Peter Isely, survivor of sexual abuse, and founder of ECA (Ending Clergy Abuse) Tim Law attend a march with survivors of clergy sexual abuse and activists near the Vatican, in Rome, Italy, September 27, 2023. REUTERS/Guglielmo Mangiapane

Vaticano: o encobrimento como política de Estado

6 de Maio, 2026
2 mins leitura

Por Daniel Vera, membro da ‘Rede de Sobreviventes de Abusos Eclesiásticos de Argentina’

Infelizmente para milhões de católicos com verdadeira fé religiosa, as notícias dos últimos tempos revelam de forma objetiva que a Igreja Católica é uma instituição que encobre a pedofilia dos seus membros e outros crimes.

Cinco órgãos de comunicação social (El País, de Espanha; Correctiv, da Alemanha; Boston Globe, dos EUA; Observador, de Portugal; e Casa Macondo, da Colômbia) conduziram, durante dois anos, uma investigação que resultou na confirmação de que o Vaticano sempre teve conhecimento dos casos de pedofilia em todo o mundo, que sabe muito mais do que admite e que nunca revelou o que sabe. A investigação revela que o regime de Hitler perseguiu a Igreja com campanhas de difamação e que o abuso de menores era uma das acusações mais utilizadas. Por isso, o Vaticano deu a ordem para que todo o material de arquivo relativo a casos de imoralidade de religiosos e padres fosse queimado. “A principal preocupação não era o reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, mas a preservação da ordem eclesiástica e a proteção da reputação do clero“, opina o historiador espanhol Jabes. A marginalização das vítimas não foi apenas o resultado acidental de circunstâncias políticas difíceis, como as do regime nazi, mas sim uma consequência estrutural da forma como o problema foi definido e abordado no seio da cultura jurídica e institucional da Igreja. Uma das investigadoras, Anna Kassin, afirma que “o Vaticano ordenou que se antepusesse o bem da Igreja ao das crianças“.

Na Argentina, uma investigação de Horacio Verbitsky, publicada 50 anos após o golpe cívico, militar e eclesiástico, revela que, em 1978, o Episcopado católico tinha conhecimento do que se passava e encobriu os factos. Não é uma novidade: é uma confirmação do que já sabíamos. O ditador Jorge Videla confessou à cúpula da Igreja Católica argentina, em 1978, que os detidos-desaparecidos tinham sido assassinados. Os prelados informaram o Vaticano e ofereceram-se para ajudar a Junta Militar a lidar com o assunto, mas decidiram não se pronunciar publicamente. O desaparecimento forçado de pessoas era um sistema que se realizava em nome da salvação da “civilização cristã“. Pio Laghi, Primatesta, e outros bispos da Conferência Episcopal, não só aconselharam a Junta sobre como lidar com a questão dos detidos-desaparecidos, como também ofereceram os seus “bons ofícios” para informar algumas famílias do assassinato dos seus filhos, garantindo que não o tornassem público.

Na recente resolução da ONU que declara o tráfico de escravos como o crime contra a humanidade mais grave da história, são mencionadas, entre os instrumentos jurídicos que legitimaram esta atrocidade, as bulas papais de 1452 e 1455 que autorizavam a redução de africanos à “escravidão perpétua“. No Estado espanhol, sob a égide do Instituto Pontifício João Paulo II, a Universidade Católica de Valência concedeu títulos oficiais a investigações que associam a homossexualidade à pedofilia e propõem o uso de medicamentos para reprimir a orientação sexual. Um mecanismo de créditos universitários que serviu de base teórica para as terapias de conversão, hoje ilegais. E o próprio Estado conseguiu, através da Provedoria do Povo, garantir que a Igreja cumpra o seu dever num programa de reparação às vítimas de violência sexual eclesiástica.

Como afirmamos na ‘Rede de Argentina‘, não estamos contra a fé de ninguém, mas contra os crimes de qualquer pessoa. Toda esta informação demonstra que a Igreja Católica deixou um legado de milhões de sobreviventes ao longo da sua existência. Para evitar que estes crimes continuem a ser cometidos, lutamos para retirar Deus da Constituição Nacional e afirmamos com toda a nossa força:

SEPARAÇÃO IMEDIATA entre a IGREJA e o ESTADO!

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