Não estamos com Maduro, mas rejeitamos os bombardeamentos imperialistas nas Caraíbas e as ameaças de agressão à Venezuela

8 de Novembro, 2025
4 mins leitura

Pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção da UIT-QI na Venezuela

Há dois meses, o ultradireitista Donald Trump lançou uma grande operação militar nas costas do Caribe, que será ampliada nos próximos dias com a chegada à região do porta-aviões nuclear USS Gerald Ford, o maior e mais moderno da frota imperialista.

Este dispositivo, não visto nas Caraíbas desde a invasão norte-americana ao Panamá em 1989, tem sido responsável por vários ataques a embarcações (supostamente de ‘narcotraficantes‘), que até agora resultaram em mais de 60 pessoas mortas em águas internacionais no Mar das Caraíbas e do Oceano Pacífico, frente às costas da Venezuela, Colômbia e México. Trata-se de uma contraofensiva imperialista que representa uma nova ameaça dos Estados Unidos contra os povos do Caribe e da América Latina.

Os Estados Unidos, como principal potência imperialista, estão mergulhados há décadas numa profunda crise de domínio hegemónico, de caráter multidimensional, que se expressa, tanto na ordem económica, como na política e militar. Esta operação bélica faz parte de uma política global de Trump que visa reverter essa crise de domínio da principal potência imperialista, no quadro geral da crise económica global do capitalismo, a maior da história.

A política de Trump visa aprofundar a pilhagem das semicolónias, impondo acordos unilaterais aos diferentes países, inclusive às potências imperialistas menores europeias, enquanto avança com medidas antidemocráticas e repressivas no interior dos Estados Unidos. É nesse quadro geral que ele leva adiante a sua “guerra comercial“, com a imposição arbitrária de altas tarifas às demais economias do mundo; a sua política migratória racista; ataques aos direitos das mulheres e a comunidade LGBTQIA+, particularmente visado sobre a comunidade Trans; e até mesmo ameaças de se apropriar do Canal do Panamá, anexar a Groenlândia, numa clara ofensiva contra a União Europeia, ou mesmo converter o Canadá no seu “51º estado”, todas bravatas que até agora não conseguiu concretizar.

É no contexto acima descrito que se produz o recrudescimento da sua ofensiva no hemisfério, que inclui: a militarização do Mar das Caraíbas e do Oceano Pacífico ocidental; os bombardeamentos de embarcações civis com o falso argumento da luta contra o narcotráfico; as sanções a Petro e outros funcionários colombianos; a declaração do regime venezuelano como um “cartel do narcotráfico“; e as ameaças de bombardeios contra a Venezuela e a Colômbia.

No entanto, o imperialismo norte-americano enfrenta sérias contradições internas para levar adiante essa política agressiva. Setores importantes da base MAGA (Make America Great Again – Tornar a América Grande Novamente) de Trump questionam essa política e pedem que se concentre no ajuste económico e na política anti migratória interna, em vez de se envolver em novas guerras no exterior. Por sua vez, senadores republicanos e democratas denunciaram os bombardeamentos e as possíveis operações secretas da CIA na Venezuela. Da mesma forma, a mídia norte-americana fala da iminência de um ataque à Venezuela, mas Trump nega, evidenciando as contradições no seio do imperialismo. Até mesmo o Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, foi obrigado a declarar que os bombardeamentosnas Caraibas são ilegais, refletindo a magnitude da crise do capitalismo imperialista.

Partido Socialismo e Liberdade (PSL), secção venezuelana da Unidade Internacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras – Quarta Internacional (UIT-QI), considera que o dispositivo militar norte-americano no Caribe constitui uma ameaça real para a Venezuela e para o povo trabalhador do nosso país.

Não apoiamos o governo de Maduro, que consideramos um regime capitalista autoritário que, sob um falso discurso socialista, reprime e oprime o povo trabalhador; mas somos categoricamente contra as ameaças do imperialismo norte-americano à Venezuela, repudiamos os bombardeamentos realizados nas Caraíbas, bem como qualquer ataque ou tentativa de invasão militar ao país. Nesse contexto, continuaremos a lutar pelo respeito aos direitos democráticos da classe trabalhadora e dos setores populares, na perspectiva de um governo dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Nessa linha de pensamento, rejeitamos as opiniões vergonhosas e escandalosas de María Corina Machado, Edmundo González, Yon Goicoechea, Leopoldo López e setores da oposição burguesa venezuelana, que apoiaram publicamente a operação militar de Trump nas Caraíbas, e promovem uma eventual intervenção militar no país. Machado também apoiou Netanyahu e o genocídio que o regime sionista está a levar a cabo em Gaza.

É preciso reconhecer que o povo venezuelano está dividido em relação à ameaça dos Estados Unidos às nossas costas. Erroneamente, um setor importante de trabalhadores e trabalhadoras, setores populares e jovens, veria com bons olhos algum tipo de intervenção estrangeira que favorecesse a saída do governo de Maduro, enquanto outro setor assume uma posição de indiferença. Isso se explica pela repulsa generalizada a um governo que aplica um plano de austeridade capitalista brutal, e descarrega a crise sobre os ombros do povo trabalhador.

A rejeição a mais de duas décadas de crise, destruição dos serviços públicos, salários de fome e perseguição contra qualquer dissidência política, bem como a repressão brutal do ano passado após a fraude eleitoral, são as razões que explicam que, no nosso país, não haja, por enquanto, um movimento massivo de rejeição às ameaças do imperialismo, independente do setor que apoia o governo de Maduro.

Para conseguir unificar o povo venezuelano na repulsa ao imperialismo e enfrentar com sucesso qualquer forma de agressão, é necessário que o governo acabe com a repressão, suspenda a austeridade que aplica, aumente os salários, recuperando o nível de vida dos trabalhadores e dos setores populares. É preciso aplicar medidas concretas sobre os interesses económicos do imperialismo norte-americano no país, tais como a expulsão das transnacionais ‘Chevron‘e ‘Sunergon Oil‘ do setor petrolífero, bem como de outras empresas norte-americanas, e proceder à libertação de todos os presos políticos e sindicais que se opõem a qualquer intervenção imperialista, como seria o caso do ex-candidato presidencial Enrique Márquez. Da mesma forma, é necessario que se restabeleça os direitos políticos do povo venezuelano e facilite a legalização dos partidos de esquerda, como o PCVPPT/APRMarea SocialistaPSLLTSRevolución Comunista, bem como todos os partidos democráticos que rejeitam as ameaças imperialistas.

Não é o imperialismo nem o ultradireitista Trump que vão resolver os problemas do país e do povo trabalhador venezuelano. Somente a luta da classe trabalhadora e dos setores populares pode produzir as mudanças profundas de que precisamos.

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