Pela UIT-QI
Esta entrevista foi realizada 24 horas antes da Flotilha ter sido ilegalmente interceptada por Israel. Mónica Schlotthauer é deputada da Esquerda Socialista (IS) e do FIT-U da Argentina, e integrante da Flotilha ‘Global Sumud’ abordo do navio ‘Batolo-Amka’. Mónica realizou a entrevista ao ativista catalão-palestiniano Saif Abukeshek no ‘Batolo’, antes de Saif mudar de embarcação.
Mónica Schlotthauer é trabalhadora ferroviária da Argentina e membro da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI). Também foi raptada pelo exército Israelita em águas internacionais ao largo da costa da ilha de Creta, na Grécia, sendo depois libertada e transferida para Istambul, na Turquia.
Saif foi sequestrado e detido pelo Estado genocida de Israel, que o mantém preso juntamente com o brasileiro Thiago Avila. O mundo clama pela libertação imediata de ambos. As declarações de Saif revelam o seu caráter de lutador democrático e humanitário, coerente na defesa do povo palestiniano e de todos os povos do mundo.
Pode assistir à entrevista na sua íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vsZkVSawJGI
Saif, para que te conheçam na Argentina e noutros países, gostávamos de saber… um pouco sobre ti, de onde és, um pouco da tua história
SA: Chamo-me Saif, nasci num campo de refugiados no norte da Cisjordânia, chamado Áscar, que fica na cidade de Nablus. A minha família é de uma aldeia perto de Yaffa1 de 1948, o meu pai nasceu lá. O meu nome completo é um pouco longo: Saif Ashfem Camel Yavergsev Mahmud Abukeshek. Todos eles nasceram lá, menos eu, que nasci no campo de refugiados. Cresci durante a ‘primeira intifada‘2 ; os meus pais são presos políticos e eu também tive a minha quota-parte na Cisjordânia: fui detido várias vezes e alvejado várias vezes em manifestações. E bem, como acontece com todos os palestinianos, em cada família da Palestina há sempre pelo menos um membro que já sofreu de alguma forma com a ocupação. Acho que tivemos bastante sorte em comparação com outras famílias que perderam membros da família. Vivo em Barcelona, tenho duas meninas e um menino e faço o que faço por eles em primeiro lugar e pelo futuro de todos nós.
Bem, como é que apresentas a Flotilha ‘Global Sumud’, como é que surgiu, qual é o objetivo?
SA: Bem, sabemos que as flotilhas surgiram pela primeira vez em 2008, quando o bloqueio a Gaza já tinha começado, e, desde então, têm-se vindo a organizar várias iniciativas. No ano passado – após muitos anos sem campanhas internacionais – houve três campanhas ao mesmo tempo. Houve o ‘Madleen‘, que foi o navio que iniciou o caminho para romper o bloqueio, houve o ‘Soumoud Convoy‘ (‘Caravana Al-Soumoud‘) do Norte de África, e houve a ‘Marcha Global para Gaza‘, onde 4000 pessoas de 80 países viajaram para o Cairo para marchar em direção a Rafah e tentar quebrar o bloqueio.
Então, ficámos a ponderar, a avaliar, entre esses três movimentos, apenas para saber como estavam as coisas e a organizar a comunicação de forma conjunta e, quando as três iniciativas foram alvo de repressão, dissemos: vamos juntar-nos, vamos conversar para nos coordenarmos numa campanha única. Assim nasceu a Flotilla ‘Global Sumud’.
Pouco depois de começarmos a trabalhar em conjunto, juntaram-se a nós também, do Sudeste Asiático, a ‘Sumud Nusantara‘. E essas quatro coligações têm vindo a trabalhar em conjunto desde então. A flotilha foi organizada no ano passado e foi a maior frota que tentou quebrar o bloqueio no meio do genocídio. E agora voltamos novamente com uma frota ainda maior, também num contexto político bastante complicado, mas após um silêncio total nos últimos 6 meses, algo a que chamaram de “cessar-fogo” fictício, na verdade, durante o qual Israel assassinou mais de 740 palestinianos e violou os acordos de ‘cessar-fogo‘ mais de 2.073 vezes. E em que, ainda há dois dias, anunciaram que iriam alargar a linha amarela, que teoricamente era uma linha temporária até que as fases fossem mudando. Mas a realidade no terreno não mudou; o genocídio não parou, Israel manteve e alargou essas fronteiras, ou seja, para colonizar mais terra. Na Cisjordânia, aprovaram mais leis para confiscar mais terra e deslocar mais palestinianos. Aprovaram a pena de morte para os prisioneiros palestinianos, que se aplica apenas aos palestinianos, para além das torturas, além de toda a violência física e sexual que estão a cometer já contra os prisioneiros.
