Por Francisco Ayala, da Esquerda Socialista (IS), secção da UIT-QI na Argentina
A 10 de setembro de 1984, quando a ferida das Malvinas ainda estava fresca, milhares de trabalhadoras, trabalhadores e moradores de Puerto Madryn mobilizaram-se até ao cais Almirante Storni para impedir que a frota norte-americana se abastecesse em território argentino. Eram os mesmos cais que, apenas dois anos antes, tinham recebido os nossos soldados quando regressavam da guerra.
O governo de Raúl Alfonsín tinha autorizado a entrada dos navios norte-americanos que participavam na operação Unitas para se abastecerem em Puerto Madryn. Mas a resposta popular foi contundente. Os trabalhadores portuários recusaram-se a colaborar e milhares de pessoas marcharam em direção ao porto para enfrentar a presença da frota norte-americana.
Houve gritos, bandeiras e pintadas. Os marinheiros norte-americanos chegaram mesmo a lançar água com mangueiras contra os manifestantes que se encontravam no cais. A mobilização conseguiu, finalmente, que os navios abandonassem o porto. O “Madrynazo” foi uma demonstração concreta da força do sentimento anti-imperialista entre os trabalhadores argentinos. Apenas dois anos após a Guerra das Malvinas, o povo de Puerto Madryn não tinha esquecido o papel que os Estados Unidos tinham desempenhado ao apoiar a Grã-Bretanha durante o conflito.
Em 1982, Puerto Madryn já tinha sido protagonista quando chegaram os soldados argentinos que regressavam das Malvinas. A ditadura tentava escondê-los, mantê-los isolados e evitar o contacto com a população. No entanto, os moradores romperam esse cerco, aproximaram-se para os receber e ultrapassaram as restrições impostas pelo regime.
Quarenta e dois anos depois, essa bandeira voltou a aparecer em terras imperialistas. A mensagem “As Malvinas são argentinas” desafiou uma proibição que contou com o apoio do governo de Javier Milei e voltou a demonstrar que, apesar das tentativas de a silenciar, a causa das Malvinas continua profundamente enraizada.
Isso voltou a manifestar-se no passado dia 6 de agosto, quando milhares de pessoas saíram às ruas contra a tentativa de autorizar a venda de terras a estrangeiros.
Agora, Milei pretende disfarçar-se de defensor das Malvinas para tentar garantir a reeleição. Mas é o mesmo que insultou aqueles que, ao longo da história, defenderam a causa das Malvinas e que se declarou admirador de Margaret Thatcher, a criminosa de guerra que deixou centenas de argentinos mortos.
É também o governo que se ajoelha perante Donald Trump, aprofunda a submissão ao FMI e entrega os nossos recursos. Milei grita agora “Viva a pátria“, mas a sua política continua ao serviço dos interesses imperialistas.
O ‘Madrynazo‘ continua vivo porque demonstrou até onde pode chegar a força de um povo mobilizado. Quarenta e dois anos depois, aquela rebeldia mantém toda a sua atualidade. Porque a memória das Malvinas continua presente e porque, quando o povo trabalhador se organiza e sai para as ruas, até mesmo aqueles que querem convencer-nos de que são poderosos têm de recuar.