Por Miguel Lamas, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na venezuela, e da UIT-QI
Os crimes do presidente e dos seus agentes do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos), que incluem torturas, assassinatos e violações sexuais, geraram uma enorme indignação e uma mobilização sem precedentes, que obrigou o próprio presidente a dar um passo atrás, embora parcial. Durante este segundo mandato de Trump, 37 pessoas já morreram sob custódia. Donald Trump disse explicitamente que o seu objetivo é expulsar um milhão de imigrantes por ano, e o chefe da Casa Branca não só garante impunidade aos agentes desse corpo e à Guarda Nacional, como também os exalta como “patriotas” por suas ações criminosas e aprovou orçamentos recordes para a instituição.
Lembremos que ICE é um corpo que, por meio de ações autenticamente fascistas, persegue violentamente os migrantes, aterroriza-os, detém-nos e prende-os para sua imediata deportação. Multiplicam-se situações terríveis que se tornam virais nas redes sociais, como o caso de um menino de cinco anos usado para capturar o seu pai, e a seguir prendê-lo juntamente com ele.
Os ataques do ICE não se limitam exclusivamente à população imigrante, mas estendem-se também a todos aqueles que se solidarizam com ela. A 24 de janeiro, em Minneapolis, a polícia federal assassinou Alex Pretti, enfermeiro de cuidados intensivos e cidadão norte-americano de 37 anos. A cena foi transmitida em milhões de telemóveis com detalhes horríveis. Três semanas antes, tinham assassinado outra cidadã norte-americana, Renee Nicole Good, também residente em Minneapolis.
A resistência cresce
As greves da última sexta-feira em várias cidades, com Minneapolis como centro, foram uma resposta contra as ações dos agentes federais, do ICE e da repressão imigratória do governo. O resultado foi o encerramento de empresas e dezenas de milhares de pessoas saindo às ruas em 200 cidades do país. “Não trabalhar, não ir à escola e não fazer compras” foi o slogan. Os gritos e cartazes com slogans como “Abolish ICE!” (‘Abolir o ICE‘) e “No ICE, no KKK, no fascist USA” (‘Não ao ICE, não ao KKK, não ao EUA fascista‘) destacavam-se entre a multidão.
Em Minneapolis e Saint Paul, as chamadas Cidades Gêmeas, vem se desenvolvendo uma forte solidariedade com a população migrante ameaçada pela violência repressiva do governo. Para garantir a greve de sexta-feira, foram lançadas várias iniciativas, como mobilizações dentro de centros comerciais pedindo o encerramento de lojas e uma grande intervenção no aeroporto local para garantir a paralisação dos voos programados. Durante esta última ação, cerca de cem pessoas foram detidas. À tarde, desafiando o frio extremo da onda polar que cobre grande parte dos Estados Unidos, várias colunas de manifestantes chegaram ao centro da cidade com cartazes exigindo justiça para Renee Good e para todos os assassinados. Também exigiram a dissolução do ICE, o fim das rusgas e uma clara rejeição à política do governo de sustentar o genocídio em Gaza, as suas agressões à Venezuela e as suas ameaças à Gronelândia.
Essas mobilizações foram impulsionadas pelo ‘Movimento 50501‘ (‘50 protestos, 50 estados, 1 movimento‘), que desde a posse de Trump do seu segundo mandato reuniu diversas organizações para enfrentar o autoritarismo, a repressão e os planos de austeridade promovidos por Washington. Para o próximo dia 17 de fevereiro, está sendo preparada uma nova mobilização em direção ao Congresso em um “Dia Nacional de Ação Direta”. Por sua vez, os sindicatos da Saúde começam a discutir possíveis paralisações contra a repressão, enquanto mantêm uma greve histórica nos grandes hospitais privados de Nova Iorque.
Recuo parcial do governo
Diante da crescente indignação popular, o presidente foi obrigado a demitir recentemente Gregory Bovino, que chefiava as operações do ICE em Minneapolis e era responsável pelas medidas mais abusivas da operação repressiva. Foi substituído por Tom Homan, o chamado “czar da fronteira“, que anunciou um plano de desaceleração para reduzir a presença federal e tornar as operações “mais eficientes e seguras“. Não é que as perseguições vão acabar, mas evidentemente o governo teve que frear a escalada repressiva diante da ascensão contra ele.
As mobilizações destas semanas são as maiores desde o início dos levantes populares em várias cidades da Califórnia no ano passado contra as deportações em massa. O extraordinário é que grande parte dos participantes não eram migrantes, mas cidadãos americanos ‘em situação regular‘.
Tudo isso se soma às derrotas eleitorais que o trumpismo vem sofrendo nas eleições parciais. A mais retumbante foi, sem dúvida, a vitória de Zohran Mamdani, ativista que se define como socialista democrático e pró-palestino, na prefeitura da cidade de Nova Iorque. As pesquisas indicam que a maioria rejeita as políticas do governo, tanto contra a imigração quanto por suas ameaças internacionais, incluindo uma eventual agressão contra a Groenlândia. A previsão, até o momento, aponta para uma dura derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato em novembro, o que poderia significar que Trump perderia o controlo de ambas as câmaras do Congresso.
A oposição também cresce entre personalidades do mundo artístico e do desporto. Já vimos manifestações de Lady Gaga, Billie Eilish e Mark Ruffalo, com Bruce Springsteen a lançar a canção “Streets of Minneapolis” em protesto contra a violência dos agentes federais de imigração na cidade. O próprio presidente antecipou que não irá ao Super Bowl no próximo dia 8 de fevereiro, temendo a recepção do público e as manifestações contra ele que os músicos convidados possam fazer. De facto, a atração principal ficará a cargo de Bad Bunny, músico porto-riquenho autor de ‘Nuevayol‘, canção em que reivindica a identidade porto-riquenha e se opõe à política de deportações.
Na Unidade Internacional de Trabalhadores e Trabalhadoras – Quarta Internacional (UIT-QI), solidarizamo-nos com as mobilizações em curso e exigimos justiça para as pessoas e ativistas assassinados. Exigimos a libertação dos migrantes presos e o fim das deportações em massa. Somos solidários com a exigência da dissolução do ICE e da retirada imediata das forças federais dos bairros populares. A mais ampla unidade contra Trump, seus bandos fascistas e suas políticas de agressão imperialista.