Por Esperanza Hermida, do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela
Para milhões de venezuelanos que abandonaram o país em busca de oportunidades, mas que vivem em condições precárias na América Latina, nos EUA e em Espanha, o apelo de Jorge Rodríguez (Presidente da Assembleia Nacional, e irmão da Presidente, Delcy Rodríguez) para “superar” o passado e regressar à Venezuela gerou uma onda de cepticismo. Para muitos migrantes, o gesto é uma clara demonstração de cinismo, considerando que o governo de Delcy Rodríguez – em aliança com Trump – não restabeleceu o poder de compra dos salários e que o governo de Maduro destruiu a economia e a segurança social do país.
Entre 2015 e 2026, a Venezuela viveu o maior êxodo da sua história, com 7,9 milhões de pessoas que optaram por fugir da crise económica, da insegurança, da repressão e da falta de oportunidades de trabalho. 89,6% ficaram na América Latina e nas Caraíbas. Na sua maioria, eram pessoas em idade produtiva, incluindo profissionais do ensino, da saúde, do setor petrolífero e trabalhadores altamente qualificados, que procuravam um futuro melhor para si e para as suas famílias.
No entanto, a realidade laboral no estrangeiro tem sido difícil. Na América Latina e nas Caraíbas, 82% dos migrantes venezuelanos encontram-se no setor informal, com salários precários e sem direitos laborais. Em países como a Colômbia, a informalidade atinge 73,1%; no Peru, 93,7%; e no Chile, 63,8%. A sobrequalificação é a norma: engenheiros conduzem táxis, médicas vendem arepas na rua e professores limpam casas. 62% dos profissionais não exercem a sua profissão.
Em Espanha, muitas das pessoas que sustentam o sistema de cuidados são da Venezuela. Dos 518.918 venezuelanos recenseados, 285.996 contribuem para a Segurança Social. O restante está desempregado, inativo ou na economia subterrânea. Na Galiza, a CEFILVEGA (Associação Civil Centro de Formação e Investigação Laboral Venezuelana na Galiza) constata que 4 em cada 10 mulheres venezuelanas empregadas trabalham na área dos cuidados, e 62% têm um diploma universitário não homologado, ganham entre 700 e 900 euros por mês como empregadas domésticas sem documentos, com jornadas que ultrapassam as 60 horas semanais. Segundo sindicatos como o CCOO (Confederação Sindical das Comissões Operárias) e a UGT (União Geral dos Trabalhadores), existe um contingente de enfermeiras, professoras e psicólogas venezuelanas que cuidam de idosos em condições de exploração. “É um sistema que se baseia na precariedade destas mulheres“, denuncia a CIG (Confederação Intersindical da Galiza).
Nos EUA, a situação é ainda mais crítica. Após a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, o governo de Trump acelerou as deportações. Em março de 2025, o Estatuto de Proteção Temporária (TPS) foi suspenso para 472.000 venezuelanos, que perderam a sua autorização de trabalho. Agora, muitos vivem com o medo constante de serem deportados e são obrigados a aceitar trabalhos informais e mal remunerados.
Entretanto, na Venezuela, 5,1 milhões de reformados sobrevivem com pensões de 3,2 dólares por mês. A situação é tão grave que a ONG ‘Convite‘ registou 3.200 mortes de idosos entre 2018 e 2023 associadas à falta de medicamentos e tratamentos básicos. O cabaz de compras ultrapassa os 550 USD.
O regresso à pátria depende de uma melhoria substancial das condições estruturais do país, especialmente do restabelecimento dos salários, e não de “virar a página”, como Jorge Rodríguez cinicamente pretende. Enquanto esta transformação económica não ocorrer, o êxodo venezuelano continuará a crescer e a esperança de um regresso digno desvanece-se.
DADOS CHAVE:
– 82% dos migrantes venezuelanos na América Latina e nas Caraíbas trabalham no setor informal
– 62% dos profissionais não exercem a sua profissão
– 3.200 mortes de idosos por falta de medicamentos entre 2018 e 2023
– Os venezuelanos ganham 38% menos do que os locais pelo mesmo trabalho na América Latina
– 5,1 milhões de pensionistas com 3,2 USD/mês
EXIGÊNCIAS:
– Condições laborais favoráveis ao regresso da classe trabalhadora venezuelana no estrangeiro
– Aumento do salário e restabelecimento da segurança social na Venezuela
– Respeito pelos direitos laborais e sindicais
– Respeito pelos direitos laborais universais e regularização da situação administrativa dos migrantes venezuelanos no estrangeiro: Nenhum ser humano é ilegal!