Assim, nestes 6 meses, em que, em teoria, se fala de um “processo de paz” e de um “cessar-fogo“, Israel tem vindo apenas a intensificar a sua agressão, a atacar cada vez mais os palestinianos, a bombardear com total impunidade a nível internacional, com a cumplicidade dos governos e da União Europeia, que há dois dias decidiu votar a ampliação do acordo de associação com Israel.
Chegamos com uma iniciativa num contexto realmente muito complicado, mas necessário. É bastante diferente do que era há seis meses, quando partimos de Barcelona a 31 de agosto. Uma situação muito, muito diferente, mas é necessária.
Poderia resumir quais são as principais diferenças?
SA: Bem, em primeiro lugar, o nível das mobilizações. Ou seja, no ano passado, no auge do genocídio, houve muitas mobilizações em várias partes do mundo, mas já há seis meses que as mobilizações são muito escassas. Quanto à cobertura mediática, no ano passado falava-se muito da Palestina e de Gaza, mas já há seis meses que não se fala de Gaza. A parte política: ou seja, havia pressão nas ruas, havia muitos governos já envolvidos a fazer declarações, a tomar medidas, e há seis meses que todo o processo político em relação à Palestina mudou. O nível de risco também aumentou, porque estamos a falar de uma situação instável com a guerra no Irão e com os ataques de guerra no Líbano.
Portanto, tudo isto é muito diferente em comparação com o ano passado, mas conseguimos mobilizar mais pessoas, conseguimos mobilizar mais navios. Conseguimos, logo na primeira semana da flotilha, voltar a falar sobre Gaza. Tivemos 244 milhões de interações nas redes sociais com as publicações que estamos a divulgar. Assim, como primeiro objetivo, estamos a conseguir dar novamente visibilidade à Palestina, dar novamente visibilidade a Gaza.
Também trabalhámos de forma diferente no âmbito político, ou seja, trabalhámos para criar um impacto político diferente do ano passado: organizámos um congresso em Bruxelas com a participação de mais de 300 políticos de várias partes do mundo para lançar, em primeiro lugar, uma declaração de Bruxelas que aborda os direitos marítimos do povo palestiniano. Aborda a autodeterminação face a todas as violações de direitos, aborda a condenação à morte dos prisioneiros e, a partir daí, cria uma base política para apoiar a Flotilha. E já começámos a receber declarações de diferentes parlamentares. 25 parlamentares colombianos deram início a uma declaração de apoio à Flotilha. Estamos também a ser contactados por diferentes parlamentares que agora querem juntar-se à próxima fase para participar com os navios.
Assim, um dos nossos objetivos, que é o impacto político, já o estamos a alcançar e, nas mobilizações, pela primeira vez, uma frota civil tenta desviar um navio de carga, um dos maiores a nível internacional, que é cúmplice, que transporta material utilizado para fabricar artilharia. Em Israel, esse material é utilizado para bombardear os palestinianos e manter o genocídio.
Na verdade, embora seja Israel a cometer os crimes na Palestina, Israel está a ser apoiado e facilitado por governos europeus e internacionais para cometer esses crimes. São aqueles que lhes enviam armas, aqueles que lhes enviam material, aqueles que lhes dão cobertura política, mediática e financeira para cometer esses crimes. Não são apenas uma parte silenciosa, são cúmplices ativos no genocídio.
Sobre a polémica que Francesca Albanese3 levantou neste encontro em Bruxelas, qual é a tua opinião?
SA: Acho que, na verdade, não nos interessa entrar em debates públicos sobre declarações de uma pessoa ou de outra. A Palestina precisa de todo o tipo de mobilização e apelos contínuos para que se trabalhe em terra, no mar, nos portos, nas escolas, nas universidades e noutros espaços políticos. E é isso que temos vindo a fazer; temos um grupo de trabalho de campanhas em terra que está a coordenar com os estudantes e com os trabalhadores (…) Faz parte do trabalho político que temos vindo a realizar através da declaração de Bruxelas e que visa a criação de uma futura rede política. Não se trata apenas de concluir esse trabalho com a Flotilha, mas de dar continuidade ao trabalho após.
