Pela Luta Internacionalista (LI), secção da UIT-QI no Estado Espanhol
Na sequência do acordo assinado pelos EUA e pelo Irão, todas aquelas ameaças apocalípticas de Trump ao Irão soam agora a fraqueza. O acordo representa uma derrota em todos os objetivos que Trump tinha proclamado. Inclui, não só, o reconhecimento do regime da República Islâmica por parte dos EUA, como permite a exportação de petróleo iraniano com isenções do Tesouro e a recuperação de contas bloqueadas. Além disso, a título de compensação, estão previstos investimentos no valor de cerca de 300.000 milhões de dólares. Está incluída a cessação imediata dos ataques no Líbano. Em troca, o Irão e os EUA comprometem-se a reabrir o Estreito de Ormuz e a continuar a negociar para chegar a um acordo geral.
O fracasso retumbante de Trump é assinalado por todos os analistas, assim como a ira que provocou em Israel, contra Netanyahu e contra o próprio Trump. A guerra assimétrica, na qual os EUA e Israel bombardearam inúmeros alvos militares e civis quase sem oposição, foi contrariada pelos mísseis e drones iranianos, que visaram não só Israel, mas também todos os Estados do Golfo onde os EUA mantinham bases. E, mais do que a ameaça nuclear, o bloqueio do Estreito de Ormuz e os seus efeitos económicos globais serviram para equilibrar a balança e levar ao impasse imperialista. Nenhum dos objetivos que Trump estabeleceu foi alcançado, da mesma forma que Netanyahu também não conseguiu os seus, nem em Gaza nem no Líbano.
Estes são os limites do imperialismo, que demonstram que, apesar do seu enorme poder, este não é invencível. A síndrome do Vietname, do Afeganistão e do Iraque continua a pesar como uma lage sobre a capacidade do imperialismo de, se os povos resistirem, impor o seu ditame pelas armas.
O principal prejudicado pelo acordo é Netanyahu e o regime sionista. Este já afirmou que não retirará as tropas que continuam a ocupar o Líbano. Nas primeiras horas após o anúncio do cessar-fogo, Israel continuou a bombardear o Líbano, pondo em causa o acordo que tem de assinar esta sexta-feira. As declarações de Trump sobre Netanyahu tornaram-se mais contundentes. Entretanto, em Israel, o confronto contra o primeiro-ministro intensifica-se tanto no seio do governo como na oposição. As declarações dos governos europeus também criticam a ocupação e os massacres no Líbano e na Cisjordânia. O isolamento internacional do regime sionista volta a aumentar, o isolamento que, com o falso plano de paz para Gaza, tinha conseguido atenuar.
É preciso intensificar a solidariedade com a resistência dos povos palestiniano e libanês, tal como se voltou a tentar com as Flotilhas. É possível derrotar os planos sionistas; não podemos abrandar nem por um instante. Temos de avançar com novas iniciativas, seguindo a mesma linha de denúncia da cumplicidade ocidental no genocídio sionista e da exigência de uma ruptura total das relações militares, políticas, comerciais, académicas, culturais e desportivas. E, ao mesmo tempo, continuar a manter a solidariedade através da campanha com a União independente dos Comités de Trabalhadores – Palestina (ILCUP), que já vai na 25.ª edição.
A intervenção imperialista reforçou o regime criminoso dos ayatolas. Aproveitando o clima de guerra, aceleraram-se as execuções de ativistas, muitos dos quais se encontravam detidos desde a revolta “Mulher, Vida e Liberdade“, bem como desde as enormes mobilizações de há alguns meses. Uma parte do povo iraniano e dos ativistas acreditou ver no ataque e nas proclamações imperialistas uma forma de libertação do odiado regime, e que os bombardeamentos que vitimaram centenas de civis poderiam ser um mal menor. Não compreendiam que colocássemos como prioridade a luta contra a agressão imperialista-sionista. Parecia que ou se estava do lado do regime ou do lado do imperialismo, mas essa era a falsa dicotomia da situação. Era possível estar contra a agressão imperialista, sem deixar de denunciar o regime, porque a agressão alimentava o regime. Esta é a verdadeira dialética da luta de classes.
A derrota do imperialismo, tal como aconteceu, permite aprofundar a crise do seu principal instrumento na região: o Estado de Israel. E esta crise favorece a resistência palestiniana e libanesa. É por isso, e devido à nova correlação de forças que gera, que o reforço do regime teocrático dos ayatollahs é apenas temporário. E a solidariedade internacionalista, especialmente entre os povos do Sudoeste Asiático, voltará a ser importante.
O mesmo acontece na Venezuela. Uma parte da classe trabalhadora venezuelana e da diáspora, face aos salários extremamente baixos e à repressão, aplaudiu erroneamente a intervenção de Trump contra Maduro e esperava que – de qualquer forma – isso levasse a uma melhoria dos salários, à descida dos preços e a alguma liberdade. Mas, alguns meses depois, tudo está pior: a aliança entre o chavismo, representada por Delcy Rodríguez, e os EUA permite a pilhagem do país (minas, hidrocarbonetos…) pelas multinacionais, em vez de trazer melhorias para os venezuelanos. Por isso, e porque o principal inimigo do capitalismo não são os governos, mas sim os povos, Trump impôs um bloqueio a Cuba que atinge brutalmente a população trabalhadora.
Mais uma vez, a história confirma-o: das armas do imperialismo nunca surgiu nem a liberdade dos povos nem uma melhoria para os trabalhadores e as trabalhadoras. Todo o nosso apoio à luta da classe operária e dos povos contra os imperialismos e os governos reacionários.