Derrota histórica do ultradireitista Orbán na Hungria

13 de Abril, 2026
3 mins leitura

Por Miguel Lamas, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na venezuela, e da UIT-QI

Nas recentes eleições na Hungria, após 16 anos no poder, a derrota sofrida pelo representante da extrema-direita, o fascista Viktor Orbán, foi esmagadora. Orbán contou com o apoio internacional de Donald Trump, Vladimir Putin, Benjamin Netanyahu e figuras de referência da extrema-direita europeia, como Santiago Abascal (‘Vox‘) no Estado Espanhol, Giorgia Meloni, que governa a Itália, Marine Le Pen (‘Reagrupamento Nacional‘) deputada em França, e setores neonazis da Alemanha e da ‘Alternativa para Alemanha‘, para além de Javier Milei na Argentina. A sua derrota é uma derrota para todos eles e tem repercussão internacional.

Pouco depois da divulgação dos resultados, as ruas de Budapeste e de outras cidades encheram-se de gente, sobretudo de jovens. Dezenas de milhares celebraram com entusiasmo o fim do regime de Orbán. Os meios de comunicação independentes falaram do “fim do governo arbitrário” e do “derrube da ordem de Orbán“.

Após 16 anos no poder, o ‘Fidesz‘, o partido de Orbán, foi arrasado. A oposição, liderada por ‘Tisza‘, obteve uma maioria de dois terços. Houve uma participação muito elevada para a tradição eleitoral húngara, próxima dos 80%. Manifestou-se um “voto de castigo” contra Orbán, para além do facto de muitos eleitores não terem a certeza do que o novo governo irá fazer.

Repercussão internacional

O governo húngaro de Orbán apoiou publicamente os ataques a Gaza por parte de Israel e dos Estados Unidos, bem como as agressões contra o Irão e o Líbano. Manifestou também o seu apoio à invasão da Ucrânia pela Rússia. Orbán foi o único representante de países europeus a visitar Netanyahu depois de o Tribunal Penal Internacional ter emitido, a 21 de novembro de 2024, mandados de detenção pelos seus crimes em Gaza.

O presidente Donald Trump fez tudo o que estava ao seu alcance para ajudar o seu aliado Orbán. Chegou mesmo a enviar o seu vice-presidente, JD Vance, a Budapeste, a capital da Hungria, em plena campanha eleitoral. Mas isto acabou por se virar contra ele. A rejeição a Trump naquele país contribuiu para agravar a derrota de Orbán. Um verdadeiro bumerangue.

Repúdio popular nacional

A política económica implementada por Orbán favoreceu o grande capital nacional e imperialista, como a indústria automóvel alemã, e a sua base na classe média alta. Em contrapartida, a maioria da população húngara viu a sua situação piorar nos últimos anos. À elevada inflação juntaram-se a deterioração das infraestruturas públicas, da saúde e da educação, bem como um descontentamento generalizado devido à corrupção e aos casos de enriquecimento ilícito, em que “75% dos contratos governamentais foram para empresas associadas aos amigos de Orbán“.

Durante 16 anos, o primeiro-ministro aplicou ainda políticas xenófobas e racistas contra estrangeiros e minorias nacionais, especialmente os ciganos, comunidades originárias da Índia que habitam a Hungria e a Europa Oriental há várias gerações. Também promoveu políticas machistas, misóginas e anti-LGBT, repressão contra opositores de esquerda e ataques aos direitos sindicais. Tudo isto gerou um forte prejuízo para as maiorias populares e uma crescente rejeição eleitoral.

Preparar-se para enfrentar quem ganhou

O novo primeiro-ministro, Péter Magyar, conseguiu impor-se como principal opositor de Orbán, apesar de ter feito parte do seu círculo até há dois anos. Magyar provém de uma família burguesa de Budapeste e define-se como “conservador“. A sua vitória explica-se, em grande parte, pela retirada de outros partidos da oposição. O seu objetivo é alinhar-se mais com o imperialismo da União Europeia e menos com Trump e Putin.

Verificou-se uma mudança de guarda burguesa liberal. Da esquerda, não se dá apoio político ao novo governo. Pelo contrário, o povo trabalhador e a juventude deverão enfrentá-lo para conquistar mudanças sociais e económicas reais. Isto não nega que a derrota da extrema-direita na Hungria e dos seus aliados seja um facto positivo para os trabalhadores e trabalhadoras do mundo.

Milhões de pessoas comemoraram o resultado em vários países. Se a isto acrescentarmos a queda na popularidade de Trump nos Estados Unidos, de Milei na Argentina ou de José Antonio Kast no Chile, fica claro que os povos estão dispostos a fazer-lhes pagar por isso a estes figuras de extrema-direita.

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