Estamos a trabalhar na questão da visibilidade da comunicação para que possamos voltar a apoiar a Palestina. O meu apelo a todas as pessoas que estão a apelar a outras ações é que o façam; às pessoas que dizem que temos de bloquear os portos, concordo, temos de bloquear os portos, que o façam. Mas para organizar e mobilizar uma causa não é preciso desacreditar outra; o que precisamos é de unidade. O que precisamos são vozes que chamem às mobilizações, que chamem à organização das pessoas. Houve seis meses de silêncio, houve seis meses sem mobilizações e não ouvimos vozes a chamar a essas mobilizações. No momento em que a flotilha está no mar, é preciso apoiar.
Há um aspeto muito importante, que já abordei numa comunicação anterior, que diz respeito ao simbolismo. Temos de ter muito cuidado com a forma como utilizamos esses termos, porque não só desacreditamos centenas de pessoas que estão a participar numa ação direta no mar, como é o caso da Flotilha, como também desacredita longas histórias de ação direta não violenta. A começar pelos palestinianos: a greve de três anos ininterruptos de 1936, a ‘Primeira Intifada‘, a ‘Grande Marcha do Retorno‘4 dos palestinianos em Gaza. Todas são mobilizações como a ‘Marcha do Sal‘, liderada por Mahatma Gandhi5 , ou as greves de fome dos prisioneiros. Se a ação direta é um desafio à política, é um desafio aos governos que força as mudanças. Temos de ver como podemos criar unidade, como podemos criar um espaço diversificado de mobilizações e apoiar todas as iniciativas. E onde podemos colocar a nossa energia, colocá-la aí.
E quanto ao comboio terrestre?
SA: Bem, está a partir; o comboio está nas últimas preparações. Começará a partir nos próximos dias da Mauritânia e depois seguirá até à Líbia, onde se juntarão mais 400 pessoas de todo o mundo; mais de 30 ou 40 países estão a participar. Haverá mais de 40 camiões de ajuda humanitária e esperamos que a chegada do comboio a Gaza possa coincidir com a nossa própria chegada a Gaza. Por mar e por terra, vamos quebrar o bloqueio.
O que achas da possibilidade de haver paz no Médio Oriente, para os palestinianos, com o Estado de Israel a agir como guardião?
SA: Quando falamos de um processo de paz, em que é necessário aplicar certas condições para criar espaço para um Estado palestiniano, mas trabalha-se de forma sistemática para confiscar terras, deslocar mais palestinianos, isolar as aldeias palestinianas e construir estradas que não podem ser utilizadas pelos palestinianos, isso não são sinais de paz. Além disso, começa se a aumentar o número de prisioneiros palestinianos durante estes mesmos anos. Ou seja, em vez de libertar prisioneiros palestinianos, prende-se mais palestinianos. Nunca vimos, em momento algum, qualquer intenção por parte de Israel de que haja um processo de paz.
Israel repete sempre a mesma história e muitas pessoas no mundo repetem-na sobre o Hamas… O Hamas foi criado no final dos anos 80. Antes da criação do Hamas, Israel já ocupava a Palestina há 40 anos. Estamos a falar agora de genocídio e muitas pessoas pensam que o genocídio começou a 7 de outubro. O genocídio já dura há 80 anos e há muitos crimes que Israel cometeu, muitas limpezas étnicas, muitos ataques antes destes últimos três anos. Além disso, na própria Gaza, em 2008, houve ataques; em 2010, houve ataques; em 2014, houve ataques; em 2018, houve ataques; em 2020, houve ataques; em 2022, houve ataques com milhares e milhares de pessoas assassinadas.
Temos de compreender que, quando um governo começa por declarar que não existe nada chamado Palestina, que os palestinianos não existem, quando um governo cujos próprios dirigentes dizem que eles são animais e que vamos matá-los a todos, que as crianças são criminosas, que as crianças são terroristas, tanto as que estão dentro como fora da Palestina, para que possamos falar sobre qualquer resolução de paz, é preciso acabar com o movimento sionista, que é um movimento racista, discriminatório, fascista, que não aceita a existência de outro povo. Um povo originário desta terra, que querem deslocar e eliminar de forma total. Então, na verdade, focamo-nos no tipo de Estado que vamos construir, se é um Estado ou dois Estados, e perdemos de vista os detalhes dos mecanismos que podem impedir qualquer processo de paz. Esses mecanismos começam com a aplicação do direito internacional, com a aplicação das resoluções internacionais e o fim do movimento sionista.
E uma mensagem para todos os que estão a ouvir?
