Eleições no Brasil: derrotar o bolsonarismo no segundo turno

7 de Outubro, 2026
4 mins leitura

Por Adolfo Santos, dirigenteda Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e da UIT-QI

O candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), venceu no primeiro turno com 47% dos votos contra Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), com 45%. Agora, os dois candidatos voltarão a defrontar-se a 25 de outubro, no segundo turno, para definir o novo presidente. É imperativo unir forças para derrotar o Bolsonaro.

O resultado causou surpresa. A maioria dos analistas previa uma eleição polarizada, com uma pequena vantagem a favor de Lula, tanto no primeiro como no segundo turno. Não foi isso que aconteceu. Infelizmente, venceu Flávio, o filho de Jair Bolsonaro, membro de um clã representativo da extrema-direita, negacionista da ditadura e das alterações climáticas, responsável por mais de 700 mil mortes durante a pandemia da Covid-19, misógino, anti-direitos, e que responde diretamente às políticas de Donald Trump.

Foi um voto errado na tentativa de punir a falta de soluções por parte de Lula e do PT para os problemas crónicos da desigualdade social, do endividamento familiar e dos cortes orçamentais na saúde e na educação, enquanto se favorece o sistema financeiro, o agronegócio e os grandes empresários. Trata-se de um novo fracasso dos governos de centro-esquerda, de conciliação de classes, que não propõem um programa capaz de resolver a crise do capitalismo.

É o que alguns analistas designam por “democracia de um mandato“. Governos que assumem o poder repletos de promessas, mas que não correspondem às expectativas dos eleitores, os quais, desiludidos, procuram uma mudança ou manifestam-se através de elevadas taxas de abstenção. É o que tem acontecido com vários governos ditos progressistas que, apesar do discurso ambíguo e de algumas medidas progressistas parciais, governam a favor dos grandes interesses económicos.

Por que razão a extrema-direita avança eleitoralmente?

Fartas de austeridade e da falta de perspetivas, as massas populares não aceitam pagar o preço da crise e procuram mudanças, mesmo que seja por caminhos errados. Desde 2003 até hoje, o PT governou durante 17 anos sem alterar as bases desse sistema capitalista em crise. Não respondeu às reivindicações dos trabalhadores e das trabalhadoras, dos reformados e das reformadas, da juventude, das mulheres e da pobreza estrutural. É aí que se incuba o voto de protesto manifestado neste primeiro turno.

A falta de resposta a esses setores permite o crescimento da extrema-direita. Eleição após eleição, o PT perde votos no movimento operário industrial e na classe trabalhadora em geral, que foi o seu grande capital inicial. Abandonou as suas reivindicações originais para atender aos grandes empresários. Também não valorizou os direitos dos reformados, nem adotou políticas que atendessem às reivindicações do movimento feminista, como a legalização do aborto ou a criminalização da misoginia e da ideologia “red pill”1.

Ao não responder com medidas concretas a estes problemas, acaba por impulsionar a extrema-direita, que penetra, com falsas soluções, em setores que se sentem desatendidos. É isso que explica, em parte, o seu avanço no controlo de ambas as câmaras do Congresso Nacional ou no número de governadores eleitos. Chega-se ao ponto em que uma das candidatas mais votadas em São Paulo, o principal estado do país, a bolsonarista Eduarda Campopiano, afirma que o feminicídio não é crime, ou celebra a chegada da colonização portuguesa porque “impediu que os índios continuassem a comer-se uns aos outros“. Um nível de barbárie inaceitável.

Contra Bolsonaro e Trump, voto crítico em Lula

Uma vitória bolsonarista seria um duro golpe para os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, da juventude e das mulheres. Daria força às políticas de Trump, Benjamin Netanyahu e Javier Milei. Por essa razão, a Corrente Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores (CST), secção brasileira da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional(UIT-QI), apela a que saiamos às ruas em mobilização e votemos criticamente em Lula, acompanhando a vontade de milhões de trabalhadoras e trabalhadores e da juventude que rejeitam a possibilidade de um novo governo bolsonarista.

Na primeira volta, a CST apoiou a candidatura presidencial de Hertz Dias, do PSTU, e apresentou candidatas socialistas e feministas ao Congresso Nacional. Propôs um programa de classe, com independência em relação ao governo patronal de Lula-Alkmin. Hoje, a realidade coloca-nos perante o dilema: Bolsonaro ou Lula. Impõe-se a tarefa de mobilizar o povo trabalhador para derrotar a extrema-direita, sem depositar qualquer confiança num governo do PT. Como afirma a CST: “Apesar de todas as nossas divergências com o governo, faremos campanha e apelamos a um voto crítico em Lula para derrotar Bolsonaro e Trump“.

No seu comunicado, a CST lança um apelo especialmente dirigido a organizações sindicais, estudantis e populares, como a CUT, a UNE, a Ubes, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo sem Medo, para que “sigam o exemplo das juventudes de Espanha, da França e do Chile. Só nas ruas, com a mobilização dos trabalhadores e da juventude, será possível derrotar a extrema-direita bolsonarista e o trumpismo“.

  1. “Red pill” (‘Pílula Vermelha‘) é uma metáfora originada no filme Matrix (1999) que, no contexto atual da internet, representa o suposto “despertar” de homens para uma visão de mundo onde acreditam ser vítimas de uma sociedade dominada por mulheres e pelo feminismo. Surgiu em fóruns nos anos 2000 (Reddit, 4chan) e tem ganho força através das redes sociais e podcasts, muitas vezes disfarçado de “autoajuda” ou “liberdade de expressão“, sendo adotado por comunidades online masculinas (conhecidas como “machosfera“) para disseminar ideologias anti-feministas, machistas e misóginas. Prega que os homens perderam o seu espaço e poder na sociedade ocidental, encarando relações, amorosas ou não, como disputas de poder ou jogos de interesse. O seu discurso inferioriza as mulheres, objetificando-as e promovendo o ódio contra elas, rotulando-as como não confiáveis ou servis [↩]
Ir paraTopo

Don't Miss