Por Enrique Larancuent, millitante do Movimento Socialista de Trabalhadoras e Trabalhadores (MST), secção da UIT-QI na República Dominicana
O dia 23 de junho de 2026 ficará na memória como o início de um novo ciclo político contrário ao domínio da velha guarda do Partido Democrata na cidade de Nova Iorque. Partindo de uma plataforma progressista, pró-imigrantes, centrada na resolução da crise do sistema de saúde e da habitação, e à esquerda da velha guarda do Partido Democrata, a irrupção dos socialistas democráticos no cenário eleitoral teve um impacto avassalador a nível nacional. Tanto a imprensa liberal como a conservadora concordam que o avanço da esquerda reformista constituiu um terramoto político com consequências a curto e longo prazo na política local e nacional. Os setores derrotados foram a AIPAC (organização de lobby sionista), a extrema-direita e os políticos neoliberais.
O clima político nos Estados Unidos pode ser resumido como contraditório, marcado por avanços e recuos: por um lado, assiste-se a um avanço da extrema-direita e do neofascismo. Por outro lado, existe uma grande mobilização política progressista e de esquerda em repúdio às rusgas da imigração e ao genocídio em Gaza. O ativismo pró-palestiniano deu um impulso à esquerda, enquanto a imagem do liberalismo tradicional sofreu um grande revés devido ao genocídio sionista, dada a cumplicidade de Joe Biden, Kamala Harris, Gavin Newsom e da maioria dos congressistas e senadores democratas no armamento de Israel. Essa crise dos liberais tem beneficiado em grande medida os setores da esquerda reformista, como o Socialistas Democráticos da América (DSA), que ocupam cada vez mais espaço no Partido Democrata. A DSA é uma organização que atrai eleitores de esquerda, mas também liberais-reformistas que ainda não romperam com o Partido Democrata ou com o sistema capitalista. Dentro da DSA confluem várias tendências, desde reformistas que defendem uma maior colaboração de classe através do Partido Democrata até setores que se autoproclamam socialistas revolucionários, os quais alegam que é importante organizar-se no seio daquela que se tornou hoje a maior organização de esquerda, com 100.000 membros a nível nacional.
Derrota do sionismo
As derrotas de vários candidatos pró-sionistas do establishment do Partido Democrata perante candidatos democratas de centro-esquerda, como Brad Lander, aliado do presidente da câmara socialista democrático Zohan Mamdani, e candidatos da DSA, fizeram soar o alarme nos setores tradicionais do partido “que se mete em tudo” da ala liberal dos Estados Unidos.
Para além de uma simples troca de nomes, o resultado representa uma evidente viragem eleitoral para a esquerda e consolida uma tendência em ascensão: a crescente oposição, especialmente entre os jovens, ao sionismo nas bases do Partido Democrata. Entre os candidatos derrotados figura Dan Goldman, um congressista sionista abastado, herdeiro da fortuna da família Levi Strauss, que enfrentou o democrata Brad Lander, um sionista liberal mas, ao mesmo tempo, crítico do genocídio em Gaza, tendo dado o seu apoio aos acampamentos estudantis e aos protestos em apoio ao povo palestiniano. Além disso, dois candidatos de origem dominicana que recebiam apoio dos setores sionistas sofreram derrotas esmagadoras nas primárias: o jovem político Antonio Reynoso, que recebia dinheiro da AIPAC, e Adriano Espaillat, outro político cuja campanha foi financiada pelo sionismo. A derrota de Espaillat foi a mais inesperada, por ter contado com o apoio financeiro e político de setores sionistas, da extrema-direita norte-americana e de círculos de poder ligados à direita dominicana, incluindo o governo trumpista de Luis Abinader. Apesar da campanha racista contra Darializa Ávila Chevalier, também de origem dominicana e militante do DSA, Espaillat não conseguiu conter o avanço de uma corrente que exige uma mudança de rumo. A campanha racista foi denunciada pela esquerda e até mesmo pela imprensa burguesa, como o New York Times.
Os sionistas perderam, apesar de terem contado com o apoio da burocracia sindical. A derrota dos candidatos do establishment é também uma derrota dessa liderança sindical, conservadora e cúmplice do sistema. Nas eleições intercalares “Midterms”1 de novembro, que poderão transformar-se num referendo de rejeição às políticas trumpistas, os candidatos pró-palestinianos e de esquerda irão enfrentar a máquina do Partido Republicano, de direita.
A irrupção da esquerda reformista está a ter um grande impacto a nível nacional. Uma semana após o terramoto político em Nova Iorque, no estado do Colorado, a candidata ao Congresso do DSA, Melat Kiros, de 29 anos, derrotou a congressista Diana DeGette, pondo fim, com um discurso pró-palestiniano e progressista, a uma carreira política de 30 anos.
