Declaração conjunta em várias cidades: «Queremos liberdade!»

9 de Outubro, 2026
6 mins leitura

Pelo Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP), secção da UIT-QI na Turquia

Os membros da Campanha “Queremos Liberdade“, que se reuniram na sequência das operações policiais de 12 de setembro de 2026, que tiveram como alvo as pessoas LGBTQIA+ e as organizações LGBTQIA+, e das detenções que se seguiram, realizaram ontem (8 de outubro) conferências de imprensa em Ancara, Istambul, Mersin, Çanakkale, Esmirna e Diyarbakır. A conferência de imprensa em Istambul decorreu na Secção de Istambul do Partido da Democracia dos Trabalhadores (IDP). Participaram na conferência a Associação de Estudos sobre Política Social, Identidade de Género e Orientação Sexual (SPoD), a Lambdaistanbul, a LİSTAG (Famílias e amigos de pessoas LGBTI na Turquia), a Associação HEVİ LGBT+ e inúmeras comunidades LGBTQIA+, organizações de mulheres e partidos políticos de Istambul. Partilhamos o comunicado de imprensa conjunto lido em todas as cidades.

“TODOS OS LUGARES SÃO PRISÕES, QUEREMOS LIBERDADE!”

Nós, no âmbito da campanha “Queremos Liberdade“, reunimo-nos hoje como pessoas LGBTQIA+ e defensores dos direitos humanos de todo o país. Estamos juntos para fazer ouvir a nossa voz simultaneamente nas ruas, nas praças e nos campus universitários. Sabemos que a igualdade, a justiça e a liberdade são uma luta comum de todos nós; contra o ódio e a discriminação, defendemos uma vida igualitária e livre, onde haja lugar para todos. Apesar daqueles que querem ignorar-nos, apagar-nos e isolar-nos, celebramos a nossa existência e gritamos a uma só voz: Estávamos aqui, estamos aqui, estaremos aqui!

A esta escuridão na qual tentam aprisionar-nos, à censura e às repressões crescentes, juntam-se todos os dias novas medidas. A operação “A minha família está segura” (‘Ailem Güvende‘), levada a cabo no sombrio aniversário de 12 de setembro1, constituiu a manifestação mais evidente da violência estatal e das políticas de hostilização dirigidas contra as pessoas LGBTQIA+. Com as graves violações de direitos, as acusações infundadas e as detenções ilegais resultantes desta operação, os nossos direitos humanos mais fundamentais estão a ser pisoteados. Ao contrário dos medos infundados impostos à sociedade, relembramos mais uma vez: as pessoas LGBTQIA+ não são uma ameaça, nem para a sociedade, nem para as nossas famílias; as pessoas LGBTQIA+ fazem parte da vida e da sociedade. A verdadeira ameaça é esta mentalidade fascista que marginaliza as pessoas LGBTQIA+, as prende, as afasta da vida e as leva ao suicídio, desprezando a vida humana em nome de interesses políticos. De facto, as reações aos ataques contra as pessoas LGBTQIA+ revelaram que o que ameaça a família são os homicídios de mulheres, os casos de violência doméstica, o abuso infantil e a pobreza, demonstrando que o discurso e as operações do governo, destinadas a desviar a atenção, não tiveram sucesso. Na Turquia, onde o anterior ministro da Família roubou do bolso do povo uma quantia que nem sequer conseguimos quantificar, a alegação de que as pessoas LGBTQIA+ constituem uma ameaça à família revela o que o governo espera da guerra que declarou contra as pessoas LGBTQIA+.

Hoje, levantamos também a nossa voz em nome de todos os prisioneiros LGBTQIA+ que estão injustamente detidos e privados da sua liberdade apenas pela sua existência e pela sua luta pela igualdade. Estas pressões políticas e campanhas de ódio, que procuram criminalizar as nossas vidas e restringir os nossos espaços de vida, têm de cessar imediatamente. Exigimos liberdade imediata e incondicional para todos os nossos amigos que foram injustamente detidos, julgados sem respeito pela lei e cuja prisão continua marcada por tortura e violações de direitos!

Hoje, a nossa voz não se limita às praças; ressoa em todos os recantos das nossas casas – das janelas às varandas -, desde os nossos locais de trabalho até às redes sociais, em todos os domínios da vida. Juntamente com as organizações LGBTQIA+ e todas as organizações amigas que apoiam esta luta justa, agitamos as nossas bandeiras e exibimos as nossas cores com orgulho.

