Por Nicolás Núñez, da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
A Conferência das Partes (COP) é a principal instância de tomada de decisões da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC), e reúne 198 partes (197 países e a União Europeia). Este ano, realizou-se em Belém, no norte do Brasil, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva.
Dez anos após o Acordo de Paris
A COP30 foi convocada por ocasião do décimo aniversário do ‘Acordo de Paris‘, quando os governos do mundo se comprometeram a envidar os esforços necessários para que a temperatura global não ultrapassasse, ao longo do século, um aumento de 1,5 graus centígrados em relação à era pré-industrial. Ultrapassar esse limite significaria abrir um cenário incerto e de riscos catastróficos para toda a espécie humana.
A realidade é que a temperatura média dos últimos três anos já ultrapassou esse limiar. Em 2024, chegou mesmo aos 1,6ºc, o que o torna o ano mais quente dos últimos 125 mil do planeta.
O relatório publicado pela Universidade de Oxford “O estado do clima em 2025: um planeta à beira do abismo“, compila investigações que indicam que, dos 34 sinais vitais planetários analisados, 22 encontram-se em estado de emergência.
Nesse contexto, destaca-se que, em 2024, os incêndios florestais aumentaram 370%. A massa de gelo da Gronelândia e da Antártida encontra-se em mínimos históricos de volume, tendo mesmo ultrapassado pontos de não retorno que ameaçariam provocar um aumento de metros no nível do mar.
Este cenário reflete-se também no furacão mais potente da história, que assolou a Jamaica na semana passada, e nos fenómenos climáticos extremos que vivemos na Argentina: por um lado, tempestades e inundações; por outro, secas e incêndios cada vez mais frequentes.
Se o ritmo atual de aumento da temperatura global se mantiver, os custos associados aos chamados “desastres naturais” decorrentes do aquecimento global implicariam, até 2050, uma perda do Produto Interno Bruto Mundial de 18 biliões de dólares, o equivalente as perdas dos dois anos de pandemia de Covid-19 a multiplicar por seis.
Mais grave ainda: esta dinâmica colocaria em risco de morte cerca de dois mil milhões de pessoas e multiplicaria exponencialmente migrações forçadas provocadas pela crise climática.
A COP “da verdade”?
Após três anos de conferências em países produtores de petróleo (Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão), a convocação da COP30 no Brasil, país onde, em 1992, teve origem a UNFCCC, e sob uma presidência que se autodefine como “progressista”, apresentou-se como a oportunidade de marcar uma viragem para um maior compromisso com o abandono dos combustíveis fósseis.
No entanto, na véspera da cimeira, o próprio Lula autorizou a exploração petrolífera em plena Amazónia, um território hoje ameaçado de morte pelo avanço da fronteira agropecuária e pelas consequências do aquecimento global.
As contradições não ficam por aí: ao inaugurar a cimeira, Lula afirmou que esta deveria ser “a COP da verdade“, um fórum para ações climáticas mais contundentes. Apesar disso, no segundo dia da conferência, a ‘Marcha dos Povos‘ (composta por coletivos socioambientais e povos indígenas), que se mobilizou até à sede em Belém com essa mesma exigência, foi reprimida pela polícia local.
O destaque do evento, no entanto, foi a ausência de Donald Trump, que levou ao extremo o seu negacionismo climático. O principal responsável histórico pelas emissões de gases com efeito de estufa que estão a incendiar o planeta decidiu abandonar as políticas de mitigação e adaptação e duplicar os subsídios ao ‘fracking‘1 nos Estados Unidos.
A mobilização global contra as alterações climáticas conseguiu colocar a questão na agenda e forçar os governos a tomar medidas, ainda que parciais, que apenas ganharam algum tempo face ao colapso.
É claro que só a classe trabalhadora, juntamente com os movimentos socioambientais e os povos indígenas, poderá avançar na articulação de uma estratégia capaz de enfrentar não só as consequências, mas também as causas da catástrofe: um sistema capitalista que destrói o planeta em nome do lucro.
A única saída real passa por governos dos trabalhadores e das trabalhadoras que tomem medidas de fundo no sentido de um planeamento socialista, a única via para evitar a catástrofe que nos ameaça.
- O gás de xisto é um gás natural não convencional que se encontra aprisionado em rochas sedimentares de baixa permeabilidade, e é extraído através de ‘fraturamento hidráulico‘ (‘fracking‘), isto é, a perfuração vertical e horizontal a grandes profundidades (até 3.000 metros) e a injeção de água, areia e químicos no solo a alta pressão para assim libertar o gás. É uma fonte de energia abundante e apresenta menores índices de emissões de gases de efeito estufa em comparação ao carvão, mas bastante controversa devido a utilização exigente de grandes quantidades de água e produtos químicos, com riscos de contaminação de lençóis freáticos, micro-sismos e emissões de metano durante o processo de extração [↩]