza quanto a uma política habitacional que garanta a construção de habitações para as famílias afetadas.
Até ao momento, o governo não apresentou um plano claro de reconstrução nem de realojamento das famílias afetadas; pelo contrário, optou pelo deslocamento forçado, enviando muitos sinistrados para o interior do país com bilhetes gratuitos e subsídios irrisórios, como uma solução propagandística que ignora o verdadeiro problema de fundo. Não se resolve uma crise habitacional “exportando” os pobres para longe das câmaras de filmar.
Repudiamos a presença militar norte-americana e israelita
Repudiamos a presença maciça de militares e agentes do governo de extrema-direita de Donald Trump no nosso país. Neste momento, há mais de 2.000 militares e funcionários norte-americanos na Venezuela, entre os quais cerca de 900 fuzileiros navais, que controlam operações em locais estratégicos como o aeroporto de Maiquetía e o porto de La Guaira.
O Comando Sul dos Estados Unidos anunciou a mobilização de drones, helicópteros de combate, o navio de transporte anfíbio USS Fort Lauderdale (LPD 28), o navio de combate costeiro USS Billings (LCS 15), além de aeronaves de transporte estratégico C-17 Globemaster e C-130 Hercules, aeronaves de asa rotativa MV-22 Osprey e helicópteros UH-1Y Venom, todos do Corpo de Fuzileiros Navais, e helicópteros CH-47 Chinook do Exército dos EUA.
Consideramos que uma presença militar desta magnitude num país que acaba de sofrer um duplo terramoto acarreta riscos políticos e operacionais. A situação exige uma resposta civil coordenada face à grave situação social e económica de milhares de sinistrados, numerosos feridos e vítimas mortais.
Esta suposta ajuda humanitária dos Estados Unidos pode constituir uma tentativa de avançar para um maior controlo político e económico do nosso país, tal como aconteceu com o Haiti após o terramoto de 2010.
Rejeitamos igualmente a chegada ao solo venezuelano de delegações de Israel, tais como o Comando da Frente Interna das Forças de Defesa de Israel (IDF), Magen, Ready for Rescue, SmartAID e Zaka. Não se trata de ajuda humanitária desinteressada; trata-se, antes, de uma operação de propaganda concebida para limpar a imagem de genocidas que impõem na Palestina um regime racista de apartheid.
Uma entidade que bombardeia hospitais, escolas e campos de refugiados em Gaza não tem autoridade moral nem legitimidade para se apresentar como salvadora na Venezuela. Aceitar as suas delegações militares sob o pretexto humanitário é permitir que o aparelho de guerra sionista use o sofrimento do nosso povo como vitrine de relações públicas.
Nada disto é por acaso. A presença militar desproporcionada de Israel e dos Estados Unidos é consequência do pacto de rendição do governo de Delcy Rodríguez com o imperialismo norte-americano, através do qual não só se cedem o petróleo e outras riquezas do país, mas também a soberania territorial e o controlo de ativos estratégicos altamente sensíveis.
Repudiamos os setores patronais que validam a ingerência imperialista
A partir do PSL, denunciamos os setores da oposição patronal que naturalizaram a agressão e a presença imperialista e validam esta capitulação. María Corina Machado, Leopoldo López, Antonio Ledezma, Elsa Solórzano, Carlos Ortega, entre outros dirigentes, são responsáveis por terem pedido a intervenção estrangeira durante anos e hoje mantêm um silêncio funcional perante a entrega da soberania nacional, porque isso coincide com a sua própria agenda de submissão ao capital transnacional.
Da mesma forma, denunciamos os setores que, a partir do movimento sindical, atuam como agentes políticos destas agendas, como é o caso da Coligação Sindical, que pretendem aproveitar-se da tragédia para pedir que os EUA organize eleições e promova aquilo a que chamam de mudança política, num momento em que o povo venezuelano está empenhado em resgatar os seus familiares e em fazer face à grave crise humanitária que estamos a atravessar.
Apelamos com a mesma firmeza às direções sindicais tradicionais e, em especial, ao Acordo Nacional Unitário. O seu silêncio cúmplice perante a instalação de delegações militares estrangeiras e a negociação secreta com Washington torna-os cúmplices passivos da entrega da soberania. A classe trabalhadora necessita de uma liderança sindical, independente dos patrões privados e do governo, dos partidos burgueses e do imperialismo, que coloque no centro os interesses da classe trabalhadora e do povo pobre, e que rompa com os setores patronais que pretendem colocar os trabalhadores e as trabalhadoras na cauda dos seus interesses.
É preciso colocar todos os recursos ao serviço das pessoas afetadas pela tragédia
Neste contexto, exigimos:
– A retirada imediata das tropas e do pessoal diplomático e de serviços secretos dos EUA e de Israel do território nacional.- Suspender a injeção de dólares do BCV no setor bancário privado e redirecionar esses recursos na totalidade para o fundo de emergência e para um plano de habitação digna destinado às vítimas.
– Anulação total da dívida externa de 240.000 milhões de dólares.
– Confiscação temporária do equipamento pesado das empresas de construção privadas para garantir a remoção urgente dos escombros nas zonas afetadas.
– Suspensão permanente das sanções, rejeitando o caráter transitório da Licença n.º 60 da OFAC (Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros), válida apenas até outubro, que mantém o país refém da vontade imperialista.
– Devolução imediata de mais de 11.000 milhões de dólares provenientes da venda de petróleo, retidos pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
O PSL apela aos sindicatos de classe e às organizações populares, de mulheres e de dissidências, bem como à juventude em geral, para que organizem de forma independente centros de recolha e distribuição que escapem à corrupção da burocracia estatal e garantam que a ajuda chegue efetivamente a quem dela necessita. A solidariedade de classe constrói-se a partir da base; não se decreta a partir dos gabinetes.