O direito das pessoas LGBTQIA+ a uma vida segura, igualitária e sem violência é indiscutível. Abraçando a nossa alegria, os nossos desejos, uns aos outros e as nossas cores; exigimos, sem hesitação, sem “mas” e sem “poréns“, os nossos direitos fundamentais para todos. Apesar daqueles que tentam silenciar-nos prendendo-nos, continuaremos a escrever a nossa própria história em todos os lugares onde respiramos e a tecer, ponto a ponto, a solidariedade com todas as cores do arco-íris.

Dirigimos esta mensagem a todos aqueles que sonham com um mundo igualitário e livre: vejam-nos, ouçam a nossa voz. Até que cheguem os dias em que viveremos todos juntos, lado a lado e em liberdade, sob o arco-íris, nunca desistiremos das nossas vidas nem dos nossos direitos. Porque sabemos muito bem que não estamos sozinhos, não estamos errados, somos muitos! Por todas as pessoas LGBTQIA+, em todas as áreas, #QueremosLiberdade e não se esqueçam: #EstamosEmTodoO Lado, amor!

  1. O ‘Golpe de Estado Turco de 1980’, liderado pelo Chefe do Estado-Maior General Kenan Evren, foi o terceiro golpe de Estado na história da República da Turquia. Parte do país encontrava-se sob lei marcial, imposta na sequência do ‘Massacre de Maraş‘, em 1978. No final da década de 1970, eclodiu uma violência política sem precedentes; estima-se que o número total de mortos na década de 1970 tenha sido de 5.000, com quase dez assassinatos por dia. A maioria era composta por membros de organizações políticas de esquerda e de direita, então envolvidas em confrontos acirrados, sendo exemplos notáveis o ‘Massacre da Praça Taksim‘ (Também conhecido como ‘Primeiro de Maio Sangrento‘) de 1977, o ‘Massacre de Bahçelievler‘ de 1978, e o ‘Massacre de Maraş‘, nos quais ativistas de esquerda, sindicalistas e curdos foram todos atacados pelos “Lobos Cinzentos“, um grupo ultranacionalista neofascista que constituía a organização juvenil do MHP (Partido do Movimento Nacionalista), partido de extrema-direita que atualmente apoia o governo minoritario de Erdoğan. Nos dias que se seguiram ao golpe, o parlamento foi suspenso, todos os partidos políticos foram dissolvidos e os seus líderes detidos. As greves foram declaradas ilegais e os sindicatos foram suspensos. Governadores locais, presidentes de câmara e funcionários públicos foram substituídos por militares, tendo sido impostos toques de recolher à noite e proibida a saída do país. Num curto espaço de tempo, houve entre 250.000 e 650.000 pessoas detidas. Entre os detidos, 230.000 foram julgados, 14.000 foram privados da cidadania e 50 foram executados. Além disso, centenas de milhares de pessoas foram torturadas e milhares desapareceram. Um total de 1.683.000 pessoas foram colocadas na lista negra. Um dos efeitos mais visíveis do golpe foi na economia, que se encontrava à beira do colapso, com uma inflação de três dígitos. Em 1979, Turgut Özal, um subsecretário do governo, implementou reformas económicas, conhecidas como as “Decisões de 24 de Janeiro“, que abriram caminho para um maior neoliberalismo na economia turca. Após o golpe, foi nomeado vice-primeiro-ministro da Turquia, responsável pela economia no governo de Ulusu, e continuou a implementar reformas económicas. Özal apoiou o FMI e, para tal, forçou a demissão do diretor do Banco Central, İsmail Aydınoğlu, que se opunha a isso. O governo congelou os salários, enquanto a economia sofria uma redução significativa do setor público, uma política deflacionista e várias mini-desvalorizações sucessivas. Durante os três anos seguintes, as Forças Armadas turcas governaram o país através do Conselho de Segurança Nacional, antes de a democracia ser restaurada com as eleições gerais turcas de 1983. Este período assistiu a uma intensificação do nacionalismo turco do Estado, incluindo a proibição da língua curda. As eleições de 1983 foram vencidas pelo “Partido da Pátria“, de centro-direita/liberal, liderado por Turgut Özal, que era ele próprio meio curdo e governou a Turquia até à sua morte, em 1993. A Turquia regressou parcialmente à democracia em 1983 e totalmente em 1989. A proibição da língua curda foi levantada em 1991. Após o referendo constitucional de 2010, foi iniciada uma investigação sobre o golpe de Estado e, em 2012, um tribunal turco aceitou as acusações contra o general Kenan Evren. Este foi condenado a prisão perpétua em 2014, mas não foi enviado para a prisão, uma vez que se encontrava hospitalizado para receber tratamento médico. Faleceu no ano seguinte [↩]
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