O avanço do DSA é importante porque abre um novo espaço político à esquerda do Partido Democrata e reflete um processo de mobilização e organização de uma parte da juventude que se politizou nos últimos anos. Mas as contradições do DSA e dos seus candidatos não podem ser ignoradas. Em primeiro lugar, porque a estratégia de utilizar o Partido Democrata para apresentar candidatos socialistas-democráticos acaba por reabilitar a imagem de um partido imperialista e genocida, como é o caso do Partido Democrata. Além disso, os candidatos do DSA que atuam no seio do Partido Democrata têm-se mostrado historicamente incoerentes com a causa palestiniana quando apelam ao voto em políticos como Biden e Harris, que apoiaram o genocídio do povo palestiniano, ou votam diretamente a favor de “armamento defensivo” para Israel, como fizeram a Alexandria Ocasio-Cortez e o Bernie Sanders. Em segundo lugar, porque o Partido Democrata nunca foi um partido social-democrata ou da classe trabalhadora; pelo contrário, tem-se aproveitado da fraqueza da esquerda para atrair setores progressistas que acabam por capitular perante a colaboração de classes e a imposição de políticas anti-laborais e pró-imperialistas, sob pena de serem marginalizados e excluídos do aparelho.
Se, a partir da DSA, se pretende construir uma alternativa política ao Partido Democrata, o correto seria apelar a uma ruptura e construir uma organização independente dos dois partidos da burguesia imperialista norte-americana.
A DSA e as novas gerações têm de ter em conta que a estratégia eleitoral com o Partido Democrata tem limitações e tem sido posta à prova há décadas, sem sucesso na concretização de mudanças políticas a nível nacional. A experiência da candidatura progressista do falecido reverendo e ativista afro-americano Jesse Jackson na década de 1980, no seio do Partido Democrata, terminou em derrota para muitos setores da esquerda que se integraram com a intenção de influenciar e mudar a orientação do partido.
A ascensão de Zohran Mamdani
Após a vitória dos socialistas democratas, a figura de Zohran Mamdani surgiu como um ator político fundamental e um estratega central na política nova-iorquina e no próprio aparelho democrata. A sua consolidação não esteve isenta de pragmatismo. Num esforço para manter a governabilidade e enviar um sinal de distensão, Mamdani optou por um tom conciliador e por não destituir do cargo a chefe da polícia de Nova Iorque, uma figura abertamente alinhada com o sionismo.
Enquanto a popularidade do presidente Donald Trump está em queda, a popularidade de Mamdani está em ascensão, graças à implementação de programas que visam aliviar os efeitos da crise económica nos setores empobrecidos e explorados. Recentemente, a administração de Mamdani obteve uma vitória contra os senhorios e proprietários de edifícios ao pôr em prática um programa de congelamento das rendas por um período de dois anos.
Contra-ofensiva do “establishment” democrata
Como era de esperar, o avanço da DSA desencadeou uma feroz contra-ofensiva por parte da ala conservadora do partido. Figuras da velha guarda, como o estratega clintonista James Carville, juntamente com vários senadores, partiram ao ataque para tentar travar a influência da esquerda.
A pressão vem de várias frentes: políticos conservadores como o senador democrata John Fetterman – cada vez mais alinhado com o trumpismo e fanático por Israel – instaram abertamente os socialistas a abandonarem as fileiras democratas e a fundarem o seu próprio partido político.
Outros setores do establishment democrata optaram pela via ideológica. Após a derrota nas eleições primárias, um grupo de congressistas democratas lançou um manifesto que reafirma o caráter estritamente capitalista do Partido Democrata e repudia qualquer programa socialista.
Ruptura geracional
O sucesso eleitoral do DSA não é um fenómeno que surge da noite para o dia. O avanço eleitoral dos socialistas democráticos resulta de uma profunda ruptura política e geracional nas bases democratas no que diz respeito à política externa da Casa Branca, em particular à sua relação histórica com Israel.
Esta mudança política nas fileiras do eleitorado democrata é o resultado de décadas de ativismo pró-palestiniano nas universidades, nos recentes acampamentos estudantis e de uma repulsa generalizada entre os jovens eleitores ao genocídio em Gaza. A derrota de figuras tradicionais é o sintoma de uma base eleitoral que já não está disposta a assinar cheques em branco. Mas isso não é suficiente: os setores dentro da DSA que se autoproclamam revolucionários e socialistas devem aproveitar o impulso político e lutar pela ruptura; é urgente construir uma alternativa política de esquerda que leve a luta não só no terreno eleitoral, mas sobretudo nas ruas, nas universidades e nos locais de trabalho. Estes processos já estão a ocorrer, como demonstra a luta contra o ICE e contra o genocídio sionista; é o momento de lutar para concretizar uma expressão organizativa nacional para esse movimento que atualmente é canalizado eleitoralmente pelo DSA, rompendo com o Partido Democrata para que este não continue a ser o “cemitério dos movimentos sociais“.
- São eleições intercalares para a ‘Câmara dos Representantes‘ e o ‘Senado‘, do Congresso norte-americano [↩]