A justificação “moral” do poder opressivo era, e continua a ser, o papel da Igreja Católica

4 de Novembro, 2026
2 mins leitura

Por Daniel Vera, membro da ‘Rede de Sobreviventes de Abusos Eclesiásticos de Argentina’

Ao longo do século IV, a Igreja Católica passou de ser perseguida a tornar-se a religião oficial do que restava do Império Romano. Foi a herdeira desse império na Idade Média, e, a partir desse momento, posicionou-se ao lado do poder.

Nesse período cultural, era a Igreja Católica que detinha o poder sobre os meios de comunicação social, que eram os púlpitos, enquanto a ciência oficial era redigida pelos padres. Os reis eram-no pelo poder de Deus; a “garantia” de que assim fosse era concedida pela Igreja.

A instituição humana mais implacável na defesa de uma fé religiosa e de uma ideologia foi a Inquisição. Através dela, a Igreja foi a autora do primeiro manual de criminologia etiológica, o ‘Malleus Maleficarum‘ (“O Martelo das Bruxas“). Este manual legitimou o assassinato de um número enorme de mulheres, um verdadeiro genocídio inquisitorial de mulheres, às quais chamou de bruxas para justificar o seu assassinato. Assim, rapidamente, a Igreja deixou a sua marca nas estruturas legais e judiciais do mundo da cultura ocidental.

A expansão capitalista pelo mundo também a teve como protagonista. Foi o braço moral de um dos piores genocídios da história. Justificou a conquista, a pilhagem e a devastação do novo continente, chamando a esse genocídio de “evangelização“. Assim, a Igreja mundial celebrou, em 1992, os 500 anos da evangelização da América.

Posteriormente, a Igreja Católica legitimou a expansão e o tráfico de africanos escravizados através de bulas papais e promoveu a evangelização forçada das populações nativas. Concedeu à Coroa portuguesa a exclusividade da exploração e o direito de subjugar pagãos e muçulmanos, justificando a expansão com a “salvação das almas e a propagação do cristianismo“, como também à Coroa espanhola igreja atraves das ‘Bulas Alexandrinas‘, nomeadamente a ‘Bula Inter Caetera‘,o direito exclusivo de explorar as terras americanas e de subjugar os povos nativos, novamente sob a justificativa e a obrigação de convertê-los ao cristianismo.

Através da encíclica Rerum Novarum (“Das Coisas Novas“), do Papa Leão XIII (Papa entre 1878 e 1903), em 1891, a Igreja Católica adaptou-se ao poder em funções. Já não existiam reis. Cabia-lhe agora estar do lado da burguesia.

Todos os governos totalitários do mundo receberam apoio moral da Igreja. Foi através dos ‘Pactos de Latrão‘, de 1929, e em troca do reconhecimento oficial do Estado italiano governado por Benito Mussolini, que a Igreja obteve a criação da Cidade do Vaticano.

Desde o primeiro golpe de Estado na Argentina, em 1930, a Igreja Católica sempre foi beneficiária de “favores” dos governos de facto. Os maiores benefícios foram-lhe concedidos durante a última e mais sangrenta ditadura, que teve início há 50 anos.

E como todo o abuso é abuso de poder, a Igreja Católica tem como mancha indelével e incontestável o abuso sexual de menores perpetrado por membros da Igreja em todo o planeta, seguindo um padrão de abuso e encobrimento que chega até ao próprio Vaticano.

Por isso, a partir da Rede de Sobreviventes de Abusos Eclesiásticos de Argentina, declarámos que não temos nada a discutir com o Papa Leão XIV. Se a Rede se encontrar com autoridades da Igreja, será num tribunal, onde os responsáveis sejam julgados e condenados pelos seus crimes. Com a tão alardeada “Tolerância Zero” face aos abusos, a Igreja afirma querer lavar as suas culpas, quando na verdade o único que faz é revitimizar os sobreviventes e encobrir os pedófilos eclesiásticos.

Leão XIV não traz nem paz nem justiça. Limita-se a continuar a justificar moralmente os poderosos do momento e a encobrir os abusos eclesiásticos.

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