SA: Estamos aqui a partir para Gaza com uma determinação, com uma convicção, de que os povos acabam sempre por vencer, os povos vencem. A nossa iniciativa, a nossa frota para romper o bloqueio, não pode ter sucesso sem ações em terra.
Apelamos para que as pessoas se levantem em todo o lado. Hoje a questão não é a Palestina, a questão é a nossa humanidade. O que Israel faz lá e o que os Estados Unidos fazem. Vimos que sequestraram o presidente da Venezuela, a ameaça sobre a Colômbia, vimos o bloqueio sobre Cuba, vimos a guerra no Irão, vimos como iniciaram a divisão do Sudão, da Somália, os crimes que são cometidos no Congo e em muitos países do mundo.
Esta é a política, é o sistema que funciona na perfeição para nos reprimir, para nos confiscar os direitos. Levantem-se pelos nossos direitos, levantem-se pela nossa humanidade, pela nossa libertação coletiva.
O que defendemos hoje pela Palestina é a defesa internacional da nossa humanidade. Não quero que ninguém acorde um dia de manhã, olhe para o espelho e se pergunte o que fizemos para impedir o genocídio, ou que pergunte ao seu neto, uma criança, o que fizeste para impedir o genocídio. Porque o genocídio está a acontecer hoje na Palestina, mas é o genocídio da nossa humanidade se não agirmos hoje, se não mudarmos este ritmo sombrio em que nos querem transformar para a nossa humanidade; não sei o que será do nosso futuro. É por isso que partimos, é por isso que queremos que as pessoas se levantem, que bloqueiem as fábricas de armas, que bloqueiem as estradas da cumplicidade, que acabem com os governos cúmplices que agem em vosso nome. E vamos proteger-nos a nós próprios, porque eles agem por um interesse comum: tirar à maioria e dar aos poucos que querem beneficiar dos nossos direitos e dos nossos recursos. Quando dizemos “nunca mais“, é para todas, não é para alguém em particular. Nunca mais para todas.
- Yaffa (Jaffa) era o centro económico, cultural e urbano mais importante da Palestina árabe antes de 1948, famosa pela sua indústria citrícola. Hoje faz parte da cidade de Tel-Aviv. Durante a Nakba de 1948, as forças sionistas expulsaram 95% da sua população, composta por mais de 80.000 palestinianos [↩]
- De origem arabe, significa “agitação“, “levantamento“, ou “revolta“, e é o nome popular usado para descrever uma revolta ou rebelião palestiniana contra o controlo israelita. Refere-se principalmente às insurreições de 1987-1993 (“Guerra das Pedras“, ou “1ª Intifada“) e de 2000-2005 (“Intifada Al-Aqsa“, ou “2ª Intifada“), e embora tenha origem na desobediência civil, é frequentemente associado à resistência violenta [↩]
- Francesca Albanese é a Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados. Embora tenha apoiado a Flotilha, na conferência realizada em Bruxelas, na Bélgica, a 22 de abril de 2026, distanciou-se da ação de 2026, questionando as suas ações, que qualificou de “simbolismo“, e opôs-se as ações de bloqueio de portos. A sua declaração causou confusão e críticas no seio da Flotilha, quando esta já se encontrava a navegar, assumindo todos os riscos inerentes [↩]
- A ‘Grande Marcha do Retorno‘ foi uma série de manifestações pacíficas, realizadas todas as sextas-feiras na Faixa de Gaza, perto da fronteira Gaza-Israel, entre 30 de março de 2018 e 27 de dezembro de 2019, com a exigencia que os refugiados palestinianosos fossem autorizados a retornar às terras de onde foram deslocados, no que hoje é Israel. Protestavam também contra o bloqueio terrestre, aéreo e marítimo de Israel à Faixa de Gaza, e contra o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel pelos Estados Unidos. Os ativistas pretendiam que durasse apenas de 30 de março de 2018 (Dia da Terra) a 15 de maio (Dia da Nakba), mas as manifestações continuaram por quase 18 meses. No total, as forças militares israelitas mataram 223 palestinianos, incluindo 46 crianças, e mais de 9000 pessoas sofreram ferimentos [↩]
- A ‘Marcha do Sal‘, liderada por Mahatma Gandhi, entre 12 de março e 6 de abril de 1930, foi uma campanha fundamental de desobediência civil pacífica contra o monopólio britânico do sal na Índia. Gandhi caminhou mais de 300 km, desde Sabarmati até Dandi, para recolher sal ilegalmente, reunindo milhares de pessoas num protesto que enfraqueceu o colonialismo e que culminou, finalmente, na independência da Índia em 1947 [↩]