Por Guido Poletti, da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
O governo ultradireitista de Milei acaba de criar o “gabinete de resposta oficial“. A cargo do órgão (que não terá o mesmo destino da ‘motosserra‘, porque para isso haverá orçamento) estará Juan Pablo Carreira, conhecido pelo apelido de “Joe Doe“, um dos tuiteiros que costuma lançar as expressões mais repudiáveis e provocadoras do governo (comparável apenas ao seu colega Daniel Parisini, conhecido como “Gordo Dan“). Na prática, trata-se de uma conta na rede social ‘X‘, que funcionará como uma espécie de “Ministério da Verdade“, ao melhor estilo de George Orwell em 1984. O comunicado que anuncia a sua criação não deixa margem para interpretações duplas sobre os seus objectivos: “Vamos combater a desinformação fornecendo mais informação, ao contrário do que fazem os setores políticos ligados à esquerda quando governam, onde procuram censurar os opositores tanto nos meios de comunicação tradicionais como nas redes sociais“.
Milei não é original nem mesmo nisso. Ele copia tal qual a estrutura de um escritório semelhante montado por Donald Trump, com sua conta no ‘X‘ “Rapid Response” (‘Resposta Rápida‘). O grau de submissão ao mestre ianque é tal que Milei tenta copiá-lo em cada gesto.
É falso que este governo “não censura“: será que não retirou as credenciais de jornalistas de “que não gostava na Casa do Governo“? Será que não proibiu imagens, exceto as oficiais, em vários eventos, para invisibilizar a repulsa ao governo? Será que não vem atacando fisicamente de forma sistemática os jornalistas que cobrem manifestações, como as quartas-feiras dos aposentados? Será que não atirou em Pablo Grillo? Será que não proibiu o vôo de drones sobre a Praça do Congresso para que não fosse possível registrar a ação repressiva?
É óbvio que, a partir desta conta, agora “oficial“, procura-se silenciar, intimidando, os jornalistas que se atrevem a informar sobre casos como o escândalo das propinas na Agência de Deficiência, a fraude da criptomoeda $LIBRA ou outros, e também todos os ativistas que se atrevem a ligar a câmara de um telemóvel para registar a realidade.
Para este governo de extrema direita, a “informação” consiste em inundar as redes sociais com um exército de ‘trolls‘1, que espalham notícias falsas (sim, eles) ou insultos misturados com mentiras, como a recente de Lilia Lemoine contra o menino Ian Moche e sua família.
“Não odiamos muito os jornalistas“, disse repetidamente o presidente Milei. Seria preciso acrescentar: “exceto os amigos“, que humildemente lhe garantem entrevistas onde aceitam tudo, dele e da sua claque, sem pestanejar.
A mentira, o insulto ao jornalismo, a ameaça aos opositores, o uso de expressões discriminatórias, é o menu que a extrema direita mundial utiliza. O próprio Donald Trump faz isso, a partir das contas oficiais. Mentir, insultar, fazer barbaridades discriminatórias como a recente de trucar Obama e a sua esposa disfarçados de primatas. Milei copia-o, procurando imitá-lo até nos gestos.
“Excelente iniciativa“, escreveu o ministro da Economia, Luis Caputo, o mesmo que diz que nunca na vida comprou roupa na Argentina e que, há alguns meses, ameaçou um jornalista por divulgar que a sua fortuna estava num paraíso fiscal, tal como dizia a própria declaração juramentada do ministro. Entenda-se bem, ele não negou com provas (aliás, não poderia, porque essa é a verdade), mas ameaçou diretamente o jornalista por “divulgar a informação“. Sandra Pettovello também aplaudiu: lembremos que ela ameaçou processar jornalistas por divulgarem a corrupção dentro do seu ministério de Capital Humano. E, claro, também aplaudiu o inefável ministro Adorni, o responsável direto por expulsar jornalistas credenciados da Casa do Governo pelo simples facto de não gostar das perguntas que lhe faziam nas suas insuportáveis ‘conferências de imprensa‘.
É o mesmo governo que, no seu projeto de reforma laboral, revoga o estatuto do jornalista, tirando-lhes todos os direitos e garantias mínimas para o exercício de sua profissão.
O “gabinete de resposta oficial” estreou-se questionando uma nota do jornal ‘Clarín‘, sem sequer a ter lido bem. Mas, no mesmo dia da sua estreia, já começou a atacar a classe trabalhadora e ativistas, com um tweet comemorando o processo judicial e eventual despedimento dos delegados e ativistas do Hospital Garrahan2, mentindo descaradamente sobre os motivos: “eles colocaram em risco o funcionamento do hospital e agrediram o pessoal que desempenhava tarefas críticas“.
Não nos confundimos. Não importa que o primeiro tweet desta conta de ‘X‘ tenha sido contra uma nota do ‘Clarín‘. Sabemos que qualquer ataque à liberdade de expressão, mais cedo ou mais tarde, recai sobre os lutadores, a classe trabalhadora e a esquerda. Milei e Joe Doe levaram apenas algumas horas para provar isso, com o seu tweet sobre o Garrahan. Repudiamos este uso fascista da publicidade oficial. Somos solidários com todas as organizações de jornalistas que se manifestaram para repudiar essa aberração. Por isso, defendemos irrestritamente o direito à liberdade de expressão e somos contra qualquer ataque, muito mais ainda vindo deste governo ultradireitista que tenta copiar até mesmo o estilo das práticas fascistas de Trump.
- Na gíria da Internet, designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão e a provocar conflitos, com o intuito de enfurecer as pessoas nela envolvidas com comentários intencionalmente ofensivos ou irrelevantes, e assim gerar reações [↩]
- Hospital público pediátrico em Buenos Aires, que em 2024 viu o seu financiamento por parte do governo federal congelado [↩]