Por Mónica Schlotthauer, vereadora eleita pela Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos (FIT-U), e membro da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina, e delegada sindical ferroviária
Numa atitude oportunista, os legisladores da província de Buenos Aires têm vindo a apresentar projetos de lei para homenagear a visita do Papa Leão XIV ao nosso país. Aproveitam-se das crenças religiosas sinceras para promover o “negócio da fé“. Para responder a essa hipocrisia, reproduzimos a intervenção na Assembleia Legislativa de Mónica Schlotthauer, dirigente ferroviária e deputada pela Esquerda Socialista/Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos.
As propostas, que vão desde expressar o seu agrado e declarar de interesse legislativo a visita do Papa Leão XIV até impulsionar a iniciativa de grupos católicos para designar uma região do município de La Matanza com o nome do Papa Francisco, fazem parte de uma série de homenagens. O mesmo se passa com as propostas de emitir um selo postal e cunhar uma moeda comemorativa, impulsionadas por deputados nacionais, e com o pedido de Axel Kicillof (ministro de economia no governo da Cristina Kirchner, entre 2015-2019, e governador pela provinica de Buenos Aires desde 2019, pela coligação eleitoral ‘Força Pátria‘, antiga ‘União pela Pátria‘) a Javier Milei para declarar feriado o dia da chegada do Papa e juntar-se à comissão de boas-vindas.
Para explicar o motivo da rejeição a estas homenagens oficiais financiadas com dinheiro do Estado, a deputada Schlotthauer recordou o papel do Vaticano na história. “Com o máximo respeito que merece a fé religiosa de cada legislador, assim como de cada cidadão da Província de Buenos Aires – que não são apenas católicos, pois temos judeus, adeptos da Umbanda, do Santo Daime e de tantos outros credos -, nós, da Frente de Esquerda, temos o dever de dar voz às mulheres que, há décadas, reivindicamos que a Igreja e o Estado são assuntos separados“.
Acrescentou que a Assembleia Legislativa tem de representar todos os cidadãos e cidadãs da província e considerou errado que esta se alinhe para dar o seu aval ao representante de uma instituição que, ao longo da história, tem esmagado direitos humanos fundamentais.
“Rezar a Deus e dar com o martelo”
“Não são a Igreja Católica nem o Papa que nos podem iluminar. A Igreja é responsável pelo genocídio dos povos indígenas quando o nosso continente foi colonizado e abençoou os canhões a favor do ditador Franco na Guerra Civil espanhola. Sob a liderança de Pio XII, foi cúmplice do nazismo que levou a cabo o maior genocídio da história, que começou por matar as pessoas com deficiência, prosseguiu com os judeus, com as minorias sexuais, os ciganos, os bolcheviques e parte das populações dos países ocupados“.
Schlotthauer denunciou que “é a mesma Igreja que, no século passado, defendia o apartheid e a escravatura, que estes projetos legislativos pretendem encobrir. Este Papa representa uma instituição onde nós, mulheres, temos sido sistematicamente demonizadas. Chamam-nos bruxas porque a Igreja Católica liderou a Inquisição que levou milhares de mulheres à fogueira, acusadas de bruxaria; chamam-nos mentirosas ou inventoras de histórias porque esta Igreja estabeleceu que o pecado original teve origem quando uma mulher mordeu o fruto proibido“.
Em seguida, referiu-se a uma ferida aberta nos nossos dias. “A Igreja de Leão XIV é aquela que, há décadas, protege os abusos eclesiásticos, fez da pedofilia uma prática e encobre os responsáveis por este crime gravíssimo. Uma Igreja que, por um lado, abençoa e, por outro, flagela os corpos de crianças e adolescentes. É ela que, através das suas ONG, nega, nos hospitais públicos, o direito ao aborto legal, seguro e gratuito às raparigas violadas, porque pretende que os hospitais sejam altares onde as raparigas tenham de dar à luz depois de terem sido violadas. É isso que Leão XIV vem defender. Por isso, vamos opor-nos a estes projetos de homenagem“.
Por fim, esclareceu: “Não estamos a falar dos humildes peregrinos, dos crentes sinceros, daqueles que procuram consolo numa crença qualquer; estamos a falar de uma instituição milenar que é praticamente uma multinacional, com uma estrutura oligopolística, que goza de um ‘RIGI eterno’, que não paga impostos e que recebe todo o tipo de benefícios do Estado. Enquanto não temos dinheiro para sustentar as escolas e os hospitais públicos, subsidiam-se as escolas e os hospitais com os quais a Igreja Católica ganha fortunas. É por isso que nos opomos a que se paguem os seus eventos, a sua segurança e o alojamento das suas comitivas“.
A partir da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidos, não vamos homenagear o líder de uma instituição que, historicamente, tem esmagado direitos fundamentais e que agora vem tentar fazer recuar os avanços conquistados pela luta das mulheres e das minorias em nosso país.